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domingo, 7 de novembro de 2010

Posfácio - Na semana da assunção duma 4ª globalização...

séc. XV - 1ª globalização: expansão marítima europeia (Portugal e Espanha); triângulo comercial Europa (artefactos), África (escravos), Américas (matérias primas); emersão dos Estados europeus e secundarização das instituições supranacionais (Sacro-Império e Igreja). O mundo torna-se 1 só... sob a regra europeia.
1850 - 2ª globalização: Revolução Industrial europeia; alianças cruzadas entre os Estados europeus, que partilham a África, Índia, Sudeste Asiático, e forçam a abertura dos mercados japonês e chinês (Tratado de Nanquim, 1842).
1950 - 3ª globalização: o mundo é ordenado segundo dois blocos ocidentais (democracias capitalistas vs. regimes comunistas), num jogo enquadrado por organizações supranacionais (como a CEE e a EFTA na Europa, ou o FMI para auxiliar Estados em crises financeiras); III Revolução Industrial (robotização, informatização, telecomunicações) e supremacia de grandes empresas internacionais, durante a descolonização pelos europeus. O mundo mantém-se 1 só... na tensão entre 2 regras ocidentais.
1989/91 - prolongamento do jogo: colapso do bloco comunista, mantém-se a ordenação mundial segundo a regra do bloco sobrevivente (emersão dos "tigres do Pacífico", China adere ao GATT...).
Novembro de 2010 - 4ª globalização? Perante a crise económico-financeira dos EUA e maioria dos países europeus, o novo maior exportador mundial, e também o Estado com as maiores reservas financeiras do mundo, a China, depois de crescentemente substituir os Estados europeus em África, intervém na Europa comprando dívida pública dos Estados europeus em maiores dificuldades e investindo nas suas economias (ex. compra de parte do BCP). 2 novidades: a) insuficiência das organizações supranacionais de matriz ocidental na resposta à crise, a China intervém directamente sem cuidar de ascender segundo as anteriores regras do jogo mundial; b) a salvação é extra-europeia, extra-ocidental. E "quem dá o pão, dá o pau".

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sobre as potências emergentes...

Este é o Shinkanzen japonês
 ... e este é o comboio indiano que, dizem, está a caminho de apanhar aquele outro.

Os actuais agentes da ordem mundial

Em correlação ao post anterior creio vir a propósito a nota 2 do ensaio (referido na coluna ao lado) em cujo horizonte evolui este blogue:
"A guerra é outro tema que exemplifica a ruptura dos paradigmas modernos, os quais presumem que o Estado é o principal interveniente nesse fenómeno. Em conformidade a estes últimos o pensamento cinde-se entre duas interpretações: por um lado a teoria dita liberal ou idealista da estratégia, que defende que os Estados tendem naturalmente a concertar-se entre si em vista ao comércio, etc., para optimizarem os poderes que lhes são respectivamente possíveis. Surgindo a guerra apenas por culpa dos que se desenraízam da ordem das coisas, os quais importa assim destituir. Por outro lado a teoria dita realista, segundo a qual os Estados são naturalmente predadores uns dos outros. Pelo que, enquanto a Nação constituir a suprema identidade comunitária, na falta de qualquer instância reguladora os Estados manter-se-ão em jogos de poder que dão lugar à guerra sempre que se quebre o equilíbrio. A paz dependerá então da manutenção dos equilíbrios naqueles jogos. Os anos 1990, porém, subverteram logo pela base esse equacionamento Moderno das relações mundiais. Pois pela primeira vez um império estendeu-se à escala planetária (ainda que apenas nessa década!), ao mesmo tempo que os restantes Estados sofrem os condicionalismos das multinacionais económicas, das mafias, etc. Com esta relativização dos Estados-Nação deixou de se poder equacionar as relações mundiais como a simples alternativa entre o idealismo liberal e o realismo, em função do poder legislativo, executivo e judicial relativo a uma Nação e um território. Vejam-se conflitos como o que opõe a Al-Qaeda e o Ocidente, que parece ultrapassar uma disputa por esse poder.
            Na nova linha dita “construtivista” em teoria da estratégia, Thierry de Montbrial (2002) propõe então o conceito de “unidade activa” para identificar os agentes estratégicos – aqueles sem os quais as relações colectivas seriam diferentes. Isto é, dada uma relação ou problema, “agente” é aquele que faz aí qualquer diferença. Podem ser unidades activas nessas relações os Estados-Nação, mas também as ONG’s, os grandes bancos, a ONU, etc., as quais fazem a diferença em planos e de formas distintas. Mas, para a fazerem, todas têm que verificar duas condições: em segundo lugar, uma organização; em primeiro lugar, fundando a anterior, uma cultura comum aos respectivos elementos. É a partir destas que as unidades activas orientam os seus comportamentos. Cabe assim formular o processo de constituição cultural."

