Recebi há dias a obra de Jerome Kagan, The Three Cultures: Natural Sciences, Social Sciences, and the Humanities in the 21st Century, Nova Iorque: Cambridge University Press, 2009 - muito provavelmente um dos raros livros que desde há uma dezena de anos lerei da 1ª à última página!...
Mas para já abri-o no parágrafo sobre as 3 assunções fundamentais das ciências naturais modernas - (1) nenhuma explanação científica é permanentemente verdadeira; (2) todos os fenómenos podem ser reduzidos a processos materiais; (3) não há valores éticos nos fenómenos naturais.
A 2ª assunção coloca a questão determinismo vs. indeterminismo - ou como tenho aqui colocado, porque creio que mais frutuosa, reducionismo vs. emergentismo (este último conceito talvez permita explicar o que "indeterminismo" deixa em aberto).
Kagan argumenta contra o postulado determinista, e (até como psicólogo) centra-se na questão duma redução dos fenómenos psicológicos aos processos cerebrais (a que me referi ex. Cérebro (e mente): da quantidade à qualidade!... ). Parece-me útil aqui assinalar os 9 problemas que encontra a um dos principais métodos de investigação que tem sugerido essa redução, a da medição do fluxo sanguíneo em zonas do cérebro uma vez sujeita a pessoa a certos estímulos. Supostamente a variação desse fluxo indiciaria a localização da função mental, própria ao comportamento observado, na zona do cérebro em que fosse (essa variação) medida, mas:
1º) esse fluxo indicia o input numa zona neuronal, mas não tanto o seu output;
2º) não há uma relação linear entre a quantidade de sangue que advém a uma zona e a quantidade de actividade neuronal aí;
3º) a magnitude da alteração do fluxo só é detectável 5 ou 6 s. depois da consciência do estímulo;
4º) só quando há bastante irrigação sanguínea é que o fluxo é significativo da actividade neuronal;
5º) a expectativa, ou ausência dela, do estímulo afecta a quantidade do fluxo após o estímulo;
6º) métodos diferentes de aferir a quantidade do fluxo obtêm resultados diferentes;
7º) áreas com aumento do fluxo podem não ser necessárias aos fenómenos psicológicos em causa;
8º) as instruções do experimentador ao sujeito da experiência condicionam a quantidade do fluxo;
9º) a reacção cerebral a um estímulo responde às diversas propriedades físicas deste - tamanho, cor, brilho... - sendo difícil distinguir o que responde a quê.
Ou seja, a metodologia condiciona a obtenção de quaisquer teses. Seja no protocolo que se tenha estabelecido para as experiências controladas sobre os fenómenos em causa, seja nos aparelhos utilizados, seja nas categorias teóricas de interpretação dos resultados.
Uma defesa da redução da mente ao cérebro deverá pois responder aos problemas que se coloquem aos métodos que essa defesa tenha usado... Pelo menos tão bem quanto uma equivalente defesa do dualismo (que hipostasia a mente ou espírito para além do cérebro) lograr responder aos problemas que se lhe coloquem!
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Para o balanço de 2009: prioridade do ARN
Para o que importa a este blogue, creio que nada que tenha acontecido em 2009 será mais importante do que - e muito pouco sê-lo-á tão importante quanto - as experiências de M. Powner, B. Gerland e J. Sutherland (v. http://www.nature.com/nature/journal/v459/n7244/full/nature08013.html ) que confirmam a velha hipótese de que o ARN precedeu o ADN!
Com efeito, no ensaio que este blogue desenvolve assinalei 3 grandes pedras no sapato reducionista (o sapato daqueles que procuram caminhar nas ciências mediante a redução dos objectos destas a respectivos elementos básicos e suas regras de associação, para conceber e intervir naqueles objectos em conformidade). 1ª pedra: de onde, e como, irrompeu o Universo? 2ª pedra: o que aconteceu para que alguns elementos moleculares se organizassem com as propriedades do ser vivo, que não se encontram naqueles anteriores? 3ª pedra: o que aconteceu para que alguns elementos celulares se organizassem com as propriedades da consciência, que não se encontram naqueles anteriores? Os hiatos entre estes níveis constituíam convites à alternativa conceptual emergentista ou auto-organizacional.
