A tarefa de organizar uma colecção da Seara Nova - que me sugeriu 4 posts recentes - levou-me a comentar com um amigo quão frustrado terá sido afinal o esforço de tantos que durante décadas mantiveram essa revista! E o que isso sugere sobre actuais projectos de intervenção cultural...
Com efeito, desde a I República (em Portugal) e passando pelo Estado Novo, dezenas de autores com obra nas humanidades, nas ciências sociais, e nas ciências naturais mais a matemática, tendo ainda o cuidado de estabelecer transdisciplinaridades e de destacar interdisciplinaridades, participaram naquela revista, durante muitos anos publicada semanalmente, com o intuito não só de informar, mas ainda de convocar e treinar a leitura crítica das elites portuguesas - "Elite" significa aí os que tinham acesso à informação e à respectiva reflexão, e que também por isso tendiam a ocupar os cargos públicos de maior responsabilidade. Além dessa participação, todos eles mantinham a sua produção e o seu magistério em academias, institutos, outras publicações, etc. Posso referir, noutro exemplo além daqueles 4, o médico e investigador Abel Salazar, expulso do ensino em 1935 pela sua oposição ao regime autoritário, e que a 15/04/1937 correspondeu ao convite de António Sérgio para que colaborasse com a S.N. com o artigo, não de medicina mas de filosofia, "Pensamento lógico, pré-lógico, pseudo-lógico e psicológico. Pensamento emotivo, pensamento lógico e empiro-lógico" (Ano XVII, Nº 505: 3-7), numa contribuição para a divulgação em Portugal das obras do Círculo de Viena! (Tenho que colocar um "!" pois creio que só talvez há uma dúzia e meia de anos essa linha de pensamento se terá começado a enraizar neste país).
Mas esta frustração do esforço de Abel Salazar bem poderá representar a de todos os seareiros. Pois o que, objectivamente, eles conseguiram foi formar a geração que, tendo recebido o poder político (e económico-social) daquele grupo de oficiais de carreira de patente intermédia que em 1974 se recusaram a continuar a combater em África uma vez que lhes foram equiparados os oficiais milicianos, e apesar da CEE e da UE, da ausência de catástrofes e guerras... trouxe o país até este limiar de A próxima década portuguesa - II. Tanto esforço de cultivar uma massa crítica que transformasse o país... e o resultado foi este! Valeu a pena? Não teriam todos eles melhor para fazer, quer intimamente para cada qual quer para os respectivos círculos próximos, do que gastar o seu tempo e energia numa educação cujos frutos afinal foram estes?...
Em Da influência cultural e da retórica... mas também... alinhavei algumas referências mais ou menos soltas sobre a influência das minorias sobre as maiorias. O exemplo dos seareiros parece sugerir que a expectativa sobre uma ocidentalização cultural dos portugueses (e lusófonos?) deva ser reduzidíssima... Só vislumbro 1 saída para esta sugestão: na minha passagem de olhos sobre os índices dos Nºs da referida colecção não dei conta de sinais duma ênfase estratégica na detecção, e resposta ao núcleo da resistência da maioria à influência implementada - como Howard Gardner recomenda. Será essa a pista que lhes faltou, ou, definitivamente, o pathos lusitano não é tocável pela retórica ocidentalizante?...
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domingo, 4 de abril de 2010
terça-feira, 16 de março de 2010
Da empregabilidade e dos salários na globalização
"The global economic community, and economic policymakers in governments and global institutions alike, have yet to fully understand the most fundamental economic development in this era of globalization — the doubling of the global labor force."
Com essas palavras abre Richard Freeman o seu artigo em http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=4542. Penso bem que deve ser lido e RELIDO por todos quantos, para os próximos 30 anos (!), de um lado se dispõem a fazer reivindicações salariais, e do outro lado adormecem na linha da participação política em particular quando esta visa relações internacionais.
Como diz o autor, nos últimos 15 anos - com a entrada da China, Índia e países ex-soviéticos no mercado global - a força de trabalho mundial duplicou. Mas sem que o capital (dinheiro + máquinas...) tenha crescido em proporção semelhante. E podemos acrescentar que nem a procura dos produtos pode ter aumentado proporcionalmente, dados os baixos rendimentos desses novos trabalhadores. Freeman diz mesmo que a relação capital/trabalho terá diminuído (contra o trabalho, a favor do capital) 55% a 60%, e que a anterior relação não poderá ser recuperada antes duns 30 anos... Isto é, as expectativas de empregabilidade, e de rendimento do trabalho (salários) com que vivemos até meados da 1ª década do presente século, com que fomos educados e que transmitimos aos actuais jovens, parecem irremediavelmente perdidas para o resto da vida da actual geração de meia idade, e pelo menos para a 1ª metade da vida da actual geração jovem nos países já desenvolvidos na última década do séc. XX.
Mais, Freeman chama ainda a atenção para que, por exemplo na formação de doutorados e engenheiros, a China ultrapassará os EUA ainda este ano. Onde o autor se engana, na minha opinião, é que não é por se ter um diploma superior que se é inovador... Ora, como ele próprio reconhece, pela 1ª vez todas estas economias funcionarão segundo o modelo capitalista. Mas este último, diz-se desde Schumpeter, proporciona o crescimento económico sob 2 condições: a 2ª é a disponibilidade de capital para investir; a 1ª é a da inovação (de produtos, de modos de produzir, de mercados...). E a criatividade que subjaze à inovação creio que depende de 2 atitudes ou faculdades mentais, implementadas por culturas que as valorizem: por um lado o espírito crítico - pois a inovação constitui a face positiva da moeda cuja 1ª face é negativa, a destruição do estado de coisas dado, ou como dizia Schumpeter, trata-se duma "destruição criadora". Por outro lado, o individualismo - pois se o desenvolvimento de projectos é por norma trabalho de equipa, a ideia chave é normalmente lançada por 1 pessoa. E esses são traços culturais estritamente ocidentais, em especial respectivamente desde a Modernidade e a Reforma Protestante. O Ocidente não deverá pois ter ainda perdido esta (se Schumpeter não se enganou: decisiva) vantagem comparativa... desde que consiga resguardar patentes, direitos de autor, etc.
Em suma: o trabalho passou a valer pouquíssimo - ainda para mais com as facilidades de deslocalizações graças aos actuais meios de transporte - o capital passou a valer muito mais - por proporcionalmente haver menos - o que significa que, no mundo desenvolvido, o rendimento pelo trabalho TERÁ que diminuir, enquanto em todo o mundo o rendimento pelo capital (os proveitos da banca, dos donos das fábricas, etc.) TERÁ que aumentar - isto, se a lei da procura e da oferta não for falsa... A desigualdade de rendimentos aumentará assim, de modo que, se não forem falsos os argumentos que mencionei no parágrafo 2.2.3 de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências, consequentemente aumentará a contradição interna na identidade ocidental, e porventura mesmo diminuirão as condições de qualquer crescimento económico (a longo prazo provavelmente mais difícil quando menos agentes têm acesso ao crédito).
Além daquela salvaguarda intransigente de patentes... 2 coisas me parece que haverá assim que fazer no horizonte político ocidental, e portanto em Portugal (!): A) investir a força diplomática, económica... que ainda tenhamos num "new model of globalization and new policies that put upfront the well-being of workers around the world". Assumindo porém que o tempo de vivermos às cavalitas de populações distantes... já lá vai! O nosso único objectivo político realista passou a ser o de mantermos uma autonomia que nos permita implementarmos os valores com que nos identificamos, ou seja, evitar que sejam agora os outros a viver às nossas cavalitas.
B) Em A próxima década portuguesa citei os conceitos de "produtor de coisas" e "produtor de ideias", para distinguir respectivamente os previsíveis loosers e winners da competição globalizada. Segundo o economista citado nesse post, o busílis estará na educação - isto é, não na generalização da frequência escolar e na distribuição de diplomas, mas na eficácia da educação! Mas, nesta ênfase na educação, além de todos os conhecimentos que os chineses, etc., também já têm, além dos valores da perseverança, do trabalho, que esses outros têm... e nós tivemos (!), em particular creio termos ainda que enfatizar a atrás referida identificação cultural dos jovens ocidentais, e as competências (de resolução de problemas, criatividade, iniciativa...) que implementem a inovação.
Esse (o político) é o horizonte imediato, aquele onde se tapam buracos... no referido ensaio argumentei que as causas dos problemas estruturantes se encontram porém num outro horizonte, fundamental. Creio que aí é que se poderão traçar soluções estruturantes (nesse ensaio propus precisamente uma pista nesse sentido).
Com essas palavras abre Richard Freeman o seu artigo em http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=4542. Penso bem que deve ser lido e RELIDO por todos quantos, para os próximos 30 anos (!), de um lado se dispõem a fazer reivindicações salariais, e do outro lado adormecem na linha da participação política em particular quando esta visa relações internacionais.
