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sexta-feira, 9 de abril de 2010

Globalização e: economia ou teologia?...

Max Stackhouse escreveu que "the kind of faith one has makes a great deal of difference in social, cultural, political and economic life — indeed, to the basic contours of civilization" (v. http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=8381 - na 1ª de 5 partes dum ensaio que deverá continuar a ser publicado nesse sítio. Deixo-o aqui assinalado precisamente numa sugestão de prosseguimento de leitura.
Mas entretanto com esta nota: propõe o autor que a actual conjuntura civilizacional, a globalização do mundo, não seja pensada estritamente em parâmetros económicos - os factores gerais das nossas escolhas (recursos, proveitos...) - mas antes a partir do estabelecimento dos valores em função dos quais se ponderam proveitos, dispêndio de recursos... E a religião estará no centro desse estabelecimento. A ideia é antiga. Mas contrapõe-se-lhe a tese mais recente da ética evolucionista - cf. ex. Altruísmo e evolucionismo (2) - que, na base dum darwinismo que por sua vez se inspirou no economicismo de Adam Smith e de Malthus (demografia), proporá que as religiões é que se constituem como investimentos seleccionados ao longo da evolução da nossa espécie, por se revelarem proveitosos para a sobrevivência humana (visto estimularem a entreajuda, animarem-nos face à morte, etc.).
Ficam pois as questões, respectivamente de 1ª e de 2ª ordem: 1ª) É a economia que deve ser pensada na base da religião, para então se interpretar e intervir no actual mundo globalizado, ou, ao contrário, a religião é que deve ser pensada economicistamente, e depois o mundo pensado em conformidade? 2ª) Qual será o critério para decidir a anterior contenda teórica?

quinta-feira, 18 de março de 2010

Um cumprimento à Igreja Católica

Depois de ter lido o best-seller A Desilusão Deus, do célebre biólogo britânico Richard Dawkins, escrevi uma avaliação lógica do seu argumento, cuja 1ª versão incluía uma nota de rodapé que por qualquer razão retirei da versão a publicar. E da qual nunca mais me lembrei até ao telejornal de há bocado, com a notícia da decisão da Igreja Católica bávara de expulsar os sacerdotes pedófilos, e de os denunciar mesmo quando as vítimas se não atrevam a fazê-lo. Sobre este último pormenor tenho algumas dúvidas, em todo o caso vim ver se ainda teria guardada aquela versão não publicada, e, tendo-a encontrado, aqui deixo a referida nota.

«É provável que quando este texto for publicado se esteja a passar um ano sobre a visita de Bento XVI a Nova Iorque. Não tenho uma visão de conjunto da história da Igreja Católica, em todo o caso arrisco-me a sugerir que essa visita constitui um marco na dimensão moral desta história, marco esse particularmente significativo para qualquer reflexão sobre ética e denominações religiosas – deixo pois esta nota ao cuidado de quem porventura quiser co-mentar também os capítulos posteriores de A Desilusão de Deus. Perante um crime cometido no seio de uma instituição, traindo os princípios desta última como foi o caso dos abusos pedófilos por padres norte-americanos, todos quantos, em qualquer medida, se responsabilizem por essa instituição enfrentam um dilema: a) respeitar imediatamente a generosidade desses princípios, acudir às vítimas, neutralizar quem quer que se reconheça como agressor, e aceitar que a instituição não se confunde com os seus princípios, antes resta bem aquém deles; ou b) precisamente negar qualquer diferença entre os princípios e a instituição que os proclama, tomando-a monoliticamente de modo que, na recusa de qualquer mácula no conceito dela, se silenciam as vítimas, e se neutralizam apenas os agressores cujo estatuto hierárquico não os torne importantes para a instituição (o exemplo mais brutal de que me lembro é o dos comunistas soviéticos e chineses que, em nome da humanidade, assassinaram dezenas de milhão de homens e mulheres). Basta lembrar a virulentíssima crítica de Jesus aos fariseus para se tornar evidente que a opção dele foi sempre a primeira. Ao contrário, a opção dos responsáveis pela Igreja Católica norte-americana, concretamente em Boston, foi a segunda. Que os críticos dessa Igreja não cometam porém o erro, metafísico e emocional, que lhe está na base – a redução das pessoas a conceitos institucionais. Bento XVI, indo a Nova Iorque receber privadamente mas com conhecimento público um grupo das referidas vítimas, e repreendendo em público todos quantos nesse caso haviam implementado ou sequer defendido a segunda opção, mostrou duas coisas: desde logo, que a Igreja é multíplice; depois, que se a mesquinhez, o orgulho e a hipocrisia acontece no seu seio, neste caso em bispos noutros em Papas (lembro-me logo da família Bórgia, mas a suspeita desce até por exemplo Pio XII), também é possível que quem é investido nesta última função faça a primeira escolha, reaproximando toda a instituição ao caminho propriamente de Cristo. E não atiremos nós portugueses, mesmo nós açorianos, a pedra para o outro lado do Atlântico. Foi a todos quantos, até sob a coberta das mais pias palavras, na hora da verdade pactuam com o iceberg cuja ponta foi a Casa Pia ou o caso de Lagoa que Bento XVI condenou em Nova Iorque. Os dois caminhos da conclusão do “Sermão da Montanha” (Mateus 7, 13-23) abrem-se sempre a partir de aqui e agora.»