Política - Por um realismo ao serviço do idealismo

O recente Nº 1 (Janeiro/Fevereiro, 2010) do Vol. 305 da revista The Atlantic traz um artigo do historiador David Kennedy que sugere uma articulação (hierarquizada!) entre 2 termos frequentemente contrapostos em política: idealismo e realismo. Em "What would Wilson do?" (pp. 90-94) o autor reporta esse último termo ao clássico dito de Tucídides - os fortes fazem o que querem, os fracos sofrem o que lhes cabe - e ao paradigma internacional estabelecido pelo Tratado de Vestefália - que em 1648 reconheceu a soberania dos diversos Estados. Os realistas procuram assim implementar os respectivos interesses, mas numa rede de reconhecimento mútuo que faculte alguma segurança geral (veja-se a orientação da política externa norte-americana por Kissinger aqui em Sobre a actual retórica política). Em troca, os idealistas assumem os respectivos valores como universais, e dedicam-se à sua realização em qualquer sítio. Kennedy aponta o credo de George W. Bush na democracia e no liberalismo e a sua invasão do Iraque, como exemplos acabados desta posição, de resto própria à visão messiânica que muitos norte-americanos também desde o princípio tiveram do seu país.
A essa contraposição teórico-prática, este historiador contrapõe por sua vez a tradição encetada logo pelo Secretário de Estado John Quincy Adams a 4 de Julho de 1821, quando declarou que a América estaria do lado de quem, em qualquer sítio, lutasse pela liberdade, mas sem se chegar a envolver em conflitos que requereriam recursos morais, humanos e materiais para além dos disponíveis. Nesta linha, Woodrow Wilson lançou as bases da organização mundial que, após a II Guerra Mundial, viria a facultar não só o maior poder de sempre dos EUA como mesmo as melhores 3 décadas de desenvolvimento humano de sempre para o mundo ocidental e Japão. O Presidente Wilson fê-lo sob a máxima de "tornar o mundo seguro para a democracia" - distinta de "tornar o mundo democrático"! - num respeito pelas inter-relações de Vestefália desde que sujeitas a regras, nomeadamente democráticas, que respeitassem os valores norte-americanos.
Com Wilson, pois, mantém-se uma orientação fundamental, que apenas pode ser "idealista", mas cuja implementação é a cada passo "realistamente" condicionada. E os resultados, seja pelo critério realista seja pelo critério idealista, foram os melhores.
Parece-me uma sugestão estimulante para qualquer comunidade ou país, cujas propostas políticas, mesmo que internamente divergentes, se deverão assim constituir como respostas a estas 2 perguntas consecutivas:
1ª) quais são os nossos valores distintivos? - i.e. nas opções que enfrentemos, o que quereremos salvaguardar acima de tudo como indivíduos e na nossa sociedade?
2ª) na presente situação - e esta pergunta repetir-se-á de cada vez que a situação se altere - o que nos condiciona na implementação daqueles valores?
Um país que não responda à 1ª pergunta, será como um cego. Se não responder à 2ª, estará caminhando na berma dum precipício. Não respondendo a ambas, terá a mesma probabilidade de sucesso dum cego caminhando pela berma dum precipício.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Entre Leo Strauss/Al-Zawahiri e Charles Taylor - A força das ideias

Um automóvel a bloquear-me a garagem impediu-me há bocado a comparência a uma reunião, abrindo-me tempo para pôr mails em dia e para ver na íntegra o filme "The power of nightmare", 1ª parte, no post anterior - não direi que este foi um mal que veio por bem... mas pelo menos que pôde ser bem aproveitado!
Apesar da imagem cortada, a locução acompanha-se bem - julgo ser uma leitura muito sugestiva da história internacional recente, e do que conta como seu factor.
Mas depois do seu longo visionamento apontarei apenas 2 notas e mais 1 (que a garagem bloqueada não desculpa a falta a outras tarefas!...): Uma, que bastaria a George Orwell ter chamado ao seu livro "2000", em vez de "1984", e ter dado umas pinceladas religiosas nos discursos oficiais dessa sua obra, para que esta se tornasse numa candidata acabada a representação dos nossos dias segundo aquele filme.
A outra nota, para assinalar que o liberalismo a que se referiu tanto Leo Strauss - acusando-o de promotor do egoísmo e enfim do relativismo e debilidade moral - quanto os islamitas como Al-Zawahiri - acusando-o de ter impregnado o povo egípcio cegando-o para uma reacção ao regime de Sadat - será quando muito apenas uma degeneração do liberalismo que Charles Taylor, na 2º obra referida em 1989-2009: 20 livros que mudaram a nossa visão do  , identificou como próprio da Modernidade ocidental.
O filósofo canadiano argumenta que o conceito de "indivíduo" não se constitui por abstracção de qualquer rede social, isolando-o como um átomo de uma molécula. Antes constitui-se precisamente na sua interacção nas redes de que participa, não se lhes esgotando dada a iniciativa, ou as escolhas que cada indivíduo continua fazendo nesse jogo de influências, condicionamentos, apelos, oportunidades... Segundo este argumento de Taylor, dir-se-á então que os neo-conservadores que invocam aquele 1º filósofo norte-americano, bem como os fundamentalistas religiosos islâmicos, se opõem a uma realidade que simplesmente não o é (real) - i.e. o "liberalismo" de que falam pouco terá acontecido.
Isto não significa, claro, que problemas como a alteração dos equilíbrios ecológicos, a quebra demográfica, a evolução da criminalidade, o aumento das dívidas públicas e do endividamento externo de muitos países ocidentais,... não aconteçam. Apenas que a sua causa não será o liberalismo que mais aconteceu desde a II Revolução Industrial... aliás, será de perguntar se mais depressa o neo-conservadorismo que lhe respondeu desde o fim da década de 1970 não terá algumas culpas no cartório...
Enfim a 3ª nota, anexa às anteriores: quanto mais plausível parecer a interpretação da história proposta naquele documentário da BBC, maior parecerá a força das ideias - e assim a responsabilidade de quem as promove.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Sobre a actual retórica política

Recebi de Íris Morais o link para este filme da BBC, ainda vi apenas o princípio  mas parece-me merecedor duma assistência completa e crítica. Pelo que aqui o deixo com o meu agradecimento à Íris (lamentando apenas não conseguir enquadrá-lo totalmente!).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Erros meus, boa fortuna, dúvida ardente