Como diz o autor, nos últimos 15 anos - com a entrada da China, Índia e países ex-soviéticos no mercado global - a força de trabalho mundial duplicou. Mas sem que o capital (dinheiro + máquinas...) tenha crescido em proporção semelhante. E podemos acrescentar que nem a procura dos produtos pode ter aumentado proporcionalmente, dados os baixos rendimentos desses novos trabalhadores. Freeman diz mesmo que a relação capital/trabalho terá diminuído (contra o trabalho, a favor do capital) 55% a 60%, e que a anterior relação não poderá ser recuperada antes duns 30 anos... Isto é, as expectativas de empregabilidade, e de rendimento do trabalho (salários) com que vivemos até meados da 1ª década do presente século, com que fomos educados e que transmitimos aos actuais jovens, parecem irremediavelmente perdidas para o resto da vida da actual geração de meia idade, e pelo menos para a 1ª metade da vida da actual geração jovem nos países já desenvolvidos na última década do séc. XX.
Mais, Freeman chama ainda a atenção para que, por exemplo na formação de doutorados e engenheiros, a China ultrapassará os EUA ainda este ano. Onde o autor se engana, na minha opinião, é que não é por se ter um diploma superior que se é inovador... Ora, como ele próprio reconhece, pela 1ª vez todas estas economias funcionarão segundo o modelo capitalista. Mas este último, diz-se desde Schumpeter, proporciona o crescimento económico sob 2 condições: a 2ª é a disponibilidade de capital para investir; a 1ª é a da inovação (de produtos, de modos de produzir, de mercados...). E a criatividade que subjaze à inovação creio que depende de 2 atitudes ou faculdades mentais, implementadas por culturas que as valorizem: por um lado o espírito crítico - pois a inovação constitui a face positiva da moeda cuja 1ª face é negativa, a destruição do estado de coisas dado, ou como dizia Schumpeter, trata-se duma "destruição criadora". Por outro lado, o individualismo - pois se o desenvolvimento de projectos é por norma trabalho de equipa, a ideia chave é normalmente lançada por 1 pessoa. E esses são traços culturais estritamente ocidentais, em especial respectivamente desde a Modernidade e a Reforma Protestante. O Ocidente não deverá pois ter ainda perdido esta (se Schumpeter não se enganou: decisiva) vantagem comparativa... desde que consiga resguardar patentes, direitos de autor, etc.
Em suma: o trabalho passou a valer pouquíssimo - ainda para mais com as facilidades de deslocalizações graças aos actuais meios de transporte - o capital passou a valer muito mais - por proporcionalmente haver menos - o que significa que, no mundo desenvolvido, o rendimento pelo trabalho TERÁ que diminuir, enquanto em todo o mundo o rendimento pelo capital (os proveitos da banca, dos donos das fábricas, etc.) TERÁ que aumentar - isto, se a lei da procura e da oferta não for falsa... A desigualdade de rendimentos aumentará assim, de modo que, se não forem falsos os argumentos que mencionei no parágrafo 2.2.3 de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências, consequentemente aumentará a contradição interna na identidade ocidental, e porventura mesmo diminuirão as condições de qualquer crescimento económico (a longo prazo provavelmente mais difícil quando menos agentes têm acesso ao crédito).
Além daquela salvaguarda intransigente de patentes... 2 coisas me parece que haverá assim que fazer no horizonte político ocidental, e portanto em Portugal (!): A) investir a força diplomática, económica... que ainda tenhamos num "new model of globalization and new policies that put upfront the well-being of workers around the world". Assumindo porém que o tempo de vivermos às cavalitas de populações distantes... já lá vai! O nosso único objectivo político realista passou a ser o de mantermos uma autonomia que nos permita implementarmos os valores com que nos identificamos, ou seja, evitar que sejam agora os outros a viver às nossas cavalitas.
B) Em A próxima década portuguesa citei os conceitos de "produtor de coisas" e "produtor de ideias", para distinguir respectivamente os previsíveis loosers e winners da competição globalizada. Segundo o economista citado nesse post, o busílis estará na educação - isto é, não na generalização da frequência escolar e na distribuição de diplomas, mas na eficácia da educação! Mas, nesta ênfase na educação, além de todos os conhecimentos que os chineses, etc., também já têm, além dos valores da perseverança, do trabalho, que esses outros têm... e nós tivemos (!), em particular creio termos ainda que enfatizar a atrás referida identificação cultural dos jovens ocidentais, e as competências (de resolução de problemas, criatividade, iniciativa...) que implementem a inovação.
Esse (o político) é o horizonte imediato, aquele onde se tapam buracos... no referido ensaio argumentei que as causas dos problemas estruturantes se encontram porém num outro horizonte, fundamental. Creio que aí é que se poderão traçar soluções estruturantes (nesse ensaio propus precisamente uma pista nesse sentido).
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sexta-feira, 5 de março de 2010
Atenção, cinema, e Teoria do caos
Encontrei a relação que o título indica no recente artigo de J. Cutting, J. DeLong e C. Nothelfer, disponível em http://pss.sagepub.com/content/early/2010/02/04/0956797610361679.full.pdf+html. Em síntese, à abordagem (psico-analítica, marxista, feminista...) à história do cinema dividindo-a num período clássico antes de 1960, e noutro daí para cá, os autores contrapõem uma abordagem cognitivista em 3 períodos - antes de c. 1955, daí até c. 1980, e o actual - em função da duração (e pareceu-me que do modo de transição) dos shots que compõem as cenas dos filmes.
Tendo vindo a diminuir essa duração, no 3º período ela aproxima-se duma relação matemática - análise de Fourier, padrão 1/f - que tem sido reconhecida em diversos fenómenos físicos, e que os autores sugerem que estruturará também a mente humana no tempo e no poder de prestarmos atenção. Ou seja, o cinema tem-se aproximado duma regra mental desta nossa capacidade, e essa regra, por sua vez, constitui mais uma aplicação entre tantas outras duma relação puramente formal que é objecto da análise matemática.
Esta disciplina da matemática estuda a estrutura formal dos processos ao longo do tempo. O estudo de casos que estes investigadores levaram a cabo, tendo levantado evidências empíricas da aproximação da duração dos shots àquele padrão de ondas matemáticas, propõe-se assim como um reforço à estratégia - v. Teoria do caos - de conceber os fenómenos (físicos ou mentais) como se estes emerjam ao longo do tempo em função dum qualquer atractor; isto é, como se os seus diversos elementos se vão organizando e sedimentando progressivamente em conformidade a um modelo que todavia resta oculto, e é nessa sedimentação que os fenómenos ganham forma ou se tornam no que são.
Mais, portanto, do que distinguir os elementos básicos seja na física, seja na economia,... seja no cinema, e as respectivas regras de composição, importará determinar o processo formal pelo qual quaisquer daqueles fenómenos se constituem. Da correlação hierárquica entre estas estratégias reducionista e emergentista, aqui lembrada em Emergentismo: unicidade ou complementaridade?, parece voltarmos com este caso do cinema e da atenção à pura e simples substituição da 1ª pela 2ª...
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Ciências duras, ciências moles, e cultura
Estava marcada para ontem no Porto, no âmbito do ciclo de conferências "Novas respostas a novos desafios" promovido pela Fundação Mário Soares, a conferência "Novas respostas da ciência" de Sobrinho Simões, na qual o Director do IPATIMUP se propôs defender "que é necessário evoluir de uma perspectiva científico-tecnológica para "uma muito mais cultural, política e, no limite, até religiosa". Frisou que acredita que é a cultura que perspectiva a ciência e não o contrário." (v. http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=39787&op=all).
Justificando: "como somos cada vez mais egoístas, mais mimados como sociedade, acostumados a ter tudo, a ter bem-estar e a gastar muito, estas respostas da ciência, por estranho que pareça, se calhar estão a acelerar os desafios que são mais globais: o da demografia, o do clima, o do esgotamento dos recursos naturais". Este é o condicionamento ético das tecno-ciências. Mas há outro:
As ciências modernas desenvolveram-se sobre uma concepção mecanicista da realidade material, podendo esta assim ser decomposta em elementos, associados segundo certas relações, normalmente formuláveis matematicamente. Ao contrário, a concepção medieval era mais organicista, cada parte (qual órgão) só se compreende e subsiste a funcionar num organismo, dotado de alguma espontaneidade (livre do espartilhamento das relações matemáticas). Veja-se a passagem da alquimia para a química. Mas ainda no séc. XX houve quem propusesse um funcionalismo para compreender por exemplo a mente. Ou seja, na base de quaisquer formulações científicas ou aplicações tecnológicas, potenciando mas também orientando ou enquadrando estas últimas, encontram-se concepções gerais de "objecto", "causalidade", etc. Além dos "controlos éticos" que Sobrinho Simões afirmou ser necessário introduzir, há que implementar a constante reflexão crítica, metafísica e epistemológica, sobre aqueles conceitos de base.