Particularmente no salto do nível físico-químico para o biológico - o do surgimento da vida - surgia um círculo vicioso: para a replicação celular do ADN (molécula portadora do código genético) são precisas proteínas, mas para a síntese destas últimas é necessária a orientação dada pelo ADN. Depois deste enigma inicial, a transmissão daquele código, consubstanciada pela referida replicação, faz-se mediante uma molécula auxiliar, o RNA (que copia o código). A experiência descrita no artigo acima linkado dá força porém à hipótese de Carl Woese (na década de 1960) de que o ARN é que terá sido primeiro, sucedendo-se-lhe o ADN. Quebrar-se-ia assim o círculo vicioso, pois o ARN comporta informação genética, permite sintetizar proteínas e auto-replica-se. Ou seja, é auto-suficiente. Depois, como os seus constituintes físico-químicos se encontravam no caldo molecular original, pode esperar-se que das interacções no seio deste último, sob acção da radiação solar ultravioleta, resultasse a dado momento aquela molécula original da vida.
Suponho que os bioquímicos dividem-se agora entre os que julgam que o ARN desempenhe todas as funções metabólicas, e os que julgam que deverá cooperar nelas com ácidos aminados... Aí está uma questão para a minha filha Madalena me ensinar se sempre enveredar por bioquímica!
Uma questão que entretanto parece constituir já não um hiato, mas uma estrada - que haverá que trilhar.
E, quanto mais contínua for, menos lugar haverá para o conceito de "emergência", ou mais se esfarelará a 2ª pedra no sapato reducionista.
Com efeito, no ensaio que este blogue desenvolve assinalei 3 grandes pedras no sapato reducionista (o sapato daqueles que procuram caminhar nas ciências mediante a redução dos objectos destas a respectivos elementos básicos e suas regras de associação, para conceber e intervir naqueles objectos em conformidade). 1ª pedra: de onde, e como, irrompeu o Universo? 2ª pedra: o que aconteceu para que alguns elementos moleculares se organizassem com as propriedades do ser vivo, que não se encontram naqueles anteriores? 3ª pedra: o que aconteceu para que alguns elementos celulares se organizassem com as propriedades da consciência, que não se encontram naqueles anteriores? Os hiatos entre estes níveis constituíam convites à alternativa conceptual emergentista ou auto-organizacional.
Particularmente no salto do nível físico-químico para o biológico - o do surgimento da vida - surgia um círculo vicioso: para a replicação celular do ADN (molécula portadora do código genético) são precisas proteínas, mas para a síntese destas últimas é necessária a orientação dada pelo ADN. Depois deste enigma inicial, a transmissão daquele código, consubstanciada pela referida replicação, faz-se mediante uma molécula auxiliar, o RNA (que copia o código). A experiência descrita no artigo acima linkado dá força porém à hipótese de Carl Woese (na década de 1960) de que o ARN é que terá sido primeiro, sucedendo-se-lhe o ADN. Quebrar-se-ia assim o círculo vicioso, pois o ARN comporta informação genética, permite sintetizar proteínas e auto-replica-se. Ou seja, é auto-suficiente. Depois, como os seus constituintes físico-químicos se encontravam no caldo molecular original, pode esperar-se que das interacções no seio deste último, sob acção da radiação solar ultravioleta, resultasse a dado momento aquela molécula original da vida.
Suponho que os bioquímicos dividem-se agora entre os que julgam que o ARN desempenhe todas as funções metabólicas, e os que julgam que deverá cooperar nelas com ácidos aminados... Aí está uma questão para a minha filha Madalena me ensinar se sempre enveredar por bioquímica!
Uma questão que entretanto parece constituir já não um hiato, mas uma estrada - que haverá que trilhar.
E, quanto mais contínua for, menos lugar haverá para o conceito de "emergência", ou mais se esfarelará a 2ª pedra no sapato reducionista.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
1 Pequena nota à ética evolucionista
A ética evolucionista consiste numa extensão do biologismo à esfera dos valores e escolhas humanas. Por sua vez, o biologismo, de resto como o historicismo (ex. marxista), é uma instância da forma determinista. Ou seja, o valor epistemológico daquela ética depende à partida do valor geral que se reconheça ao determinismo, e depois, em particular, à aplicação do determinismo ao âmbito das acções humanas.
A contraposição entre determinismo e indeterminismo é o que procuro aqui explorar nas etiquetas ciências - reducionismo e ciências - emergentismo.
No post anterior assinalei que a razão pode ser enganadora por tender para o menor esforço... Mas também será autodestrutiva, ou inconsistente, uma teoria que, de tão completa, se torne praticamente disfuncional ou inaplicável aos problemas que se propunha resolver!
E lá voltamos, nas virtudes epistémicas também, à prudência aristotélica, aquela arte de encontrar o justo meio...
A contraposição entre determinismo e indeterminismo é o que procuro aqui explorar nas etiquetas ciências - reducionismo e ciências - emergentismo.
No post anterior assinalei que a razão pode ser enganadora por tender para o menor esforço... Mas também será autodestrutiva, ou inconsistente, uma teoria que, de tão completa, se torne praticamente disfuncional ou inaplicável aos problemas que se propunha resolver!