Acabei de ler o artigo de Jean-Pierre Lehman, "The first decade of the 21st. century: Five remarkable accomplishments" (in: http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=8234 ), que me faz perguntar qual terá sido exactamente o erro em que me mantive ao subordinar a política à cultura.
O autor salienta a emergência e relevância do G20, o desenvolvimento humano (crescimento económico mais evolução social) do Brasil, pergunta-se por uma súbita abertura do Governo japonês aos seus vizinhos, elogia o alargamento da UE como factor de democratização, e depois afasta-se do âmbito geopolítico para o social salientando a difusão mundial dos telemóveis. Pela minha parte, há coisa de 20 anos - com aquele enorme conhecimento que só os jovens conseguem! - dava de barato que o Brasil seria um país sem futuro de maior, e há uns 10 anos desconfiava de uma solidez europeia que facultasse decisões de fundo... (Sorrisos).
Pelo menos a 1ª previsão parece (felizmente!) errada. Quanto à 2ª, ainda recentemente em http://onodoproblemaocidental24x7.blogspot.com/2009/10/o-que-e-que-ue-pode-fazer-por-mim-ue.html duvidei de que estejamos prontos para funcionar sob o modelo institucional mais ambicioso estabelecido pelo Tratado de Lisboa, iremos agora vendo se também aqui estarei felizmente errado.
O pressuposto de uma e de outra foi o mesmo: procurando desde rapaz reduzir a história - ainda que de forma apenas aproximada e instrumental, não como uma representação acabada - a algum factor na base do qual fosse possível compreendê-la em alguma medida, contra os materialistas que apontavam para as relações económicas, tendi a radicar mesmo estas últimas na cultura. A qual seria indiciada por comportamentos repetidos em diversas áreas. Repetindo-se no Brasil a desorganização, o desrespeito por uma larga percentagem da população, etc., não acreditava que verificasse uma cultura - como a que Max Weber atribuiu aos países capitalistas de matriz protestante - que o mobilizasse para o aproveitamento do seu potencial físico. Já no caso da UE a desconfiança não estava tanto na ausência desses princípios, valores, costumes,... mas na sua desmultiplicação e variantes entre os europeus, faltando um denominador comum suficientemente determinado para orientar políticas comuns eficientes face à crescente competição mundial.
O aparente erro da minha previsão brasileira, a que porventura se acrescentará um erro na previsão europeia, dão cheque ao rei (não necessariamente -mate...) àquele pressuposto (na linha de Weber, etc.). Se, na base deste, não for possível responder a esse cheque, abrir-se-ão 2 alternativas, uma fraca, a outra forte:
- o reducionismo historicista funcionará, mas não na base da economia (cf. resultados do comunismo) nem na da cultura, antes noutra base a apontar então;
- nenhum reducionismo funciona, e há que pensar - já não linear mas complexamente - a emergência de estádios históricos a partir de diversos factores que se organizam criando sinergias (1+1=2,5) que constituem tais emergências.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

1 critério para Copenhaga

O Wall Street Journal organizou online o seu Guide to Climate Change (http://online.wsj.com/article/SB10001424052748704007804574574101605007432.html ) em função da próxima conferência de Copenhaga, que substituirá o Protocolo de Quioto. São ali bastantes os editoriais e artigos de opinião, deixo-os para quem tiver a coragem e a energia intelectual para enfrentar sustentadamente a questão - a mim que, confesso, já mas vão faltando, fico-me pelo seguinte balizamento (A), e consequente critério de avaliação do sucesso da conferência (B):
A) Me parece que as actuais posições se dividem entre i) a consideração que as medidas eficazes de diminuição do efeito estufa são hoje demasiado caras (ou seja, as que são comportáveis não passam de cosmética e retórica populista); daí que mais vale adiar essa resposta até esta ser economicamente sustentável, e entretanto bem como nessa altura simplesmente aceitarmos e nos adaptarmos a uma nova atmosfera. Em troca ii) outros consideram que através do sistema dum mercado de licenças de emissão de CO2 será possível levar a estrutura produtiva a uma alteração gradual da produção de energia; segundo estudos do departamento norte-americano de estatísticas da energia, o custo será apenas de 1% do PIB em 2020.
B) Se essa é a situação, então Copenhaga terá sucesso se:
1º Se assumir 1 das 2 posições, apontando a intervenção, e reunindo os meios (pagamento de custos), para o médio ou para o curto prazo - fazer um pouco de tudo costuma significar não fazer o suficiente de nenhum.
2º No âmbito da opção anterior, e por certo distinguindo-se um cenário mais optimista (menos caro, etc.) de outro mais pessimista, se escolher, mais ambiciosa e imprudentemente ou mais prudente e humildemente, 1 cenário, para apontar, quantificadamente, os seus custos previsíveis, bem como o processo de cálculo que aí levou, de forma que possa haver verificação independente dos números obtidos.
3º Se for atribuída a cada Estado, e cada 1 destes assumir a respectiva quota-parte desses custos.
4º Se for estabelecido um sistema prático de fiscalização independente (=internacional) desse pagamento - na substituição de fontes de energia, etc. - pelos Estados.
5º Se ficar assumido um sistema de penalização dos eventuais Estados infractores.
Assinalei a negrito as condições sem as quais diria que só por milagre a declaração final da conferência será para levar a sério. As outras 2 não serão assim necessárias... mas ficamos dependentes da sorte.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