Justificando: "como somos cada vez mais egoístas, mais mimados como sociedade, acostumados a ter tudo, a ter bem-estar e a gastar muito, estas respostas da ciência, por estranho que pareça, se calhar estão a acelerar os desafios que são mais globais: o da demografia, o do clima, o do esgotamento dos recursos naturais". Este é o condicionamento ético das tecno-ciências. Mas há outro:
As ciências modernas desenvolveram-se sobre uma concepção mecanicista da realidade material, podendo esta assim ser decomposta em elementos, associados segundo certas relações, normalmente formuláveis matematicamente. Ao contrário, a concepção medieval era mais organicista, cada parte (qual órgão) só se compreende e subsiste a funcionar num organismo, dotado de alguma espontaneidade (livre do espartilhamento das relações matemáticas). Veja-se a passagem da alquimia para a química. Mas ainda no séc. XX houve quem propusesse um funcionalismo para compreender por exemplo a mente. Ou seja, na base de quaisquer formulações científicas ou aplicações tecnológicas, potenciando mas também orientando ou enquadrando estas últimas, encontram-se concepções gerais de "objecto", "causalidade", etc. Além dos "controlos éticos" que Sobrinho Simões afirmou ser necessário introduzir, há que implementar a constante reflexão crítica, metafísica e epistemológica, sobre aqueles conceitos de base.
domingo, 14 de fevereiro de 2010
Televisão: la zone Xtrême
É no mínimo incomodativo ver como é logo o partido político ao qual a democracia portuguesa mais deverá - desde a sua (do PS) fundação por pessoas que assumiram os custos pessoais do enfrentamento directo ao Estado Novo, passando por se firmar como pivot da resistência à deriva autoritária comunista, até aceitar o custo político do saneamento financeiro do país para a adesão à CEE - que hoje se encontra enredado numa teia de indícios de tentativa sistemática de controlo da opinião pública crítica, em especial na televisão. E ao contra-ataque do líder socialista, saltando sobre o conteúdo das notícias para se concentrar na forma da sua obtenção - o tal "jornalismo de buraco de fechadura" com a divulgação de escutas telefónicas - já qualquer romano retorquiria que à mulher de César não basta ser séria... Mais deprimentes do que os erros, Sr. Primeiro-Ministro, são quaisquer justificações suas ulteriores - especialmente se se esfarrapam na ignorância de máximas políticas milenares!
Mas compreende-se que a tentação é grande.
E a prová-lo vem hoje este desenvolvimento daquela que terá sido a mais célebre experiência da história da psicologia social: na década de 1960 Stanley Milgram investigou a percentagem das pessoas que, sob indicação de alguém vestido como cientista ou técnico, se dispunham a penalizar com choques eléctricos de crescente intensidade quem não fosse capaz de aprender alguns dados. A hipótese testada por Michel Eltchaninoff e Christophe Nick em 2009 foi a de que, mais do que a autoridade e legitimação científica, vale hoje a autoridade e legitimação televisiva - se acontece na TV, então é verdade e é bom! Aplicando o protocolo daquela outra experiência, convidaram 80 voluntários a participarem num (fictício) concurso televisivo, cujas regras eram as de penalizar com choques eléctricos os concorrentes que falhassem um questionário; estes voluntários julgavam que quem estaria em jogo seriam esses concorrentes, todavia estes últimos eram representados por um actor que simularia o sofrimento após falhar (intencionalmente) a resposta, bem como participantes activos eram as pessoas do público que gritavam "Cas-ti-go!" para estimular o voluntário na consola de comandos, além da apresentadora que garantia que as eventuais responsabilidades cabiam integralmente aos produtores do programa, e não aos voluntários. O resultado é o que se vê neste videoclip:
Alguns voluntários colocaram-se rapidamente objecções éticas. Outros não tanto. Mas a maioria deles desempenhou as funções que lhes cabiam com naturalidade. Isto é, não mostraram uma ferocidade enfim liberta pela ausência de responsabilidades, apenas (julgaram que) torturaram e mataram uma pessoa na simplicidade de mais um jogo televisivo! E mais: na experiência de Milgram, 60% dos voluntários chegaram a aplicar a descarga que lhes era dito ser mortal. Na experiência televisiva actual, esta parcela foi de 82%...
A realidade hoje só é virtual, e a televisão o seu profeta.
(Por amor de Deus, que nunca ninguém convide José Sócrates - ou qualquer dos socratentos que logo lhe emergiram na peugada - para os comandos duma consola como essa!...)
Mas compreende-se que a tentação é grande.
E a prová-lo vem hoje este desenvolvimento daquela que terá sido a mais célebre experiência da história da psicologia social: na década de 1960 Stanley Milgram investigou a percentagem das pessoas que, sob indicação de alguém vestido como cientista ou técnico, se dispunham a penalizar com choques eléctricos de crescente intensidade quem não fosse capaz de aprender alguns dados. A hipótese testada por Michel Eltchaninoff e Christophe Nick em 2009 foi a de que, mais do que a autoridade e legitimação científica, vale hoje a autoridade e legitimação televisiva - se acontece na TV, então é verdade e é bom! Aplicando o protocolo daquela outra experiência, convidaram 80 voluntários a participarem num (fictício) concurso televisivo, cujas regras eram as de penalizar com choques eléctricos os concorrentes que falhassem um questionário; estes voluntários julgavam que quem estaria em jogo seriam esses concorrentes, todavia estes últimos eram representados por um actor que simularia o sofrimento após falhar (intencionalmente) a resposta, bem como participantes activos eram as pessoas do público que gritavam "Cas-ti-go!" para estimular o voluntário na consola de comandos, além da apresentadora que garantia que as eventuais responsabilidades cabiam integralmente aos produtores do programa, e não aos voluntários. O resultado é o que se vê neste videoclip:
Alguns voluntários colocaram-se rapidamente objecções éticas. Outros não tanto. Mas a maioria deles desempenhou as funções que lhes cabiam com naturalidade. Isto é, não mostraram uma ferocidade enfim liberta pela ausência de responsabilidades, apenas (julgaram que) torturaram e mataram uma pessoa na simplicidade de mais um jogo televisivo! E mais: na experiência de Milgram, 60% dos voluntários chegaram a aplicar a descarga que lhes era dito ser mortal. Na experiência televisiva actual, esta parcela foi de 82%...
A realidade hoje só é virtual, e a televisão o seu profeta.
(Por amor de Deus, que nunca ninguém convide José Sócrates - ou qualquer dos socratentos que logo lhe emergiram na peugada - para os comandos duma consola como essa!...)
sábado, 30 de janeiro de 2010
A ciência tal qual ela se faz e vive
O Nº 438 da revista La Recherche (Fevereiro, 2010: 68, 69) traz um Portrait que me parece muito sugestivo sobre o exercício das ciências. É um pequeno artigo sobre a vida e obra do psicólogo canadiano, de origem estónia, Endel Tulving, que em Novembro último recebeu o prémio Pasteur-Weizman-Servier pelo seu estudo da memória humana.
Sobre esta faculdade, a autora atribui-lhe a distinção entre codificação, armazenamento e recuperação (na memória de longo prazo), além das memórias de curto prazo (ou de trabalho), procedimental (do saber-fazer) e perceptiva (sensorial), e ainda da distinção geral entre memória episódica (dos acontecimentos espácio-temporais) e semântica (dos conceitos, expressos verbalmente, exemplificados nos acontecimentos). À excepção desta última distinção, já vi aquelas outras reportadas a autores como Baddeley e Hitch, ou Craig e Lockhart, não conheço a história da psicologia recente para julgar sobre direitos de autor, de qualquer modo Tulving é um dos nomes que aparece na pista da concepção da memória multíplice em vez de unitária.
Mas o que creio vir aqui mais a propósito é a dimensão vivencial do artigo. Tulving, agora com 82 anos, fugiu da Europa devastada para Toronto em 1949, onde foi trabalhador rural, motorista... enquanto se graduava em psicologia. Em 1956 começou a trabalhar na Universidade de Toronto, doutorou-se em Harvard com um estudo sobre a visão, e regressou ao Canadá onde trocou como objecto de estudo esta faculdade pela memória - pela comezinha razão de falta de recursos... ou (como sugere F. Eustache) pela relevância mesmo que inconsciente da memória para um emigrante? Fosse por que razão fosse, como ele próprio declara um dia ouviu num congresso que se poderia substituir a hipótese vigente de uma consequencialidade da memória semântica em relação à episódica (aquela resultaria desta). Entretanto já se observara por exemplo que até certa idade as crianças memorizavam (semanticamente) aprendizagens pese embora não recordassem (episodicamente) o que haviam feito na véspera... Para ligar estas 2 pontas soltas, Tulving propôs então pensar a memória como se ela fosse um conjunto de faculdades e não como se fosse uma única - separando a m. episódica da semântica. Numa sua citação: "je propose de noveaux concepts seulement si mes observations contredisent les anciens" (p. 68).
Tenho vindo aqui a insistir nesta possibilidade de entender (contextualista e pragmaticamente) os conceitos e teorias como instrumentos para a solução de problemas, e não como representações de uma realidade - ainda há dias apontei isso em relação à matemática. A biografia científica deste psicólogo é mais um exemplo: da aventura da emigração e do esforço e partilha da vida entre a enxada e os livros de psicologia, ao desenvolvimento conceptual da hipótese das memórias episódica e semântica, passando pelo reconhecimento da potencialidade conceptual duma deixa ouvida num congresso, assim se fez, entre trabalhos, intuições indistintas, e acasos, a sua obra. Esta não resultou de alguma intuição de 1ªs verdades - como que reveladas pela Natureza, senão por Deus, a este génio iluminado - de onde depois se deduziriam todas aquelas teorias. Ao contrário, foi feita por um homem, condicionado pela respectiva comunidade, com todos os ingredientes que compõem a vida de qualquer outro... mas não faltando o do arrojo de pensar por si mesmo!