E lá voltamos, nas virtudes epistémicas também, à prudência aristotélica, aquela arte de encontrar o justo meio...
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segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Universos paralelos... e uma nova ciência
Devo reconhecer que se calhar o melhor é que a leitora (e o...) não perca tempo com este meu post e siga de imediato para o excelente A Debate in Cosmology: The Multiverse, in: http://www.pirsa.org/C08022!
À laia de introdução já crítica, porém, ressalto aqui a opinião do Nobel de física Steven Weinberg de que a hipótese do multiverso (aliás, duma multiplicidade de conceitos de multiverso!), independentemente do impacto cosmológico e físico que possa ter, começa logo por ter impacto epistemológico - logo tornar-se-á relevante para a química inorgânica, para a botânica... provavelmente mesmo para a microeconomia, a psicologia social...
Num passo atrás, o conceito: em alternativa à ideia de que a multiplicidade dos corpos celestes se reúnem num mesmo conjunto - o "universo" - logo desde Anaximandro (séc. VI a.C.), passando especialmente pelo grande metafísico contemporâneo David Lewis (Counterfactuals, Cambridge, MA: Harvard University Press, 1973; ou On the Plurality of Worlds, Oxford: Blackwell, 1986), se tem proposto a ideia de uma diversidade daqueles conjuntos - hipótese do "multiverso". [Sobre o estado da cosmologia aponto ainda uma obra que me tem sido útil, a do português Pedro G. Ferreira, The State of the Universe - A Primer in Modern Cosmology, Londres: Weidenfeld & Nicolson, 2006, que aborda esta hipótese nas pp. 291-2].
Ao que sei tal hipótese assume 4 formas: a mais simples (decorrente da teoria geral da relatividade) é a da justaposição de universos - dada a limitação da velocidade da luz (ou radiação que traz a informação a qualquer observador) e a expansão do cosmos, cada ponto de observação cósmica, como a Terra, será o centro duma esfera observável - 1 universo - para além da qual são postuláveis corpos em afastamento cuja informação acaba por não chegar àquele centro. Outra decorre da teoria da inflação cósmica - pouco depois do Big Bang o espaço-tempo terá sofrido bruscamente uma expansão aceleradíssima, inflação esta que não terá cessado em certas regiões do universo inicial, em novos Big Bangs que dão origem a universos correspondentes, etc., implicados (e já não justapostos) nos seus predecessores, cada qual com as suas próprias leis físicas. Uma 3ª forma aplica o critério da selecção natural a uma reprodução de universos a partir dos buracos negros de cada universo-progenitor (felizmente esta reprodução não será sexuada... nem quero imaginar o que seria viver num planetasinho em pleno coito cósmico!!). Enfim uma última forma decorre da tese da mecânica quântica de que uma partícula desenvolve todos os movimentos que lhe são possíveis até que um, ao ser medido, se torna real. Assim também haverá um universo no qual estou escrevendo este post e o leitor a lê-lo, outro no qual faltou a energia eléctrica...
Passo então em frente: um universo, ou justaposição de universos onde as leis da física são as mesmas para qualquer observador, onde "Deus não joga aos dados" (Einstein), etc., é apenas uma hipótese. Ao lado apresentam-se outras que aceitam a diversidade das leis físicas, porventura quebrando-se assim o determinismo nuns quantos universos... Ou seja, a redução epistemológica dos fenómenos a certos elementos básicos e respectivas regras de associação será porventura uma possibilidade teórica em alguns universos (por sinal, naquele que habitamos), mas nada mais do que isso. Será isso suficiente para a implementarmos ingénua e generalizadamente? Ou precisaremos antes de 1 critério que determine quando e onde o reducionismo funciona, quando e onde não funciona... e então que teoria física, psicológica, neurológica... há que aplicar em cada uma destas áreas?
[Em Emergentismo: unicidade ou complementaridade? introduzi esta questão do critério pelo lado da relação complexidade/simplicidade].
À laia de introdução já crítica, porém, ressalto aqui a opinião do Nobel de física Steven Weinberg de que a hipótese do multiverso (aliás, duma multiplicidade de conceitos de multiverso!), independentemente do impacto cosmológico e físico que possa ter, começa logo por ter impacto epistemológico - logo tornar-se-á relevante para a química inorgânica, para a botânica... provavelmente mesmo para a microeconomia, a psicologia social...