O Tratado de Lisboa e a Europa no mundo

Entra hoje em vigor o Tratado de Lisboa. Já aqui tinha reconhecido, de um lado, esta resposta à dificuldade de se tomarem decisões segundo a anterior organização da UE; mas também, do outro lado, que assim se inverte a lógica minimalista que logrou, pela 1ª vez desde Pierre du Bois, etc., etc., alguma união política europeia (O que é que a UE pode fazer por mim? = UE caminhan... ). Possivelmente condenámos-nos a esta temeridade assim que aceitámos alargar a UE dos 15 - uma vez que se dizia que a estrutura de então já mal era funcional. Mas isto agora importa menos. A decisão foi tomada, e para o curto e (provavelmente) médio prazo esta é a pista que nós europeus trilharemos, e connosco quem connosco se relaciona - assim também se decide da posição da Europa no mundo.
Esse foi o nível mais superficial - e assim mais evidente mas menos decisivo - da opção. Agora jogar-se-à o nível fundamental de qualquer decisão: o daquela entre apontar num sentido e ficar suspirando pelo outro - não aceitando pagar o preço da perda deste e assim não se libertando para explorar a virtualidade do anterior - ou reconhecer que não se pode ter tudo, que o tempo não pára, e que uma vez estabelecida uma opção - mesmo que não aquela que individualmente cada um de nós preferisse (!) - há que aceitar perder os prós da opção enjeitada, que aceitar sofrer os inconvenientes da opção assumida, e desenvolver os convenientes desta última. Em cujo desenvolvimento obviamente se inclui a atenção aos seus riscos! Cada cidadão europeu que se escolha agora nas oportunidades que vá tendo para intervir nesta sua comunidade.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

"Século chinês"? Talvez ainda não

Em contraponto às expectativas em À atenção, no "século chinês" , não devemos deixar de atender a outras como a de Wendy Dobson na sua recente obra Gravity Shift: How Asia's New Economic Powerhouses Will Shape the Twenty-first Century, Toronto: University of Toronto Press, 2009.
Segundo a recensão que me chegou, apesar de reconhecer que os PIB's chinês e indiano deverão alcançar o dos EUA entre 2020 e 2040, respectivamente, a autora nem por isso prevê uma substituição da liderança americana pela chinesa, mais tarde a par da indiana. Pois a aposta chinesa na evolução para o crescimento baseado na produtividade, e não no capital intensivo, implicará desregulamentações - desde a liberalização dos juros à actividade de pequenas e médias empresas não controláveis pelo poder central - muito difíceis de fazer dados os interesses instalados. Por seu lado, o calcanhar de Aquiles indiano será a alteração na legislação laboral - facilitando a contratação, e portanto o despedimento - de modo a permitir aproveitar, num desenvolvimento que (pelo menos em parte) deverá ser de capital e trabalho intensivo, a força de trabalho potencial de 900 milhões de pessoas para 2020, com 250 milhões entre os 15 e os 24 anos (compare-se com as previsões demográficas europeias!...). Além de que a Índia continua por fazer a modernização sócio-económica que desvie para os serviços e indústria a maioria dos 60% da população ainda ligada à agricultura - números dum país nos primórdios de uma revolução industrial, todavia muito avançado nas industrias de telecomunicações, espacial, etc.... imaginem-se as tensões.
Dobson prevê que, à conta desses desafios internos, ambos os países continuarão a constitui-se como contra-balanças do poder no G20, mais do que como super-potências, assumindo-se tão só como potências regionais.
Não sei avaliar até que ponto obstáculos como esses poderão efectivamente tolher o passo de chineses e indianos. Mas apontarei a tensão entre duas observações: uma (li-a não me lembro onde) é a de que a influência cultural tende a decorrer dum mesmo pólo que influencie economicamente - ainda que não estritamente do mesmo país, veja-se desde por exemplo a influência austríaca além da alemã, até à Grécia Helenística (já em decadência) no seio do Império Romano. A outra é a duma provável maior dificuldade chinesa na aceitação da diferença (v. post acima referido), o que não facilitará uma comunicação mais profunda com outras comunidades - embora isso também possa facilitar contactos estritamente económicos e comerciais, como se diz que são os dos chineses em África. Se se verifica esta dificuldade, de origem cultural, e também a 1ª observação, não será fácil aos chineses ascenderem a uma posição semelhante à dos ocidentais nos últimos 500 anos. A novidade deste século, depois do último meio milénio, é capaz de ser antes a multi-polaridade, e o exercício de influências diversificadas por parte de cada potência. A influência cultural, porventura mais do que nunca, será o trunfo ocidental.

domingo, 22 de novembro de 2009

À atenção, no "século chinês"