Julgo que há muito a aprender em exemplos como este pelos Governos, pelas Escolas, pelas famílias, pelos indivíduos dos países que, querendo os resultados que a investigação fundamental e as tecnologias de ponta facultam, historicamente têm tendido porém a desvalorizar, se não mesmo condenar, a crítica e o arrojo de que Endel Tulving é mais um exemplo, na crença, algo mágica, de que as teorias são coisas que descem misteriosamente sob alguns iluminados...
Sobre esta faculdade, a autora atribui-lhe a distinção entre codificação, armazenamento e recuperação (na memória de longo prazo), além das memórias de curto prazo (ou de trabalho), procedimental (do saber-fazer) e perceptiva (sensorial), e ainda da distinção geral entre memória episódica (dos acontecimentos espácio-temporais) e semântica (dos conceitos, expressos verbalmente, exemplificados nos acontecimentos). À excepção desta última distinção, já vi aquelas outras reportadas a autores como Baddeley e Hitch, ou Craig e Lockhart, não conheço a história da psicologia recente para julgar sobre direitos de autor, de qualquer modo Tulving é um dos nomes que aparece na pista da concepção da memória multíplice em vez de unitária.
Mas o que creio vir aqui mais a propósito é a dimensão vivencial do artigo. Tulving, agora com 82 anos, fugiu da Europa devastada para Toronto em 1949, onde foi trabalhador rural, motorista... enquanto se graduava em psicologia. Em 1956 começou a trabalhar na Universidade de Toronto, doutorou-se em Harvard com um estudo sobre a visão, e regressou ao Canadá onde trocou como objecto de estudo esta faculdade pela memória - pela comezinha razão de falta de recursos... ou (como sugere F. Eustache) pela relevância mesmo que inconsciente da memória para um emigrante? Fosse por que razão fosse, como ele próprio declara um dia ouviu num congresso que se poderia substituir a hipótese vigente de uma consequencialidade da memória semântica em relação à episódica (aquela resultaria desta). Entretanto já se observara por exemplo que até certa idade as crianças memorizavam (semanticamente) aprendizagens pese embora não recordassem (episodicamente) o que haviam feito na véspera... Para ligar estas 2 pontas soltas, Tulving propôs então pensar a memória como se ela fosse um conjunto de faculdades e não como se fosse uma única - separando a m. episódica da semântica. Numa sua citação: "je propose de noveaux concepts seulement si mes observations contredisent les anciens" (p. 68).
Tenho vindo aqui a insistir nesta possibilidade de entender (contextualista e pragmaticamente) os conceitos e teorias como instrumentos para a solução de problemas, e não como representações de uma realidade - ainda há dias apontei isso em relação à matemática. A biografia científica deste psicólogo é mais um exemplo: da aventura da emigração e do esforço e partilha da vida entre a enxada e os livros de psicologia, ao desenvolvimento conceptual da hipótese das memórias episódica e semântica, passando pelo reconhecimento da potencialidade conceptual duma deixa ouvida num congresso, assim se fez, entre trabalhos, intuições indistintas, e acasos, a sua obra. Esta não resultou de alguma intuição de 1ªs verdades - como que reveladas pela Natureza, senão por Deus, a este génio iluminado - de onde depois se deduziriam todas aquelas teorias. Ao contrário, foi feita por um homem, condicionado pela respectiva comunidade, com todos os ingredientes que compõem a vida de qualquer outro... mas não faltando o do arrojo de pensar por si mesmo!
Julgo que há muito a aprender em exemplos como este pelos Governos, pelas Escolas, pelas famílias, pelos indivíduos dos países que, querendo os resultados que a investigação fundamental e as tecnologias de ponta facultam, historicamente têm tendido porém a desvalorizar, se não mesmo condenar, a crítica e o arrojo de que Endel Tulving é mais um exemplo, na crença, algo mágica, de que as teorias são coisas que descem misteriosamente sob alguns iluminados...
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domingo, 24 de janeiro de 2010
1989-2009: 20 livros que mudaram a nossa visão do mundo
Este post é uma mera notícia do Dossier da Sciences Humaines deste mês (nº 211: 30-59). Limito-me a sintetizar os subtítulos dos artigos dedicados a cada livro, referindo estes últimos nos seus títulos franceses à excepção daqueles de que conheço uma tradução portuguesa ou brasileira.
Note-se entretanto que, além de que naturalmente se poderá defender que algumas outras obras mereceriam mais do que algumas destas participar desse top20, este último versa exclusivamente as ciências sociais e humanas, deixando de fora a influência na nossa visão do mundo de obras das ciências naturais e tecnologias, bem como das humanidades e literatura. De qualquer modo creio que a sugestão valerá a pena.
1989:
- Francis Fukuyama, O Fim da História - após o colapso comunista, às sociedades contemporâneas restaria apenas a democracia liberal vencedora da guerra fria.
- Charles Taylor, Fontes do Self: A Construção da Identidade Moderna - o individualismo moderno, desde que não degenere no seu excesso, é moralmente positivo.
1990:
- Judith Butler, Trouble dans le Genre - o género sexual é uma convenção.
1991:
- Bruno Latour, Nous n'Avons Jamais Été Modernes - a ciência não evolui à margem dos interesses sociais e polítios.
1992:
- Axel Honneth, La Lutte pour la Reconnaissance - a luta pelo reconhecimento é o motor das sociedades democráticas.
- Amartya Sen, Desigualdade Reexaminada - a pobreza não se mede apenas pelo rendimento económico.
1993:
- Pierre Boudieu, La Misère du Monde - as novas formas de sofrimento social.
1994:
- Steven Pinker, L'Instinct du Langage - a palavra é um instinto (não um produto cultural).
- António Damásio, O Erro de Descartes - a razão sem emoções não pondera bem.
1995:
- Ian Hacking, L'Âme Réécrite - da relação entre as doenças mentais e o contexto social.
1996:
- Frans de Waal, Le Bon Singe - da amizade e caridade entre os animais.
- Daniel Jonah Goldhagen, Les Bourreaux Volontaires de Hitler - foi o povo alemão, e não apenas os seus dirigentes, que levou a cabo o Holocausto.
- Samuel Huntington, O Choque das Civilizações - o futuro do mundo será condicionado por choques identitários e culturais.
- Arjun Appadurai, Après le Colonialisme - a mundialização também fragmenta culturalmente os Estados-Nação modernos.
1998:
- Manuel Castels, La Société en Réseaux - da emergência do mundo globalizado.
1999:
- Peter Sloterdijk, Règles pour le Parc Humain - biopolítica, o próximo instrumento das elites do poder.
- Luc Boltanski e Eve Chiapello, Le Nouvel Esprit du Capitalisme - dos anos 1960 a um novo instrumento de dominação capitalista.
2001:
- Pierre Hadot, La Philosophie comme Manière de Vivre - o quotidiano como prática filosófica.
2005:
- Philippe Descola, Par-delà Nature et Culture - contra a antiga dicotomia natureza vs. cultura.
- Jared Diamond, Effondrement - o desaparecimento das civilizações como resultado da delapidação dos respectivos ambientes.
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Por um 2010... com sentido! (3/3)
Termino esta trilogia de posts sobre um sentido para a vida com uma referência que ando para aqui trazer creio que desde Da escolha ética. Do sentido da vida .
Com efeito, no 1º destes 3 posts ficou a questão do sentido das nossas vidas (nomeadamente para ser cumprido em mais este ano) será ou o da mera replicação do código genético que herdámos - i.e. cada pessoa é um instrumento do ADN que a constitui para que ela exerça o comportamento de reprodução desse código - ou o de cumprir o que for apropriado a níveis que se desenvolvam a partir dessa matéria prima molecular, como o da consciência e o social. Essa foi uma abordagem indirecta - via concepção da vida em geral, a nossa ou a dos plátanos... - à questão do sentido. No 2º post referi a abordagem directa ao modo como vivemos esta questão tal como esse modo é expresso na linguagem. No espectro desde a tese de que não podemos experimentar qualquer sentido até à de que experimentamos um que ultrapassa quaisquer inclinações subjectivas, destaquei 2 filósofos neste último extremo, sugerindo que a vida humana tem sentido quando é dedicada, com trabalho, a projectos de um valor além do interesse privado do indivíduo. Neste 3º post quero deixar uma sugestão de aplicação dessa questão não só à vida íntima de cada um de nós, mas também à dimensão colectiva ou política:
"Crise du sens, crise du lien social, crise de l'emploi: trois symptômes d'un mal unique" - título do cap. 7 de Jean-Baptiste de Foucauld e Denis Piveteau, Une Société en Quête de Sens, Paris: Odile Jacob, 2000. Ou como os autores introduzem o cap. anterior, "La crise de l'emploi ne prend sa vraie dimension que rapportée à la fragilité croissante des liens sociaux. Mais celle-ci ne se comprend, à son tour, que si on la relie à une autre crise, celle d'une société qui ne parvient plus à se donner des objectifs individuels et collectifs mobilisateurs. Ce que nous appellerons la crise du sens" (p. 105).