terça-feira, 2 de março de 2010

Sugestão de leitura (outra vez a herança árabe na lusofonia)

"Decía Hegel que el cristianismo o era Trinidad o no era nada. Bueno, si esto es verdad para el cristianismo más si cabe es válido decir para el Islam que o es unitarismo o no es nada. La unidad de Dios (tawḥid), el que nada a Él pueda ser asociado, o sea, a Él parejo es no uno de los pilares del Islam, sino el pilar mismo donde se
asientan los otros cuatro."
"En esta época en que se buscan puntos de unión interculturales también creemos es menester dar cuenta de aquello por lo que en tiempos y, todavía hoy, nos separamos y por lo que nunca podremos ser unos. La polémica que traemos a colación, si bien antiquísima, pone sobre la mesa la más sutil polémica de la que tenemos noticia entre un filósofo árabe musulmán (de hecho al ser el primer auténtico
filósofo en el Islam y por ser de origen árabe es también conocido como “el filósofo de los árabes), ‛Abû Yûsuf Ya‛qûb ibn ‛Ishaq al-Kindī (796-873) y otro filósofo árabe, pero esta vez cristiano y eminentísimo discípulo de al-Fârâbî, Yahya ibn ‛Adiī (m. 974)."

Estas são citações da Introdução, pelos tradutores castelhanos Santiago Escobar Gómez e Juan Carlos González, de La Polémica Trinitária entre os 2 pensadores árabes acima mencionados, que a LusoSofia disponibilizou online em http://www.lusosofia.net/textos/escobar_gomez_gonzalez_lopez_polemica_trinitaria_yaha_ibn_adii_y_al_kindi.pdf . Assinalo este opúsculo como sugestão de leitura teológica, também metafísica - embora não chegue a indicá-lo aqui na respectiva etiqueta porque o interesse aí é bastante indirecto - mas principalmente para voltar à questão da herança árabe e muçulmana na cultura lusófona. Refiro-me à valorização da unidade e unicidade, uma vez estas reconhecidas no ente mais valorizado (Deus).
No rito religioso, não parece que as culturas lusófonas tenham seguido esta orientação. Mais do que a consideração cristã da Santíssima Trindade, e da consideração católica de Maria e de diversos Santos, aquelas culturas integram o culto do Espírito Santo, inicialmente à margem da hierarquia católica, santos populares não reconhecidos por esta última, os brasileiros integraram ainda tradições animistas africanas, etc. A questão é se esta desmultiplicação se constitui como fundamento de um reconhecimento da diferença em geral.
E a resposta sugerida por estatísticas como as aqui referidas em http://onodoproblemaocidental24x7.blogspot.com/2010/01/da-possibilidade-do-liberalismo-no_11.html é negativa. Estas outras sugerem antes a valorização social do colectivo, salientando-se apenas as diferenças hierárquicas entre níveis de sociedades organicistas onde cada indivíduo apenas é reconhecido segundo a respectiva função para o organismo social. O que 1º se valoriza, pois, é a unidade.
Mais: se se valoriza isso ao mesmo tempo em que se proclama uma identidade ocidental, culturalmente cristã, dessas mesmas culturas, desmente-se uma separação fundamental entre estas e aquela identidade. A qual porém, logo na postulação de Deus como trino a despeito de uno na Sua divindade, coloca a diferença a par da unidade. Ou seja, se há 3 pessoas em Deus, há 3 focos de iniciativa, 3 modos de acção,... mesmo que se concertem entre si, no mínimo não é límpido que possam ser reduzidas a órgãos de um organismo. Uma tal redução, em especial se ingénua (não reflectida criticamente), abre caminho àquele desmentido de uma separação entre a tradição efectiva lusófona e a identidade ocidental, na postulação de uma unicidade cultural, isto é, de uma única possibilidade de ser, na subordinação de qualquer diferença à unidade.
Nem que essa unicidade reste como a pura tensão entre ser e não-ser, verdade e falsidade... que também por referência à cultura árabe aqui abordei em Portugal - uma cultura de fronteira!