Num passo atrás, o conceito: em alternativa à ideia de que a multiplicidade dos corpos celestes se reúnem num mesmo conjunto - o "universo" - logo desde Anaximandro (séc. VI a.C.), passando especialmente pelo grande metafísico contemporâneo David Lewis (Counterfactuals, Cambridge, MA: Harvard University Press, 1973; ou On the Plurality of Worlds, Oxford: Blackwell, 1986), se tem proposto a ideia de uma diversidade daqueles conjuntos - hipótese do "multiverso". [Sobre o estado da cosmologia aponto ainda uma obra que me tem sido útil, a do português Pedro G. Ferreira, The State of the Universe - A Primer in Modern Cosmology, Londres: Weidenfeld & Nicolson, 2006, que aborda esta hipótese nas pp. 291-2].
Ao que sei tal hipótese assume 4 formas: a mais simples (decorrente da teoria geral da relatividade) é a da justaposição de universos - dada a limitação da velocidade da luz (ou radiação que traz a informação a qualquer observador) e a expansão do cosmos, cada ponto de observação cósmica, como a Terra, será o centro duma esfera observável - 1 universo - para além da qual são postuláveis corpos em afastamento cuja informação acaba por não chegar àquele centro. Outra decorre da teoria da inflação cósmica - pouco depois do Big Bang o espaço-tempo terá sofrido bruscamente uma expansão aceleradíssima, inflação esta que não terá cessado em certas regiões do universo inicial, em novos Big Bangs que dão origem a universos correspondentes, etc., implicados (e já não justapostos) nos seus predecessores, cada qual com as suas próprias leis físicas. Uma 3ª forma aplica o critério da selecção natural a uma reprodução de universos a partir dos buracos negros de cada universo-progenitor (felizmente esta reprodução não será sexuada... nem quero imaginar o que seria viver num planetasinho em pleno coito cósmico!!). Enfim uma última forma decorre da tese da mecânica quântica de que uma partícula desenvolve todos os movimentos que lhe são possíveis até que um, ao ser medido, se torna real. Assim também haverá um universo no qual estou escrevendo este post e o leitor a lê-lo, outro no qual faltou a energia eléctrica...
Passo então em frente: um universo, ou justaposição de universos onde as leis da física são as mesmas para qualquer observador, onde "Deus não joga aos dados" (Einstein), etc., é apenas uma hipótese. Ao lado apresentam-se outras que aceitam a diversidade das leis físicas, porventura quebrando-se assim o determinismo nuns quantos universos... Ou seja, a redução epistemológica dos fenómenos a certos elementos básicos e respectivas regras de associação será porventura uma possibilidade teórica em alguns universos (por sinal, naquele que habitamos), mas nada mais do que isso. Será isso suficiente para a implementarmos ingénua e generalizadamente? Ou precisaremos antes de 1 critério que determine quando e onde o reducionismo funciona, quando e onde não funciona... e então que teoria física, psicológica, neurológica... há que aplicar em cada uma destas áreas?
[Em Emergentismo: unicidade ou complementaridade? introduzi esta questão do critério pelo lado da relação complexidade/simplicidade].
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
3 Notas sobre isso de "consciência"
Ao se isolar uma questão - de entre todas as que se lhe possam relacionar- é prudente não pressupor algo sobre ela. A começar na posição, ou existência daquilo a que a questão se refira. Assim, se se pretende questionar o que seja, como seja... a consciência, deveremos recuar um passo e reflectirmos sobre o que nos leve sequer a referir algo que se possa chamar - de acordo com a prática linguajeira - "consciência". Para depois ser logo de acordo com essas sugestões que se irá concebendo o que e o como do que receberá tal nome.
Foi esta a metodologia assumida - ainda que talvez não sistematicamente desenvolvida - por Jeffrey Gray em Consciousness - Creeping Up on the Hard Problem, Oxford: Oxford University Press, 2004. Tendo lido mais algumas passagens suas depois de escrever Livre arbítrio, mente... e "robopatas", apontarei aqui 3 notas: a 1ª e a 2ª com o balanço e a projecção que fez em 2004 (ou 2003, pois morreu em Abril de 2004) da abordagem neurocientífica à consciência, a 3ª com uma cogitação minha sobre o assunto.
1ª - No parágrafo 8.1 o autor aponta 9 assunções (A) que julga deverem ser feitas, ou escolhidas entre elas, por qualquer futura (!) teoria completa da consciência:
A1: As neurociências vieram confirmar, com a metodologia científica, o que a filosofia do conhecimento afirmara (pelo menos desde Kant) mediante a análise lógica do acto de conhecer - o mundo percebido é uma construção do cérebro, ou da mente, na base de sensações (inconscientes). Mas haverá alguma correspondência entre esse mundo mentalmente construído e aquilo a que ele se refira (o mundo real), pois só se assim se explica que acções que se orientam segundo o 1º tenham sucesso ao se desenvolverem no 2º. Tal como haverá alguma correspondência entre as construções de diversas pessoas, ou não poderíamos agir em complementaridade, como fazemos.