A ideia é que, com a pós-modernidade, os grandes sistemas proponentes de sentido - religião, etc. - perderam peso, restando a cada pessoa construir o sentido da sua vida, quando muito utilizando propostas pontuais que recolhe no que lhe chega daqueles sistemas. Desafio a que se acresce o de conciliar esses sentidos individuais com uma actividade económica colectiva que faculte o progresso sócio-económico. Diga-se de passagem que parte do incómodo de Neil Levy (no post anterior) com a opção da autodespromoção que troca o trabalho tout court pela convivência familiar, etc., releva deste 2º desafio - se há trabalho alienante, e que é necessário à sobrevivência da maioria de nós, é porém ainda no trabalho que em alguma medida poderemos desenvolver no tempo de lazer que construiremos um sentido para as nossas vidas; e dificilmente nesse trabalho não haverá alguma dimensão pública ou colectiva.
Para ilustrar a relação entre sentido de vida e emprego acrescento um exemplo dado por aqueles sociólogos: os empregos de proximidade, ou dos serviços de atendimento. Queremos ser atendidos nestes serviços por pessoas ou por máquinas, gravações de voz, etc.? Frequentemente preferimos as pessoas, e não só para agilizar a comunicação mas também para quebrar a solidão individual nas grandes metrópoles. Bom, mas neste caso como é que se paga o maior custo do serviço pessoalizado? Isto é, em que é que vai faltar o capital acumulado que, assim, se dedicará à formação e salários desses trabalhadores?... Se o sentido que a maioria de nós conferirmos às nossas vidas nos encerrar nas nossas individualidades, preferiremos a economia de custos que nos libertará recursos nossos para outras funções (férias, etc.)... Enfim, enquanto não nos calhar a nós a fava do desemprego ou do subemprego! Mas então, na sequência daquele sentido, muito pouco apoio poderemos esperar dos outros. Este sentido ameaça assim virar-se contra a sua própria sustentabilidade.
Paradoxo semelhante é por exemplo o que atravessa os posts que aqui dediquei à "Hopenhagen". Bastante trabalho nos espera, pois, nesta questão do sentido, no ano que agora iniciamos!
Com efeito, no 1º destes 3 posts ficou a questão do sentido das nossas vidas (nomeadamente para ser cumprido em mais este ano) será ou o da mera replicação do código genético que herdámos - i.e. cada pessoa é um instrumento do ADN que a constitui para que ela exerça o comportamento de reprodução desse código - ou o de cumprir o que for apropriado a níveis que se desenvolvam a partir dessa matéria prima molecular, como o da consciência e o social. Essa foi uma abordagem indirecta - via concepção da vida em geral, a nossa ou a dos plátanos... - à questão do sentido. No 2º post referi a abordagem directa ao modo como vivemos esta questão tal como esse modo é expresso na linguagem. No espectro desde a tese de que não podemos experimentar qualquer sentido até à de que experimentamos um que ultrapassa quaisquer inclinações subjectivas, destaquei 2 filósofos neste último extremo, sugerindo que a vida humana tem sentido quando é dedicada, com trabalho, a projectos de um valor além do interesse privado do indivíduo. Neste 3º post quero deixar uma sugestão de aplicação dessa questão não só à vida íntima de cada um de nós, mas também à dimensão colectiva ou política:
"Crise du sens, crise du lien social, crise de l'emploi: trois symptômes d'un mal unique" - título do cap. 7 de Jean-Baptiste de Foucauld e Denis Piveteau, Une Société en Quête de Sens, Paris: Odile Jacob, 2000. Ou como os autores introduzem o cap. anterior, "La crise de l'emploi ne prend sa vraie dimension que rapportée à la fragilité croissante des liens sociaux. Mais celle-ci ne se comprend, à son tour, que si on la relie à une autre crise, celle d'une société qui ne parvient plus à se donner des objectifs individuels et collectifs mobilisateurs. Ce que nous appellerons la crise du sens" (p. 105).
A ideia é que, com a pós-modernidade, os grandes sistemas proponentes de sentido - religião, etc. - perderam peso, restando a cada pessoa construir o sentido da sua vida, quando muito utilizando propostas pontuais que recolhe no que lhe chega daqueles sistemas. Desafio a que se acresce o de conciliar esses sentidos individuais com uma actividade económica colectiva que faculte o progresso sócio-económico. Diga-se de passagem que parte do incómodo de Neil Levy (no post anterior) com a opção da autodespromoção que troca o trabalho tout court pela convivência familiar, etc., releva deste 2º desafio - se há trabalho alienante, e que é necessário à sobrevivência da maioria de nós, é porém ainda no trabalho que em alguma medida poderemos desenvolver no tempo de lazer que construiremos um sentido para as nossas vidas; e dificilmente nesse trabalho não haverá alguma dimensão pública ou colectiva.
Para ilustrar a relação entre sentido de vida e emprego acrescento um exemplo dado por aqueles sociólogos: os empregos de proximidade, ou dos serviços de atendimento. Queremos ser atendidos nestes serviços por pessoas ou por máquinas, gravações de voz, etc.? Frequentemente preferimos as pessoas, e não só para agilizar a comunicação mas também para quebrar a solidão individual nas grandes metrópoles. Bom, mas neste caso como é que se paga o maior custo do serviço pessoalizado? Isto é, em que é que vai faltar o capital acumulado que, assim, se dedicará à formação e salários desses trabalhadores?... Se o sentido que a maioria de nós conferirmos às nossas vidas nos encerrar nas nossas individualidades, preferiremos a economia de custos que nos libertará recursos nossos para outras funções (férias, etc.)... Enfim, enquanto não nos calhar a nós a fava do desemprego ou do subemprego! Mas então, na sequência daquele sentido, muito pouco apoio poderemos esperar dos outros. Este sentido ameaça assim virar-se contra a sua própria sustentabilidade.
Paradoxo semelhante é por exemplo o que atravessa os posts que aqui dediquei à "Hopenhagen". Bastante trabalho nos espera, pois, nesta questão do sentido, no ano que agora iniciamos!
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Por um 2010... com sentido! (2/3)
No post anterior abordei a questão do sentido da vida mediante a biologia - que visa em geral o que nasce e morre, se alimenta, se reproduz... Mas isso talvez pouco diga especificamente, não só à vida humana, mas ainda a cada pessoa nas suas situações concretas. Para esclarecer um sentido que oriente as opções que temos de fazer nessas situações poderá ser mais significativa a abordagem filosófica - refiro-me à que analisa as expressões dos nossos comportamentos, etc.
Para esta outra abordagem um bom utensílio será a colectânea de AAVV, Viver para Quê? Ensaios Sobre o Sentido da Vida (org. e trad. Desidério Murcho, Lisboa: Dinalivro, 2009). A qual reúne ensaios argumentando pela falta de sentido, outros pela relatividade subjectiva de qualquer sentido, e outros por alguma objectividade de um sentido. Uma vez que o inquérito que aqui apresentei em Da filosofia e das suas tendências actuais sugere que a maioria dos filósofos actuais tenderá a aceitar a 3ª posição (realismo moral: 56,3%) - e também porque é a minha! - destaco os 2 ensaios que a representam: Susan Wolf, "Felicidade e sentido: Dois aspectos da vida boa" (pp. 157-186); Neil Levy, "Despromoção e sentido na vida" (pp. 187-205).
Em síntese, Wolf propõe que "vidas com sentido são vidas de entrega activa a projectos de valor" (p. 161). A quem tender a concordar, aqui fica o pedido de ajuda intelectual da filósofa: "Dado que não tenho qualquer teoria do valor com a qual possa provar a coerência do conceito ["projectos de valor (em contraste com outros projectos)"] ou refutar todos os desafios cépticos, nada mais posso fazer senão reconhecer a vulnerabilidade da minha concepção do interesse próprio quanto a este aspecto" (p. 167).
E quem assim se dispuser a resolver aquela vulnerabilidade teórica será logo confortado pela tese de Neil Levy! A saber, os referidos "projectos de valor" são constituídos por actividades que vão redeterminando os seus fins à medida que os realizam, como a procura da verdade (ex. numa ajuda a S. Wolf), da implementação da justiça, a criação artística... fins estes que por sua vez servem de referências últimas às restantes escolhas e comportamentos. Cabe depois a cada um, na sua circunstância e segundo as suas apetências, escolher em geral o tipo de projecto que lhe for mais adequado, e concretamente em qual poderá trabalhar.
Poder-se-á talvez objectar que, se as noções de "verdade", "justiça", "belo"... forem totalmente relativas ou subjectivas, então cada um encontrá-las-á onde isso lhe der prazer, e caímos numa teoria hedonista sobre o interesse próprio (que zela pelo esclarecimento de um sentido da vida, v. Wolf, p. 158). Bom, também agora o que 1º se poderá dizer a quem se dispuser a resgatar alguma objectividade daquelas noções - confirmando as teses desses 2 filósofos contemporâneos contra os hedonistas - é que estará assim experimentando, em pessoa, a tese de que o sentido se constrói no trabalho pela verdade...