Fica a questão do significado cultural daquela diversidade no rito religioso lusófono... Não esquecendo porém que o mais significativo num rito não será a sua forma, mas o modo como é vivido pelas sociedades que o implementam, indiciado indirectamente em tudo o que se relacione a tal rito. Por exemplo, se poderá revelar uma fé católica... também poderá expressar um sentimento panteísta bárbaro prévio à cristianização, modulado hierarquicamente pelos valores muçulmanos que apontámos acima, e quase que apenas travestido das formas ou ritos católicos - como alguns suspeitaram no culto popular do Espírito Santo.
(Numa palavra, "Portugal" designará um país efectivo... ou um sonho, um artifício retórico de um Estado que melhor se chamaria qualquer coisa como "Marrocos-do-Norte"?)

domingo, 27 de setembro de 2009

Ainda Darwin, e o "Deus" da Bíblia ou do Corão... (25/09/09, 3º)

Neste último post em resultado do almoço com o João Paulo, assinalarei uma ideia que nos surgiu na conversa: num recente colóquio sobre Darwin um cientista açoriano terá repisado, pela enésima vez (!), a não intercessão entre razão e fé. Desse modo a explicação da evolução pela i) contingência de novidades pontuais, ii) selecção das mais adequadas ao meio, e iii) transmissão genética destas características, em nada beliscaria uma criação intencional dos entes por um Outro transcendente.
Não é assim.
Nos casos em que o que a fé postula é precisamente o que é negado pela razão esta intersecta aquela, ou seja, a fé enfrenta um problema que urge resolver. Foi por isto que S. Tomás de Aquino escreveu uma série de provas, não propriamente da existência de um Criador, mas da plausibilidade racional dessa existência, depois postulável pela fé - ressalvando porém que a essência, ou os traços de identidade desse Criador escapam a tal abordagem racional. (Falta hoje uma inteligência superior como a desse dominicano para enfrentar, seriamente, o desafio colocado pelo darwinismo...)
Apontarei porém que este desafio não se coloca exactamente à existência de um Criador, nem sequer a uma sua semelhança com as criaturas humanas, mas sim à sua intencionalidade para com estas. Isto é, o darwinismo é compatível com uma origem (e sustentação ontológica) de todo o processo evolutivo pela acção criadora de um ente não dependente desse processo; é compatível ainda com o reconhecimento, por parte destes espécimes humanos que terão surgido pelo acaso e pelas contingências do meio, de que alguma semelhança poderá haver dada a capacidade destes espécimes para criar artística, cientificamente... ou desenvolver criativamente também na ciência, técnica... O acaso da evolução desta espécie no seu todo implica porém que o Criador não intervenha nela. Por outras palavras: ou bem que rezar por exemplo pela recuperação de um filho não tem outro sentido que um autoconforto de alguém que sucumbe ao desespero, ou bem que, contra o darwinismo, há que justificar o inteligent design (teoria criacionista que aceita a evolução, mas orientada para uma meta destinada à partida).

[Analisei e avaliei logicamente a reacção do darwinista Richard Dawkins aos argumentos pela existência de um Criador em http://www.lusosofia.net/textos/albergaria_miguel_soares_de_desilus_o_de_dawkins.pdf. Nesse artigo (para que aliás tenho ideia que já remeti neste blogue), sugeri ainda que, na porta aberta por S. Tomás, na tradição cristã haverá 2 sentidos, e não 1, do termo "Deus". Questões que vão muito, muito para além da ligeireza destes posts em blogues, redes sociais...]