A2: Um bom exemplo desse processo construtivo é a visão - por sinal, o sentido que muitas vezes serve de analogia ao conhecimento.
A3: Essas 2 correspondências dever-se-ão a algum valor para a sobrevivência individual, ou reprodução da espécie, que a consciência - que as implementa - logrará.
A4: Essa consciência terá sido a forma mais fácil do cérebro, na sua evolução filogenética, alcançar esse poder de sobrevivência para a espécie humana.
A5: Isso de "consciência" poderá não ser exclusivo dos mamíferos humanos; embora só nestes ela tenha facultado funções como a linguagem estruturada sintáctica e semanticamente.
A6: Os conteúdos da experiência consciente ("qualia": verdes, salgados...) são inteiramente perceptuais, e em geral (mas não constitutivamente) estão marcados pela intencionalidade das respectivas percepções.
A7: Os qualia são construídos pela mente (cérebro) inconsciente, advindo automática e involuntariamente à consciência.
A8: A experiência consciente selecciona apenas uma pequena parte dos processos mentais, e, daqueles, apenas uma pequena parte de cada um.
A9: Tal como na percepção, também na tomada de decisão a consciência é posterior - isto é, as nossas opções práticas já estavam inconscientemente feitas quando delas tomamos consciência.
2ª - Nos parág. 8.2-8.4 esse neuropsicólogo esboça uma teoria parcial da consciência na base anterior. Em síntese, chamar-se-á "consciência" à faculdade de conceber um mundo externo razoavelmente estável a partir dos qualia, mundo esse no qual depois ela detecta erros pela comparação das expectativas aos resultados obtidos (v. V. Burgin, UK76!), e gera a correcção desses erros.
Gray enjeita o funcionalismo (Livre arbítrio, mente... e "robopatas" (2)) dado o facto de nem sempre uma função mental corresponder a um único quale (ex. sinestesia). E enjeita o epifenomenalismo - tese de que a consciência não é mais do que uma expressão vivencial de fenómenos electro-químicos, de modo que ela não terá quaisquer intervenções causais - precisamente por lhe reconhecer eficácia causal (ex. correcção de erros).
Dada esta eficácia, a consciência não se limita a um mero sentimento de si, isto é, ao reconhecimento de que há alguém fazendo isto que me encontro a fazer, e que é quem me lembro de fazer outras coisas antes e me preparo para outras depois. Mais do que disso, a consciência será espontânea, geradora de efeitos.
3ª - "...Science looks to 'reduction' (...) to show that phenomena encountered at one level, or better still the scientific laws used to explain them, can be eliminated ('reduced') in favour of phenomena or laws encountered at a more general level. (...) reduction of conscious experience might take the form of showing that this can be explained by the laws of physics, or by the principles of cybernetics. (...) - assuming, that is, that reduction is possible at all" (op.cit.: 304). O itálico é meu, visa enfatizar uma frase que talvez se constitua como a melhor pista que o autor deixa para a incompletude que ele, do princípio ao fim do livro, atribui á actual teoria neurocientífica da consciência.
Porventura a nova e completa teoria para que ele apela simplesmente deverá desistir de tentar reduzir os fenómenos ditos "conscientes" seja a funções (segundo os princípios cibernéticos), seja às leis físico-químicas, seja a outro ainda.
Pergunto-me se uma pista não será a da inversão desse movimento: o que se chamará "consciência" é que estará na base conceptual do que se chamará "funções", "átomos" e "moléculas", etc. Afinal, a que se atribui uma reflexão sobre processos mentais como precisamente esta das neurociências? As teses destas últimas ultrapassam em muito as meras expectativas consideradas pelo detector de erros, com o qual o autor parece identificá-la. A reflexão, não passiva ou epifenoménica, mas geradora destes conceitos com os quais, depois, se dirá que o mundo é uma construção mental, etc., talvez seja a 1ª nota do que se chamará "consciência", antes de quaisquer sentimentos de si ou de qualquer eficácia causal.
Mas neste caso - contra Gray - não vejo como possam os métodos científicos tomar a dianteira na investigação sobre a consciência. Trarão desenvolvimentos, confirmações e correcções pontuais, mas o busílis continuará apenas visado, não direi "ao alcance de" mas "visado" (!), pela tradicional análise lógica filosófica.