É precisamente na sua aparência de concordância, de abrangência, que o artigo do ex-Embaixador chinês na ONU, Wu Jianmin, "A Chinese perspective on a changing world" (in: http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=8035) me parece sugestivo sobre a discordância radical entre a civilização sínica e a ocidental.
O autor começa por apontar os PIB's asiático e ocidental antes do séc. XVIII, daí até ao fim do séc. XX, e as suas evoluções nas últimas décadas - é sabido: a China terá acumulado a maior riqueza mundial até à Revolução Industrial, depois a Europa e América do Norte ultrapassaram-na, para agora se perspectivar o regresso à antiga correlação. Juntando-lhe a habitual desproporção demográfica, depois do séc. inglês e do séc. americano o séc. actual será, senão o séc. asiático, pelo menos o do Pacífico. Wu aponta porém uma diferença abissal entre essas dominações: "When Europe and America rose, they did it at the expense of others — there were many conflicts and wars. But today, Asia is rising with the rest of the world rather than against it". Como acentua noutra passagem, a cultura ocidental - nomeadamente americana - constitui-se e define-se por oposição a algum inimigo, é essencialmente competitiva... para não dizer belicosa; já a cultura sínica será essencialmente cooperativa, e portanto pacífica.
Parece-me ser verdade que a cultura moderna do homo faber colocou o Ocidente em contraposição a uma Natureza cujos recursos poderiam ser ilimitadamente exauridos, que essa contraposição também se verificou na 1ª Globalização em relação às populações africanas escravizadas nas plantações americanas,... ou nos impérios coloniais durante a 2ª Globalização. Todavia, por outro lado, essa cultura de concorrência é também o resultado da simples aceitação da diferença, nomeadamente de interesses, crenças, etc., que se respeitam na democracia liberal representativa, e que origina a criatividade, que resulta na inovação, que impulsionará o crescimento económico.
Já a harmonia chinesa foi conseguida, por exemplo, primeiro com os blindados em Tiananmen, e depois continua sendo feita com o silenciamento pelo regime desse massacre. O continuado culto a Mao Tse Tung, independentemente das dezenas de milhão que morreram em resultado das suas opções, é outro exemplo, etc. Qualquer harmonização padece aliás deste pormaior: quem é que estabelece o rumo a que todos passam a ter que se harmonizar?... E, economicamente, a China é dita ser "a fábrica do mundo", não o seu "laboratório", veremos o que saberá fazer quando, como super-potência, não lhe restar apenas desenvolver pistas abertas por outrem.
Sob essas denúncias de parte a parte, abre-se pois uma clivagem conceptual: harmonia holística, organicista... esmagadora das diferenças, versus respeito por estas últimas... criando-se conflitos. É na própria perspectivação preconceituada, unilateral desta divergência nas concepções do mundo que se abre a discordância civilizacional de base, entre um chinês para quem a concorrência é obviamente a destruição, e os ocidentais para quem esta se encontra obviamente na harmonia imposta. Por outras palavras, a diferença não está entre a paz e o conflito, como pretende aquele académico chinês, mas no próprio sentido que se dá a esses termos.
Os resultados sugerem que asiáticos e ocidentais têm virtualidades, uns e outros têm debilidades - cada civilização poderá pois rever-se no espelho das outras para se melhorar. Mas seja politicamente no momento de optar pelo regime político, seja científico-economicamente no momento de valorizar (+ ou -) o espírito crítico - do conflito na criatividade... - haverá que escolher entre uma tendência e a outra. Entre a primazia da harmonia, tolerando a diferença apenas enquanto se não questione a ordem global, ou a aceitação da diferença, no esforço para se construírem caminhos comuns na base daquelas, que assim nunca se renegam.
De qualquer modo o tempo da unicidade cultural ocidental - pelo menos para as opções das pessoas e populações do Atlântico, do Brasil à Europa (os africanos têm reivindicado uma cultura independente pelo que escolherão à parte) - terá acabado. Na próxima década e seguintes, nós que herdamos a pista ocidental provavelmente teremos que escolher entre um simples (e mais fácil) unilateralismo cultural puro e duro, na valorização ingénua das diferenças,... de duvidosos resultados, e uma mais complexa, e mais custosa (!), articulação destas com a harmonia holística possível.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

2 Conceitos de liberdade, 2 liberalismos

Neste período de redefinição da ordem política internacional, e com isso de reorientação das modas ideológicas que influenciam opções nacionais, autárquicas... e até nos valores e costumes sociais, parece estar a tornar-se uma "verdade" - daquelas que o são por tanto serem repetidas - que o liberalismo está errado. Que a actual crise é a prova provada de que regulamentações minimalistas, individualismos, etc., são catastróficos a médio prazo. Não me parece que o argumento seja válido nem verdadeiro:
Não é válido - se formulado apenas como esbocei acima - porque faltará mostrar que nenhuma outra aplicação do dito "liberalismo" evitaria tal crise - quer dizer, porventura alguns já terão proposto tais demonstrações, mas só na base da consideração destas é que se poderá chegar àquela rejeição, elas não são dispensáveis à argumentação.
E não é verdadeiro porque a premissa (talvez implícita) que caracterize o "liberalismo" por traços como aqueles é falsa: não existe 1 mas 2 liberalismos. Em geral diz-se que esta família política se distingue por privilegiar o valor da liberdade - na tríade socialismo-igualdade, conservadorismo-segurança. Mas por sua vez distinguem-se, na teoria mas possivelmente mais ainda na prática, 2 conceitos de "liberdade": a negativa e a positiva (creio que foi Tagore quem lhes chamou "liberdade-de" e "liberdade-para"). A 1ª é a mera ausência de cadeias, de constrangimentos de qualquer espécie. Portanto também de alguma orientação a cumprir, que é aceite pela 2ª, constituída assim pela ausência de obstáculos a este cumprimento. Da 1ª posição em filosofia política, decorre a ideologia prática do liberalismo clássico (a que se reporta hoje o neo-liberalismo). Da 2ª posição, decorre o chamado "liberalismo novo", ou "social"... Se o 1º tenderá para a menor regulamentação possível (mas não necessariamente a dos anos 80/90...), o 2º procura regulamentações que evitem a exclusão social, de modo que só uma vez garantido um nível de sobrevivência que permita a cada cidadão escolher (económica, politicamente...) é que o Estado deixará de intervir - note-se que mesmo esta pequena intervenção pode ser contratualizada com privados, não precisa de ser pública como o socialismo estatizante tenderá na senda da máxima igualdade possível. Um filósofo que se destacou neste 2º liberalismo foi por exemplo J. Rawls.