Para esta outra abordagem um bom utensílio será a colectânea de AAVV, Viver para Quê? Ensaios Sobre o Sentido da Vida (org. e trad. Desidério Murcho, Lisboa: Dinalivro, 2009). A qual reúne ensaios argumentando pela falta de sentido, outros pela relatividade subjectiva de qualquer sentido, e outros por alguma objectividade de um sentido. Uma vez que o inquérito que aqui apresentei em Da filosofia e das suas tendências actuais sugere que a maioria dos filósofos actuais tenderá a aceitar a 3ª posição (realismo moral: 56,3%) - e também porque é a minha! - destaco os 2 ensaios que a representam: Susan Wolf, "Felicidade e sentido: Dois aspectos da vida boa" (pp. 157-186); Neil Levy, "Despromoção e sentido na vida" (pp. 187-205).
Em síntese, Wolf propõe que "vidas com sentido são vidas de entrega activa a projectos de valor" (p. 161). A quem tender a concordar, aqui fica o pedido de ajuda intelectual da filósofa: "Dado que não tenho qualquer teoria do valor com a qual possa provar a coerência do conceito ["projectos de valor (em contraste com outros projectos)"] ou refutar todos os desafios cépticos, nada mais posso fazer senão reconhecer a vulnerabilidade da minha concepção do interesse próprio quanto a este aspecto" (p. 167).
E quem assim se dispuser a resolver aquela vulnerabilidade teórica será logo confortado pela tese de Neil Levy! A saber, os referidos "projectos de valor" são constituídos por actividades que vão redeterminando os seus fins à medida que os realizam, como a procura da verdade (ex. numa ajuda a S. Wolf), da implementação da justiça, a criação artística... fins estes que por sua vez servem de referências últimas às restantes escolhas e comportamentos. Cabe depois a cada um, na sua circunstância e segundo as suas apetências, escolher em geral o tipo de projecto que lhe for mais adequado, e concretamente em qual poderá trabalhar.
Poder-se-á talvez objectar que, se as noções de "verdade", "justiça", "belo"... forem totalmente relativas ou subjectivas, então cada um encontrá-las-á onde isso lhe der prazer, e caímos numa teoria hedonista sobre o interesse próprio (que zela pelo esclarecimento de um sentido da vida, v. Wolf, p. 158). Bom, também agora o que 1º se poderá dizer a quem se dispuser a resgatar alguma objectividade daquelas noções - confirmando as teses desses 2 filósofos contemporâneos contra os hedonistas - é que estará assim experimentando, em pessoa, a tese de que o sentido se constrói no trabalho pela verdade...
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quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Inovação e educação para a criatividade
Desde Schumpeter que a inovação - de produtos, meios de produção, de comercialização... - foi erigida em chave do crescimento económico (apoiada por alguma acumulação de capital que permita o investimento, e por legislação da propriedade, do trabalho... que o não entravem). No seu recente post http://dererummundi.blogspot.com/2009/11/estrategia-para-o-conhecimento.html Norberto Pires assinala a ligação entre inovação empresarial e educação escolar (e familiar!) para a criatividade. Parece óbvio.
Vem muito a propósito a palestra de Sir Ken Robinson, cujo link a Maria João Cavaco fez o favor de me enviar há tempos. Apesar de talvez um bocadinho longa para o espírito da navegação na net (pelo menos para o meu já é), a quem domina o inglês valerá muito a pena desde logo pelo excelente sentido de humor do conferencista! A sua argumentação, depois, não me parece suficiente: apontar uns quantos casos isolados, ou mesmo teorias parcelares, e depois simplesmente sugerir a sua generalização e relevância para o tema em causa não é uma indução logicamente válida. Mas não deixa de valer como sugestão, como pista a explorar - antes de como cidadão eleitor ou porventura como professor, como pai/mãe. Aqui fica pois esse link:
http://www.ted.com/talks/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html
Vem muito a propósito a palestra de Sir Ken Robinson, cujo link a Maria João Cavaco fez o favor de me enviar há tempos. Apesar de talvez um bocadinho longa para o espírito da navegação na net (pelo menos para o meu já é), a quem domina o inglês valerá muito a pena desde logo pelo excelente sentido de humor do conferencista! A sua argumentação, depois, não me parece suficiente: apontar uns quantos casos isolados, ou mesmo teorias parcelares, e depois simplesmente sugerir a sua generalização e relevância para o tema em causa não é uma indução logicamente válida. Mas não deixa de valer como sugestão, como pista a explorar - antes de como cidadão eleitor ou porventura como professor, como pai/mãe. Aqui fica pois esse link:
http://www.ted.com/talks/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Da escola semiótica aos manuais de bons (e maus!) costumes
A investigação sobre comunicação distingue-se hoje entre as chamadas "escola processual" e "escola semiótica": a 1ª assume a comunicação como a passagem de uma mensagem do emissor ao receptor, mediante um código, canal, etc. Decompondo estes elementos, pode assim pretender-se que o sentido de uma mensagem é independente do código usado para a exprimir, da interpretação dum dado receptor,... Por exemplo, um político (como Lenine) emite uma mensagem de belas palavras na sequência da qual são mortos milhões de pessoas, argumentarão porém os seus apaniguados que aquela beleza resta aquém deste morticínio. Já para a escola semiótica, como diz António Fidalgo (http://www.scribd.com/doc/2587154/Antonio-Fidalgo-UBI-A-semiotica-e-os-modelos-de-comunicacao), "o significado da mensagem não se encontra instituído na mensagem, (...) é algo que subsiste numa relação estrutural entre o produtor, a mensagem, o referente, o interlocutor e o contexto". Pois falta encontrar o olhar de Deus que faculte o sentido absoluto de quaisquer signos linguísticos, de tal forma que os sentidos acabam por se constituir nos comportamentos a que a comunicação dá azo - uma de duas: ou bem que o sentido da comunicação leninista é o Gulag, ou bem que, não lhe sendo imputável quaisquer comportamentos consequentes (nunca terá sido por escutarem as ordens de Lenine que os funcionários do Partido começaram a matar camponeses...), a comunicação do pai do comunismo simplesmente não tem qualquer sentido. (A não ser, claro, que 1º se renegue o ateísmo, e 2º se institua Lenine, já agora também Estaline e Mao, como os profetas de um Deus que lhes facultou o Seu olhar absoluto!).
Pela minha parte ainda não fui tocado por este espírito santo. Resta-me portanto, humildemente, a interpretação semiótica da comunicação, aproveitando a análise processual apenas nos quadros da anterior abordagem.
E é por isto que no meu perfil indiquei a Bíblia como um dos meus livros favoritos - não que eu seja religioso, mas desde logo porque será o maior manual de bons costumes que a história regista.
Num 2º passo, já derivado, porque foi da sua leitura e ensino que decorreu a prática da igualdade entre os seres humanos (por relação a um Criador comum), e do trabalho e tempo progressivo (da queda à ressurreição) que têm mobilizado tantos avanços no desenvolvimento humano. É certo que os manuais de maus costumes que são os textos daqueles comunistas se inspiraram nesse sentido da comunicação bíblica para desencadearem o Gulag. Mas afastaram-se dessa comunicação, mormente do Novo Testamento, que proclama a liberdade de consciência de cada pessoa (como S. Paulo na estrada para Damasco), assumindo antes o determinismo historicista de Marx. A antropologia comunista contrapõe-se pois radicalmente à bíblica, de modo que a mancha do holocausto comunista não toca a Bíblia - outros comportamentos a mancham (cruzadas, Inquisição...), mas não o daquele morticínio.
O qual, sendo equiparável ao nazi, semioticamente coloca o sentido da comunicação comunista ao nível do Mein Kampf. Comunicações que aliás se revelam disparatadas num 1º passo prévio ainda à assunção de quaisquer valores em detrimento de outros (portanto prévio à discussão): o facto é que a comunicação nazi assumiu-se como lançando um Reich que duraria 1000 anos... durou 12, tal como a comunista se assumiu como um catalisador (o partido que Lenine acrescentou à teoria de Marx) de uma história irreversível... que reverteu em 1989/91. Ou seja, uma e outra geraram comportamentos que as inviabilizaram. Ao contrário da comunicação bíblica, que, uma vez potenciada pela comunicação filosófica grega, levou a pequena população desta península asiática que é a Europa a um poder nunca antes visto - um poder muitas vezes destrutivo, mas que não só se mantém como os seus comportamentos são cada vez mais copiados. A diferença entre esses manuais tem sido pois da noite para o dia.
Em suma, até que os leitores de Saramago (não digo o próprio escritor porque me parece que os ressentimentos e complexos deste homem lhe não deixam inteligência suficiente) erradiquem, argumentadamente (!), a teoria semiótica da linguagem, e sustentem a sua (deles) elevação ao olhar de Deus que os dispensa de qualquer relativização da comunicação aos comportamentos que se lhe sucedem, resta-nos felicitar o comité do prémio Nobel que destacou a obra deste escritor português pela sua imaginatividade... que de coisas reais ela não versa. É um entretenimento, dedique-se-lhe quem lhe acha graça, pela minha parte, como acho mais graça ao futebol, passo de imediato ao post seguinte:
Pela minha parte ainda não fui tocado por este espírito santo. Resta-me portanto, humildemente, a interpretação semiótica da comunicação, aproveitando a análise processual apenas nos quadros da anterior abordagem.