Foi esta a metodologia assumida - ainda que talvez não sistematicamente desenvolvida - por Jeffrey Gray em Consciousness - Creeping Up on the Hard Problem, Oxford: Oxford University Press, 2004. Tendo lido mais algumas passagens suas depois de escrever Livre arbítrio, mente... e "robopatas", apontarei aqui 3 notas: a 1ª e a 2ª com o balanço e a projecção que fez em 2004 (ou 2003, pois morreu em Abril de 2004) da abordagem neurocientífica à consciência, a 3ª com uma cogitação minha sobre o assunto.
1ª - No parágrafo 8.1 o autor aponta 9 assunções (A) que julga deverem ser feitas, ou escolhidas entre elas, por qualquer futura (!) teoria completa da consciência:
A1: As neurociências vieram confirmar, com a metodologia científica, o que a filosofia do conhecimento afirmara (pelo menos desde Kant) mediante a análise lógica do acto de conhecer - o mundo percebido é uma construção do cérebro, ou da mente, na base de sensações (inconscientes). Mas haverá alguma correspondência entre esse mundo mentalmente construído e aquilo a que ele se refira (o mundo real), pois só se assim se explica que acções que se orientam segundo o 1º tenham sucesso ao se desenvolverem no 2º. Tal como haverá alguma correspondência entre as construções de diversas pessoas, ou não poderíamos agir em complementaridade, como fazemos.
A2: Um bom exemplo desse processo construtivo é a visão - por sinal, o sentido que muitas vezes serve de analogia ao conhecimento.
A3: Essas 2 correspondências dever-se-ão a algum valor para a sobrevivência individual, ou reprodução da espécie, que a consciência - que as implementa - logrará.
A4: Essa consciência terá sido a forma mais fácil do cérebro, na sua evolução filogenética, alcançar esse poder de sobrevivência para a espécie humana.
A5: Isso de "consciência" poderá não ser exclusivo dos mamíferos humanos; embora só nestes ela tenha facultado funções como a linguagem estruturada sintáctica e semanticamente.
A6: Os conteúdos da experiência consciente ("qualia": verdes, salgados...) são inteiramente perceptuais, e em geral (mas não constitutivamente) estão marcados pela intencionalidade das respectivas percepções.
A7: Os qualia são construídos pela mente (cérebro) inconsciente, advindo automática e involuntariamente à consciência.
A8: A experiência consciente selecciona apenas uma pequena parte dos processos mentais, e, daqueles, apenas uma pequena parte de cada um.
A9: Tal como na percepção, também na tomada de decisão a consciência é posterior - isto é, as nossas opções práticas já estavam inconscientemente feitas quando delas tomamos consciência.
2ª - Nos parág. 8.2-8.4 esse neuropsicólogo esboça uma teoria parcial da consciência na base anterior. Em síntese, chamar-se-á "consciência" à faculdade de conceber um mundo externo razoavelmente estável a partir dos qualia, mundo esse no qual depois ela detecta erros pela comparação das expectativas aos resultados obtidos (v. V. Burgin, UK76!), e gera a correcção desses erros.
Gray enjeita o funcionalismo (Livre arbítrio, mente... e "robopatas" (2)) dado o facto de nem sempre uma função mental corresponder a um único quale (ex. sinestesia). E enjeita o epifenomenalismo - tese de que a consciência não é mais do que uma expressão vivencial de fenómenos electro-químicos, de modo que ela não terá quaisquer intervenções causais - precisamente por lhe reconhecer eficácia causal (ex. correcção de erros).
Dada esta eficácia, a consciência não se limita a um mero sentimento de si, isto é, ao reconhecimento de que há alguém fazendo isto que me encontro a fazer, e que é quem me lembro de fazer outras coisas antes e me preparo para outras depois. Mais do que disso, a consciência será espontânea, geradora de efeitos.
3ª - "...Science looks to 'reduction' (...) to show that phenomena encountered at one level, or better still the scientific laws used to explain them, can be eliminated ('reduced') in favour of phenomena or laws encountered at a more general level. (...) reduction of conscious experience might take the form of showing that this can be explained by the laws of physics, or by the principles of cybernetics. (...) - assuming, that is, that reduction is possible at all" (op.cit.: 304). O itálico é meu, visa enfatizar uma frase que talvez se constitua como a melhor pista que o autor deixa para a incompletude que ele, do princípio ao fim do livro, atribui á actual teoria neurocientífica da consciência.
Porventura a nova e completa teoria para que ele apela simplesmente deverá desistir de tentar reduzir os fenómenos ditos "conscientes" seja a funções (segundo os princípios cibernéticos), seja às leis físico-químicas, seja a outro ainda.