O que estalou com esta crise não foi o liberalismo, mas um positivismo tecnocrático que presumia um pacote de leis absolutas, mais a faculdade de alguns iluminados lhes acederem - só a mão invisível seria deus, e Reagan e Thatcher os seus profetas. No regresso à terra, onde as opções de filosofia política e ideológicas nunca deixaram de acontecer, devemos porém ter a paciência de não nos precipitarmos em generalizações e em rejeições sem argumentação.

sábado, 7 de novembro de 2009

De St. Andrews para Copenhaga

Custa, depois da beleza no post em baixo, vir empurrá-la assim... ou poluir (no contexto, esta deve ser a palavra) esta página com estas linhas, por curtas que sejam:
Vim ver o comunicado da reunião dos ministros das finanças do G20 que acabou há bocado - http://www.g20.org/Documents/2009_communique_standrews.pdf. Depois de em Para a conferência de Copenhaga ter associado a organização económica internacional à sustentação de uma restrição da poluição, interessava-me particularmente ver se se chegara à assunção dos respectivos custos, ou se, pelo contrário, se se ficava por algumas belas intenções e promessas de muito empenho... para um futuro qualquer, e por alguém... ainda não se sabe bem quem. O parágrafo 7 - o último antes do encerramento... - parece-me ser um bom exemplo desta 2ª possibilidade. Será que é em Copenhaga que regressarão aos custos? (Mesmo que a esperança também porventura tenha que morrer, sempre podemos deixá-la para o fim).

domingo, 25 de outubro de 2009

Para a conferência de Copenhaga

Daqui a menos de 2 meses será negociado em Copenhaga um protocolo que substituirá o de Quioto. (Para assentarmos a credibilidade que esse outro compromisso terá valerá a pena começarmos por avaliar o grau de cumprimento do que agora termina...)
Jean Remy Davée Guimarães dá conta em http://cienciahoje.uol.com.br/155082 da preparação das posições brasileiras para essa conferência. Penso que são particularmente importantes não apenas pela relevância do Brasil (veja-se a importância ecológica da Amazónia) mas também pelo seu crescente peso simbólico: entre os BRIC (além da Rússia, Índia e China) representa as grandes economias e Estados emergentes no teatro internacional, acrescido ainda (o Brasil) duma extensão ao continente sul-americano que de algum modo acaba por representar. Talvez aquele cronista tenha optado restringir-se às questões estritamente da poluição, e uma outra questão de geopolítica e economia internacional esteja igualmente sendo preparada. Mas se não está, se aquela crónica abarca toda a discussão em curso, então temo que esteja em falta um factor que creio que a médio prazo será determinante:
As democracias espalharam-se, nomeadamente na América do Sul; mesmo nos regimes autoritários asiáticos as populações fazem-se escutar de alguma forma além das instituições democráticas. Sendo assim, mesmo que os Governos destes Estados aceitassem - por exemplo em resultado duma sua corrupção - impor aos respectivos povos um adiamento da sua convergência económica com os Estados desenvolvidos em nome do equilíbrio ecológico mundial, será muito difícil que esses povos o aceitem. A entrada dos BRIC, e outras comunidades como o Islão, no teatro das decisões internacionais - desde a II Guerra monopólio da Europa, EUA, e, em menor medida, da China - arrastará a necessidade de europeus e americanos pagarem também algum preço. Mas ninguém os paga voluntariamente. Isto só acontece quando a posição dos credores é incontornável.
Em Copenhaga, indirectamente, discutir-se-à pois a nova ordem global do Mundo. E além de argumentos específicos sobre emissões de gases poluentes,... os representantes do Brasil deverão estar preparados para discutir as condições de possibilidade de acordos comerciais, etc., pelos quais os países desenvolvidos paguem também o preço da redução de exploração directa dos recursos terrestres nos países em desenvolvimento. De outra forma custa-me a crer que quaisquer acordos ecológicos sejam implementáveis.

P.S. - Só a quem continua a julgar que não vive na Terra, isto é, que os desequilíbrios ecológicos não chegarão ao seu quintal, é que parecerá estranho que um europeu espere bem que os delegados brasileiros a Copenhaga, se possível em cooperação com os argentinos, chilenos... intervenham em ordem a uma tal reorganização do Mundo.

sábado, 10 de outubro de 2009

Outra vez o desafio europeu... e ocidental!

Num post sobre a UE e a aceitação irlandesa do Tratado de Lisboa (http://europeangeostrategy.ideasoneurope.eu/2009/10/04/ireland-and-the-lisbon-treaty/), Jolyon Howorth escreveu que

"Europe suffers from major handicaps in the emerging international pecking order: demographic decline, limited natural resources, geographical exiguity, energy dependency and military inadequacy. In a multipolar world where the other players are all unitary nation states, the EU is at a major disadvantage. Either the EU develops a unified strategic approach or it will fail".

Desde logo o pressuposto é que se o império romano durou mais de meio milénio e mesmo assim acabou um dia, não é porque os países europeus determinam o mundo há meio milénio que hão-de continuar a fazê-lo. E não é porque a presente unificação política da Europa se desenvolve há meio século que há-de durar outro tanto cf. http://onodoproblemaocidental24x7.blogspot.com/2009/10/o-que-e-que-ue-pode-fazer-por-mim-ue.html.
Mas assim há-de ser se as jogadas de políticos profissionais e burocratas, como essa de se repetir um referendo até que a resposta popular seja a que aqueles outros pretendem, contribuirem para uma coesão, não apenas formal (!), entre os europeus. Agora, se pelo contrário acentuarem a desconfiança dos eleitores, assim que houver decisões fracturantes - aquelas que implicam a escolha de preços a pagar por alguém... - o mais provável é que tudo desabe ainda mais depressa do que a implosão da União Soviética.
(É capaz de ir sendo prudente que cada país, ou comunidade estável, não abdique de condições mínimas de sustentabilidade própria, na agricultura, segurança... É que, como tantas outras organizações internacionais ao longo da história, a UE não é necessariamente eterna, e as dependências que nela se estabeleceram de repente poderão deixar de funcionar).