E é por isto que no meu perfil indiquei a Bíblia como um dos meus livros favoritos - não que eu seja religioso, mas desde logo porque será o maior manual de bons costumes que a história regista.
Num 2º passo, já derivado, porque foi da sua leitura e ensino que decorreu a prática da igualdade entre os seres humanos (por relação a um Criador comum), e do trabalho e tempo progressivo (da queda à ressurreição) que têm mobilizado tantos avanços no desenvolvimento humano. É certo que os manuais de maus costumes que são os textos daqueles comunistas se inspiraram nesse sentido da comunicação bíblica para desencadearem o Gulag. Mas afastaram-se dessa comunicação, mormente do Novo Testamento, que proclama a liberdade de consciência de cada pessoa (como S. Paulo na estrada para Damasco), assumindo antes o determinismo historicista de Marx. A antropologia comunista contrapõe-se pois radicalmente à bíblica, de modo que a mancha do holocausto comunista não toca a Bíblia - outros comportamentos a mancham (cruzadas, Inquisição...), mas não o daquele morticínio.
O qual, sendo equiparável ao nazi, semioticamente coloca o sentido da comunicação comunista ao nível do Mein Kampf. Comunicações que aliás se revelam disparatadas num 1º passo prévio ainda à assunção de quaisquer valores em detrimento de outros (portanto prévio à discussão): o facto é que a comunicação nazi assumiu-se como lançando um Reich que duraria 1000 anos... durou 12, tal como a comunista se assumiu como um catalisador (o partido que Lenine acrescentou à teoria de Marx) de uma história irreversível... que reverteu em 1989/91. Ou seja, uma e outra geraram comportamentos que as inviabilizaram. Ao contrário da comunicação bíblica, que, uma vez potenciada pela comunicação filosófica grega, levou a pequena população desta península asiática que é a Europa a um poder nunca antes visto - um poder muitas vezes destrutivo, mas que não só se mantém como os seus comportamentos são cada vez mais copiados. A diferença entre esses manuais tem sido pois da noite para o dia.
Em suma, até que os leitores de Saramago (não digo o próprio escritor porque me parece que os ressentimentos e complexos deste homem lhe não deixam inteligência suficiente) erradiquem, argumentadamente (!), a teoria semiótica da linguagem, e sustentem a sua (deles) elevação ao olhar de Deus que os dispensa de qualquer relativização da comunicação aos comportamentos que se lhe sucedem, resta-nos felicitar o comité do prémio Nobel que destacou a obra deste escritor português pela sua imaginatividade... que de coisas reais ela não versa. É um entretenimento, dedique-se-lhe quem lhe acha graça, pela minha parte, como acho mais graça ao futebol, passo de imediato ao post seguinte:
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Consumo, e cultura
O filósofo e sociólogo Gilles Lipovetsky veio agora a Aveiro participar do colóquio "Consumo - que futuro?", onde voltou a apresentar a sua tese sobre a Era do hiperconsumo - como caracteriza o actual momento civilizacional, e cuja síntese remeto para Alexandra Silva em http://ppresente.wordpress.com/textos/a-sociedade-do-hiperconsumo/. Em geral, enfim, considera que desde as décadas de 1980/90 "felicidade" foi reduzida a "soma de prazeres" (cf. Crise económico-financeira, transhumanismo... e a ...), e que o critério se tornou em absoluto o consumo, que se quer sempre mais e diferente, ao ponto de até os pobres de hoje se constituírem como consumidores, ainda que apenas potenciais! 2 Observações:
A) Em plena globalização também cultural, o projecto de vida aí denunciado é a razão da minha cautela (para não dizer pessimismo...) esta semana em Para a conferência de Copenhaga... ou há 20 anos em "Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1.... Pois, ainda para mais em democracias, não será possível implementar políticas sociais e económicas que não satisfaçam o homo consumericus de que fala Lipovetsky. E a absolutização - que já não apenas prioridade - do valor do consumo anula na prática qualquer limitação da oferta, e portanto da produção que recorre à delapidação de quaisquer recursos naturais como a água potável, o ar não poluído, etc. A actual civilização global, que assumiu o valor do consumo a que o Ocidente chegou depois de na Modernidade ter valorizado o fazer, assemelha-se pois a um gigantesco Titanic... cuja única esperança é que todos os cientistas que há décadas apontam o iceberg do equilíbrio ecológico global estejam enganados. Esperança que o homo consumericus herdou e desenvolveu do seu pai homo faber, pois se para o fazer o saber já pouco importava, então para o consumir, e num consumo em função do prazer imediato, isso (o saber) já nem se compreenderá o que seja!
1ª Consequência resolutiva: se o problema é cultural, não é dos políticos (tanto menos quanto mais dependerem das respectivas populações) que se poderá esperar uma solução consistente. Apenas os agentes culturais a poderão lançar... para depois se enredarem na questão retórica que aqui apontei em Da influência cultural e da retórica... mas também...!
B) Para a terapia cultural atrás apelada, valerá a pena voltar a pensadores das primeiras décadas do séc. XX como Martin Heidegger, Ortega y Gasset, etc., que nessa altura denunciaram o lançamento deste homo consumericus - Veja-se o modo inautêntico de existir, segundo aquele filósofo alemão, e a característica que este logo lhe reconheceu de sede da novidade pela novidade - qualquer coisa como o primo de Harry Potter perante não a qualidade dos presentes, nem sequer a sua quantidade, mas tão só a progressão numérica desta quantidade em relação à do ano anterior (!). Há muito, pois, que as elites culturais vinham percebendo e alertando para o que hoje vivemos... ou seja, para as suas consequências amanhã ("amanhã" não significa para os nossos trisnetos, significa nesta próxima década, mais ainda na seguinte...). Nem por isso no entanto a civilização ocidental, e depois o mundo, deixou de evoluir nesta direcção. Uma pois de 2, senão ambas: ou, tendo essas elites acertado no movimento em curso, não lhe perceberam a raiz, pelo que não atacaram a cabeça da serpente mas tão só uma outra parcela do seu corpo; ou até se aperceberam do que estaria causando esse movimento em curso, mas faltou-lhes a capacidade retórica de se fazerem ouvir - lembremos-nos aliás da "rebelião das massas" de que se queixou Ortega... Num nosso regresso ao estudo dessas obras de há quase 1 séc., julgo que devemos atender a estas 2 pistas.
A) Em plena globalização também cultural, o projecto de vida aí denunciado é a razão da minha cautela (para não dizer pessimismo...) esta semana em Para a conferência de Copenhaga... ou há 20 anos em "Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1.... Pois, ainda para mais em democracias, não será possível implementar políticas sociais e económicas que não satisfaçam o homo consumericus de que fala Lipovetsky. E a absolutização - que já não apenas prioridade - do valor do consumo anula na prática qualquer limitação da oferta, e portanto da produção que recorre à delapidação de quaisquer recursos naturais como a água potável, o ar não poluído, etc. A actual civilização global, que assumiu o valor do consumo a que o Ocidente chegou depois de na Modernidade ter valorizado o fazer, assemelha-se pois a um gigantesco Titanic... cuja única esperança é que todos os cientistas que há décadas apontam o iceberg do equilíbrio ecológico global estejam enganados. Esperança que o homo consumericus herdou e desenvolveu do seu pai homo faber, pois se para o fazer o saber já pouco importava, então para o consumir, e num consumo em função do prazer imediato, isso (o saber) já nem se compreenderá o que seja!
1ª Consequência resolutiva: se o problema é cultural, não é dos políticos (tanto menos quanto mais dependerem das respectivas populações) que se poderá esperar uma solução consistente. Apenas os agentes culturais a poderão lançar... para depois se enredarem na questão retórica que aqui apontei em Da influência cultural e da retórica... mas também...!
B) Para a terapia cultural atrás apelada, valerá a pena voltar a pensadores das primeiras décadas do séc. XX como Martin Heidegger, Ortega y Gasset, etc., que nessa altura denunciaram o lançamento deste homo consumericus - Veja-se o modo inautêntico de existir, segundo aquele filósofo alemão, e a característica que este logo lhe reconheceu de sede da novidade pela novidade - qualquer coisa como o primo de Harry Potter perante não a qualidade dos presentes, nem sequer a sua quantidade, mas tão só a progressão numérica desta quantidade em relação à do ano anterior (!). Há muito, pois, que as elites culturais vinham percebendo e alertando para o que hoje vivemos... ou seja, para as suas consequências amanhã ("amanhã" não significa para os nossos trisnetos, significa nesta próxima década, mais ainda na seguinte...). Nem por isso no entanto a civilização ocidental, e depois o mundo, deixou de evoluir nesta direcção. Uma pois de 2, senão ambas: ou, tendo essas elites acertado no movimento em curso, não lhe perceberam a raiz, pelo que não atacaram a cabeça da serpente mas tão só uma outra parcela do seu corpo; ou até se aperceberam do que estaria causando esse movimento em curso, mas faltou-lhes a capacidade retórica de se fazerem ouvir - lembremos-nos aliás da "rebelião das massas" de que se queixou Ortega... Num nosso regresso ao estudo dessas obras de há quase 1 séc., julgo que devemos atender a estas 2 pistas.