Pergunto-me se uma pista não será a da inversão desse movimento: o que se chamará "consciência" é que estará na base conceptual do que se chamará "funções", "átomos" e "moléculas", etc. Afinal, a que se atribui uma reflexão sobre processos mentais como precisamente esta das neurociências? As teses destas últimas ultrapassam em muito as meras expectativas consideradas pelo detector de erros, com o qual o autor parece identificá-la. A reflexão, não passiva ou epifenoménica, mas geradora destes conceitos com os quais, depois, se dirá que o mundo é uma construção mental, etc., talvez seja a 1ª nota do que se chamará "consciência", antes de quaisquer sentimentos de si ou de qualquer eficácia causal.
Mas neste caso - contra Gray - não vejo como possam os métodos científicos tomar a dianteira na investigação sobre a consciência. Trarão desenvolvimentos, confirmações e correcções pontuais, mas o busílis continuará apenas visado, não direi "ao alcance de" mas "visado" (!), pela tradicional análise lógica filosófica.
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domingo, 26 de julho de 2009
Emergentismo: unicidade ou complementaridade?
Como introduzi no post Prólogo e Agradecimentos de "O Nó do Problema Ocid..., no ensaio com esse nome apontei (na esteira de diversos autores) uma cisão paradigmática entre a ciência clássica - que procede por análise dos fenómenos, e redução de cada aspecto a elementos básicos e regras de respectiva associação - e as ciências da complexidade - que tentam uma explicação holística dos processos de emergência não-linear, i.e. da emergência de fenómenos não implicados pelos seus antecedentes. Mas nesse Prólogo também salientei que, para reforçar a possibilidade de crítica ao ensaio, não o iria actualizar. Precisamente um dos pontos que em Dezembro de 2008 teria corrigido o texto de 2004-2006 seria o da relação entre esses 2 paradigmas científicos. São mutuamente exclusivos, assumindo-se cada um como único - como terá ficado sugerido, ainda que não explicitamente afirmado, nesse ensaio - ou serão complementares, proporcionando-se cada um a determinadas situações ou fenómenos?
O Director da Sciences Humaines, Jean-François Dortier, no Nº 201 dessa revista em Fevereiro de 2009 (pp. 30-33), presta uma homenagem a Edgar Morin - um dos mais conhecidos promotores do paradigma emergentista ou da complexidade - tanto confessando as suas, de Dortier, reticências em Agosto/Setembro de 2008 sobre o tema proposto por Morin para a conferência deste último em Dezembro seguinte em Auxerre sobre a civilização ocidental - "O abismo ou a metamorfose" [v. post "L'abîme ou la métamorphose?"] - por julgá-lo demasiado catastrofista, quanto reconhecendo o acerto dessa pista perante os acontecimentos financeiro-económicos que se começaram a suceder precisamente a partir desses 2 meses. A divergência de Dortier face à teoria da complexidade tinha tido porém razões epistemologicamente ponderosas:
"Le monde est complexe, certes. L'individu est complexe, le cerveau est complexe, la société est complexe, la réalité est complexe, etc. La complexité s'appliquait à tout, de l'univers à l'humain, mais n'expliquait rien de précis et ne débouchait sur aucune découverte d'importance. (... l'idée de complexité...) semblait même broiller les cartes et rajouter de la confusion plutôt qu'apporter de la clarté au monde qu'elle prétandait expliquer" (p. 30).
A isso porém respondeu-lhe Edgar Morin:
"Une réalité simple appelle une pensée simple. Et la complexité des phénomènes appelle une pensée complexe. Certes de grandes découvertes des sciences reposent sur le postulat de l'unité et de la simplicité. Mais pour comprendre les phénomènes écologiques, biologiques, les dynamiques de l'histoire, on ne peut espérer trouver des lois simples. La complexité est l'unité du simple et du complexe. (...) Mon apport n'était pas de remarquer la complexité partout, c'était surtout de dire que la complexité est un défi à la connaissance. C'est ce défi que j'ai voulu relever en élaborant quelques instruments conceptuels à travers le cheminement de La Méthode" (pp. 30, 31).
A ideia chave, penso, é a definição de complexidade: La complexité est l'unité du simple et du complexe. Temos portanto uma "complexidade" de 1ª ordem, que se contrapõe à simplicidade (reducionista), e uma "complexidade" de 2ª ordem que as compreende a ambas. O problema epistemológico deixa pois de ser o da opção entre um e o outro paradigma, e passa a ser o do critério de elucidação, a jogar na 2ª ordem, das situações ou fenómenos de 1ª ordem que apelarão a um ou ao outro paradigma.