domingo, 4 de outubro de 2009

O que é que a UE pode fazer por mim? = UE caminhando à beira da divergência

Nem foi preciso chegar à 3ª para ser de vez, bastou a 2ª... mas se fosse preciso naturalmente lá se iria até que a resposta fosse a que os organizadores do jogo europeu tinham decidido à partida que seria a correcta (por esta altura o aluno irlandês já terá sido remetido para a turma da última letra na escola europeia!). Mas aprecie-se a arte, ou a sorte, daqueles organizadores: a repetição da pergunta foi feita exactamente quando a integração europeia, e portanto o Tratado de Lisboa, se contrapunha (nas promessas!...) ao papão do desemprego. Resta só identificar o papão polaco e checo, e fazer a mesma pergunta sempre da forma mais inocente.
O que esta inocência estabelece, no entanto, é uma "União" (Europeia) nos antípodas da "união" dos Estados Americanos (EUA), no que à participação e identificação colectiva das pessoas diz respeito. É que nesta última, o recente discurso do Presidente aos estudantes voltou a lembrá-lo (v. próximo post), o que se pergunta com Kennedy é "O que é que podes fazer pelo teu país?". A consequência mais provável, me parece, é que enquanto a coesão dos EUA resistirá a escolhas em situações difíceis - aquelas nas quais há preços a pagar - já a UE se constitui numa "união" apenas para tempos de vacas gordas, assim que a situação exigir escolhas que sacrifiquem alguns estes deixarão de ter razão para nela se manterem.
Até porque o Tratado de Lisboa, no Art. 9º-C (in: http://www.eurocid.pt/pls/wsd/wsdwcot0.detalhe_area?p_sub=52&p_cot_id=2936&p_est_id=7120), prevê que a partir de 2014 a definição das políticas e a coordenação, mais as funções legislativa e orçamental, serão tomadas (eminentemente pelo Conselho de Ministros, onde os Estados como tais se representam) pela dupla maioria de 55% dos Estados, e 65% da população da UE - critérios político e demográfico a que por certo se juntará o critério económico nas negociações de bastidores entre os países ricos e aqueles outros que, com os anteriores, possam perfazer aquelas maiorias. Os restantes ficarão de fora. Ou seja, só faltam as ratificações checa e polaca para termos umas regras de jogo adequadas à pergunta americana... a implementar porém por jogadores que respondem à pergunta inversa.
Na nota 6 de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências (pp. 99, 100), a propósito da aparente solidez dessas 2 Uniões que corporizam politicamente a civilização ocidental, e da opção implementada nesse Artigo (e outros) do Tratado de Lisboa, escrevi:
"Na ressaca do projecto nazi, tendo ainda presente o de Napoleão Bonaparte ou até o dos herdeiros de Carlos V, os fundadores das Comunidades Europeias (...) optaram pela equiparação formal dos Estados intervenientes. E assim foi possível fazer funcionar (...) a única união europeia desde o Sacro-Império. Até que, considerando hoje que as regras do jogo europeu não seriam eficazes com um maior número de participantes, os [governantes europeus e burocratas da UE] – estes já não da geração que viveu a II Guerra Mundial… – obrigaram-se a escolher entre: A) não alargar a UE aos países do antigo bloco soviético, limitando-se a eventuais parcerias privilegiadas; B) alargá-la, mas reduzindo a União a um espaço comercial comum, e ao pouco mais que permanentes negociações permitissem; C) alargar, mas alterando as regras do jogo. De imediato enjeitaram a possibilidade A. Para com o Tratado de Lisboa optarem enfim pela C".
O poder e benefícios - pelo menos a curto prazo... e a médio podem viver dos pecúlios entretanto reunidos - dos políticos profissionais e burocratas europeus será assim por certo maior do que nas opções A ou B. A questão é a da sustentabilidade desta inversão da estratégia seguida desde a CEE até agora. Por exemplo, quando for preciso assentar numa (em+uma!) resposta da UE à sua perda de competitividade internacional na iminente saída da presente crise financeiro-económica, à imigração que responda à curva demográfica negativa europeia, etc. - cf. 2ª nota de http://onodoproblemaocidental24x7.blogspot.com/2009/08/proxima-decada-portuguesa.html. A previsão de Michael Vlahos, v. http://onodoproblemaocidental24x7.blogspot.com/2009/09/os-eua-e-o-mundo-sec-xxi.html, parece assim ameaçar o Ocidente eminentemente pelo lado europeu...

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Os EUA e o mundo - séc. XXI

Em 2, 3 e 4 deste mês o investigador do National Security Analysis Department, da Universidade John Hopkins, Michael Vlahos publicou em The Globalist - The power of global ideas a trilogia "American power and the fall of Modernity". Respectivamente, in:
Trilogia que praticamente começa com a pergunta: "Are we really heading toward a new Dark Age, or can we defend civilization and still help those left behind?" [Costuma chamar-se "Idade das trevas" (Dark Age) à Alta Idade Média (séc. V d.C - séc. VIII/IX d.C.), quando as populações europeias se afundaram no esquecimento da civilização Clássica (greco-latina) e ainda não tinham gerado a civilização Ocidental]. Anunciando o autor que a sua resposta é optimista, embora não aquela que a maioria das pessoas mais gostasse de ouvir. Além de servir como chamada de atenção para esses 3 artigos, que bem a merecem, o presente post servirá como achega para a discussão dessa resposta.
Sob o reconhecimento do papel arbitral do Estado-Nação na ordem mundial Moderna, o problema de que Vlahos parte é o do actual abandono, por essas instituições políticas, de 60% da humanidade. (Na 1ª parte de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências assumi aproximadamente o mesmo ponto de partida). Ao que essas comunidades começam a responder organizando-se em outras instituições que não o Estado-Nação - Vlahos dá exemplos como o das grandes congregações muçulmanas e cristãs protestantes na África Ocidental, fortemente relacionadas com organizações religiosas não africanas enquanto o poder do Estado nacional naquela região é fraco, de modo que os Estados (não apenas africanos!...) deixam de ser árbitros, ou os agentes políticos supremos, para se tornarem em mais um tipo de jogadores entre outros. Especificamente sobre os EUA, a essa trilogia acrescento a pista que abri em Um crepúsculo da América?.
A parte II da trilogia ilustra essa tese com análises da história recente do México, Paquistão... sociedades tradicionalmente oligárquicas - ou seja, nas quais uma minoria açambarca o poder e privilégios - onde grande parte da população respondeu organizando-se em cartéis que produzem os estupefacientes procurados por americanos e europeus.
Enfim na parte III esse investigador da John Hopkins vaticina que "global networks will continue, but only for those who manage to 'make it' by the first decades of this early-21st century. Unable to aid the 60% left behind, humanity's prosperous minority - whether they admit it or not - is increasingly looking to its own defense and preserving the integrity of a smaller system that is still viable. Globalization is now all about a minority living defensively within a seething non-state majority."
Se bem lembro na síntese de Matthew Melko, há 40 anos, já se prevê a alta probabilidade desta reaproximação ao feudalismo - mas referi a bibliografia exacta dessa previsão antiga em O Nó do Problema Ocidental. O que logo de seguida procurei nesse ensaio, porém, e que se não encontra na trilogia a que me estou aqui a referir, foi, num 1º passo, a previsão teórica da sustentabilidade desse smaller system. Isto é, a previsão sobre a possibilidade da continuação da prosperidade da minoria. Possibilidade negada, a longo prazo, pelos estudos das Nações Unidas que lá cito. A fazer fé nos argumentos aí avançados, portanto, ou bem que nestas primeiras décadas do séc. XXI a prosperidade é alargada à maioria da humanidade, ou bem que, nas décadas seguintes, aquela minoria deverá ser arrastada pelos deserdados.
A esses argumentos macro-económicos, aliás, poderá juntar-se a sequência que Vlahos aponta: actual problema económico-financeiro; à sua saída, problema de fornecimento suficiente de energia; a uma sua saída, problema ecológico. (Já de seguida colocarei um post com uma confissão sobre as emoções que estas análises e consequentes previsões me sugerem...).
Mas voltando ao percurso daquele meu ensaio em correlação ao de Michael Vlahos, num 2º passo - que de resto se aplica tanto aos estudos económicos da ONU quanto às teorias geológicas empregues por este autor para prever a escassez de petróleo, etc. - há que perguntar pelo estado da arte nas ciências. Introduzi no referido ensaio a tese de que também estas se partem hoje numa crise paradigmática - o que aliás me sugeriu a pergunta se o diagnóstico de crise civilizacional afinal não se circunscreverá a reflexo de uma deficiência nos instrumentos teóricos usados, sem que (por enquanto!) exista qualquer problema para além do âmbito teórico...
Daí a necessidade civilizacional dum 3º passo: o da procura da origem das teorias, em ordem à superação daquela crise paradigmática.
Foi com a hipótese de uma resposta a esta pergunta, e com o programa de um seu desenvolvimento teórico-prático, que terminei esse ensaio. Não sei se será funcional. Mas procurar alguma resposta não há-de ser pior do que aceitar de vez o cenário previsto por Vlahos!

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Uma de quatro

Em A próxima década portuguesa dei conta duma opinião europeia sobre um daqueles indivíduos (Durão Barroso) de cuja posição formal internacional se repete (em Portugal!) que haveria de ser e que estará sendo muito vantajosa para o país - à boa maneira portuguesa, qualquer laivo de argumentação é substituído pela repetição da tese, e quando necessário por invectivas de que quem pergunta pelo argumento é ignorante, se não mesmo mal-intencionado... No número seguinte da mesma publicação vem agora o resumo de um artigo publicado por Der Spiegel (23/07/2009), onde se pergunta "por que motivo os líderes europeus o escolheram? E por que motivo troçam agora dele e o deixam cair, como se a sua posição fosse meramente acessória e não um cargo proeminente dentro da UE, uma grande potência económica com aspirações a ser uma potência política? A razão é óbvia, diz um dirigente da Europa do Sudeste: a UE agarra-se a este homem, conhecido pela sua fraqueza, por razões de conveniência e porque a procura de uma alternativa iria provavelmente desencadear maiores conflitos".
Do prestígio (julgo que este é o termo mais vezes usado) que advém para Portugal do presente Presidente da Comissão, cada um julgue como lhe aprouver... mas eu sugeriria que se considerasse as opiniões expressas internacionalmente, e não aquelas que nós gostaríamos, e que queremos acreditar, que a maioria silenciosa dos europeus, ou os seus líderes lá no seu fundo, pensam. Depois também não sei bem o que significa "prestígio", compreendo melhor a palavra "resultados", os quais (da Presidência Barroso), se Portugal entrou há anos em divergência com as médias europeias, ou bem que são insuficientes, ou bem que contribuem mesmo para essa queda.
Mas para a maioria dos portugueses (na qual, neste caso, me incluo), que ao que parece nada esperam da generalidade dos políticos nacionais, isso é o que menos importa. Ameaçadora de facto é a generalização que os autores do artigo estendem hoje à escolha dos dirigentes para a ONU, a NATO, o Banco Mundial... - "a sua selecção assenta no princípio da mediocridade e eles são incapazes de estar à altura das possibilidades que os seus cargos oferecem". Isto significa 1 de 4: Ou bem que toda a minha etiqueta condição do Ocidente está errada, e não há qualquer crise civilizacional (mais funda e grave do que a financeiro-económica); ou bem que o que está errado é a ideia de que em tempo de crise se torna relevante a competência dos líderes (não só políticos) das comunidades, e tanto em tempestade como em bonança são igualmente secundários; ou bem que estes e outros comentadores estão errados, e os actuais líderes políticos europeus e ocidentais são competentes; ou bem que mais um sintoma, e factor, da crise é essa escolha desta gente - isto é, estamos metidos numa camisa de onze varas.