Um blogue não é local apropriado para argumentações de tamanha densidade teórica, mas seguramente voltaremos aqui a este tema para lhe sugerir pistas. E a 1ª que deixo é a seguinte:
Em 2005 coordenei uma pequena investigação prática escolar sobre o desenvolvimento económico açoriano, tendo escrito a parte teórica, na qual justificava o uso de instrumentos conceptuais institucionalistas, em detrimento dos clássicos ou até neo-keynesianos, pela maior adequação daqueles a processos de longa duração. Ou seja, aqueles dos quais o tempo é uma variável maior [cf. post Não todos, mas vários caminhos levam a Roma]. Em troca, neste último ano escrevi um artigo sobre uma questão técnica pedagógica, para a qual optei por um instrumento reducionista. A diferença é que, na pontualidade ou particularidade dessa questão, o tempo é desconsiderável. Deixo assim aqui a hipótese da relevância vs. irrelevância desta última dimensão se constituir como o critério de resposta ao problema que resulta da obra de Egar Morin.
Entretanto acrescento o link para uma trad. port. de La Méthode, vol. 1, num e-book da Europa América:
http://www.scribd.com/doc/13760655/EDGAR-MORIN-O-METODO-I-
O Director da Sciences Humaines, Jean-François Dortier, no Nº 201 dessa revista em Fevereiro de 2009 (pp. 30-33), presta uma homenagem a Edgar Morin - um dos mais conhecidos promotores do paradigma emergentista ou da complexidade - tanto confessando as suas, de Dortier, reticências em Agosto/Setembro de 2008 sobre o tema proposto por Morin para a conferência deste último em Dezembro seguinte em Auxerre sobre a civilização ocidental - "O abismo ou a metamorfose" [v. post "L'abîme ou la métamorphose?"] - por julgá-lo demasiado catastrofista, quanto reconhecendo o acerto dessa pista perante os acontecimentos financeiro-económicos que se começaram a suceder precisamente a partir desses 2 meses. A divergência de Dortier face à teoria da complexidade tinha tido porém razões epistemologicamente ponderosas:
"Le monde est complexe, certes. L'individu est complexe, le cerveau est complexe, la société est complexe, la réalité est complexe, etc. La complexité s'appliquait à tout, de l'univers à l'humain, mais n'expliquait rien de précis et ne débouchait sur aucune découverte d'importance. (... l'idée de complexité...) semblait même broiller les cartes et rajouter de la confusion plutôt qu'apporter de la clarté au monde qu'elle prétandait expliquer" (p. 30).
A isso porém respondeu-lhe Edgar Morin:
"Une réalité simple appelle une pensée simple. Et la complexité des phénomènes appelle une pensée complexe. Certes de grandes découvertes des sciences reposent sur le postulat de l'unité et de la simplicité. Mais pour comprendre les phénomènes écologiques, biologiques, les dynamiques de l'histoire, on ne peut espérer trouver des lois simples. La complexité est l'unité du simple et du complexe. (...) Mon apport n'était pas de remarquer la complexité partout, c'était surtout de dire que la complexité est un défi à la connaissance. C'est ce défi que j'ai voulu relever en élaborant quelques instruments conceptuels à travers le cheminement de La Méthode" (pp. 30, 31).
A ideia chave, penso, é a definição de complexidade: La complexité est l'unité du simple et du complexe. Temos portanto uma "complexidade" de 1ª ordem, que se contrapõe à simplicidade (reducionista), e uma "complexidade" de 2ª ordem que as compreende a ambas. O problema epistemológico deixa pois de ser o da opção entre um e o outro paradigma, e passa a ser o do critério de elucidação, a jogar na 2ª ordem, das situações ou fenómenos de 1ª ordem que apelarão a um ou ao outro paradigma.
Um blogue não é local apropriado para argumentações de tamanha densidade teórica, mas seguramente voltaremos aqui a este tema para lhe sugerir pistas. E a 1ª que deixo é a seguinte:
Em 2005 coordenei uma pequena investigação prática escolar sobre o desenvolvimento económico açoriano, tendo escrito a parte teórica, na qual justificava o uso de instrumentos conceptuais institucionalistas, em detrimento dos clássicos ou até neo-keynesianos, pela maior adequação daqueles a processos de longa duração. Ou seja, aqueles dos quais o tempo é uma variável maior [cf. post Não todos, mas vários caminhos levam a Roma]. Em troca, neste último ano escrevi um artigo sobre uma questão técnica pedagógica, para a qual optei por um instrumento reducionista. A diferença é que, na pontualidade ou particularidade dessa questão, o tempo é desconsiderável. Deixo assim aqui a hipótese da relevância vs. irrelevância desta última dimensão se constituir como o critério de resposta ao problema que resulta da obra de Egar Morin.
Entretanto acrescento o link para uma trad. port. de La Méthode, vol. 1, num e-book da Europa América:
http://www.scribd.com/doc/13760655/EDGAR-MORIN-O-METODO-I-
Etiquetas:
ciências - emergentismo,
ciências - reducionismo
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