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quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Da influência cultural e da retórica... mas também da racionalidade
Recebi ontem o Nº 209 da Sciences Humaines, com o Dossier sobre retórica - não a arte de manipular, menos ainda a verborreia (=diarreia do verbo!), mas a arte de convencer. Neste sentido, a retórica é um tema imprescindível numa reflexão - como aquela em que este blogue se insere - sobre a recuperação duma civilização em crise, ou pelo menos o aproveitamento pessoal do melhor da tradição dessa civilização. Mais precisamente, no âmbito da questão da influência das minorias sobre as maiorias - pois tem sido sempre das 1ªs, e do êxito da sua influência, que têm dependido as resoluções de crises civilizacionais. Na nota 4 de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências escrevi assim que "uma resposta aos ditos problemas terá hoje então que ser dupla: de um lado, é necessário um ressurgimento das elites – entenda-se: daqueles que contribuem para a resolução consistente de problemas reais. De outro lado, será necessário que estas pessoas (...) logrem atingir o público suficiente para a constituição da massa crítica que implemente as soluções assim propostas… Tivessem os deuses castigado Hércules nos dias que correm, e contentar-se-iam que ele cumprisse apenas este trabalho!".
A propósito duma notável jornalista, política... açoriana da 1ª metade do séc. XX, anotei em http://www.webartigos.com/articles/20696/1/nota-a-influencia-das-minorias-sobre-as-maiorias---o-caso-alice-moderno/pagina1.html os factores gerais que hoje mais se reconhecem àquela influência. Em particular sobre a retórica, acrescento uma nota que temo ser frequentemente esquecida pelos opinion maker, pelos políticos... actuais:
Depois de Aristóteles ter tratado essa disciplina sistematicamente pela 1ª vez, e depois de todos os tratos de polé que foi recebendo (às vezes justamente...), ela foi recuperada no séc. passado por Chaïm Perelman - a leitura do seu Traité de l'Argumentation - La Nouvelle Rhétorique vale mesmo muito a pena. Desde então a teoria reconhece 3 dimensões à capacidade de convencer: o ethos do emissor, isto é, a credibilidade moral de quem propõe algo; o pathos dos receptores, isto é, as emoções com que os receptores seleccionam e interpretam as mensagens propostas; e o logos da proposta, isto é, a sua validade lógico-empírica.
A prática contemporânea porventura parece dar todavia razão a Platão - que desprezava e condenava a retórica por esta se reduzir efectivamente à dimensão do pathos, no seio da qual só por sorte (e sem querer!) se chegará a algo que se possa chamar "verdade". Daí à definição actual por Michel Meyer dessa disciplina como a arte de aproximar os interlocutores, de lhes dissolver as distâncias, vai um passo - veja-se a análise da comunicação por Barack Obama nas pp. 40, 41 no referido Dossier (no seguimento aliás do que aludi em O nó do problema ocidental: Sinais do Império)... Penso no entanto que há uma limitação irredutível nesta orientação de Meyer, ou do platonismo, que nos impõe a velha definição aristotélica:
Para que possa ter havido qualquer eventual aproximação dos diferentes, e para que possam vir a haver outras, é preciso que os interlocutores tenham disponibilidade de tempo, política... é preciso que exista o local físico, os meios técnicos... para a comunicação, etc. Tudo isso se diminui, eventualmente até ao grau zero como nos colapsos civilizacionais, se aquilo que os receptores estiverem emocionalmente dispostos a ouvir - e portanto os discursos que os aproximarem dos emissores - for contraditório com esses factores, com essas condições de possibilidade da comunicação. O caso da oposição entre Alcibíades e Tucídides sobre a estratégia na Guerra do Peloponeso, que mencionei no artigo cujo link se encontra naquele anterior post, é um exemplo clássico desta asneira. A retórica, portanto, queira-se ou não, tem uma dimensão racional - aquela na qual um valor negativo do discurso significa que este está a violar as suas próprias condições de sustentabilidade.
Importa pois avaliar sempre os discursos também nesta dimensão. Importa pois denunciar todos aqueles que porventura mereçam um elevadíssimo valor nas dimensões do pathos, como o de Alcibíades, e até do ethos, mas um valor negativo na do logos, onde Tucídides se ancorou. Mais do que insuficientes, eles são traiçoeiros (mesmo que não seja esta a intenção do emissor).
A propósito duma notável jornalista, política... açoriana da 1ª metade do séc. XX, anotei em http://www.webartigos.com/articles/20696/1/nota-a-influencia-das-minorias-sobre-as-maiorias---o-caso-alice-moderno/pagina1.html os factores gerais que hoje mais se reconhecem àquela influência. Em particular sobre a retórica, acrescento uma nota que temo ser frequentemente esquecida pelos opinion maker, pelos políticos... actuais:
Depois de Aristóteles ter tratado essa disciplina sistematicamente pela 1ª vez, e depois de todos os tratos de polé que foi recebendo (às vezes justamente...), ela foi recuperada no séc. passado por Chaïm Perelman - a leitura do seu Traité de l'Argumentation - La Nouvelle Rhétorique vale mesmo muito a pena. Desde então a teoria reconhece 3 dimensões à capacidade de convencer: o ethos do emissor, isto é, a credibilidade moral de quem propõe algo; o pathos dos receptores, isto é, as emoções com que os receptores seleccionam e interpretam as mensagens propostas; e o logos da proposta, isto é, a sua validade lógico-empírica.
A prática contemporânea porventura parece dar todavia razão a Platão - que desprezava e condenava a retórica por esta se reduzir efectivamente à dimensão do pathos, no seio da qual só por sorte (e sem querer!) se chegará a algo que se possa chamar "verdade". Daí à definição actual por Michel Meyer dessa disciplina como a arte de aproximar os interlocutores, de lhes dissolver as distâncias, vai um passo - veja-se a análise da comunicação por Barack Obama nas pp. 40, 41 no referido Dossier (no seguimento aliás do que aludi em O nó do problema ocidental: Sinais do Império)... Penso no entanto que há uma limitação irredutível nesta orientação de Meyer, ou do platonismo, que nos impõe a velha definição aristotélica:
Para que possa ter havido qualquer eventual aproximação dos diferentes, e para que possam vir a haver outras, é preciso que os interlocutores tenham disponibilidade de tempo, política... é preciso que exista o local físico, os meios técnicos... para a comunicação, etc. Tudo isso se diminui, eventualmente até ao grau zero como nos colapsos civilizacionais, se aquilo que os receptores estiverem emocionalmente dispostos a ouvir - e portanto os discursos que os aproximarem dos emissores - for contraditório com esses factores, com essas condições de possibilidade da comunicação. O caso da oposição entre Alcibíades e Tucídides sobre a estratégia na Guerra do Peloponeso, que mencionei no artigo cujo link se encontra naquele anterior post, é um exemplo clássico desta asneira. A retórica, portanto, queira-se ou não, tem uma dimensão racional - aquela na qual um valor negativo do discurso significa que este está a violar as suas próprias condições de sustentabilidade.
Importa pois avaliar sempre os discursos também nesta dimensão. Importa pois denunciar todos aqueles que porventura mereçam um elevadíssimo valor nas dimensões do pathos, como o de Alcibíades, e até do ethos, mas um valor negativo na do logos, onde Tucídides se ancorou. Mais do que insuficientes, eles são traiçoeiros (mesmo que não seja esta a intenção do emissor).
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Por um sentido da existência
Da entrevista a Charles Taylor referida no post anterior retiro ainda esta passagem:
"‘What makes things important in the end’ can’t simply turn on fulfilling or satisfying the self. That puts you in a kind of regress: ‘Okay! But what is it that is going to give me self-fulfilment?’ You have in the end to point to some purpose in something beyond you, such as in the way things are, or the way the universe is, or the way human beings are, or the direction of human history. The things that people find deep, deep self-fulfilment in all have that feature. One person says “I want to work with Médecins Sans Frontieres in the Congo” and another person says “I want to write the Great Canadian novel.” It should be obvious that all these forms of very deep satisfaction refer to something that reaches beyond you."
Ou seja, estará certo vir para aqui escrever que os americanos nunca foram à Lua (foi tudo truques de Hollywood) porque para mim isso é que é verdade, mas estará igualmente certo que no blogue ao lado a autora reflicta sobre "um pequeno passo para o homem..." porque para ela este foi verdadeiro... A pedra no sapato é que então, tanto eu como ela, temos que ter respondido antes à pergunta "O que é que me há-de satisfazer?"; responderíamos: o que for verdade; mas como é que o reconhecemos?... - e a pescadinha morde o rabo.
Para evitar estes círculos viciosos não escapamos pois à pergunta pelo que é o universo, à pergunta pelo que são os seres humanos... Se desistimos de lhes responder (em geral, não apenas para mim e para ti!) - é aquela auto-realização pessoal que acabará por ficar comprometida.
"‘What makes things important in the end’ can’t simply turn on fulfilling or satisfying the self. That puts you in a kind of regress: ‘Okay! But what is it that is going to give me self-fulfilment?’ You have in the end to point to some purpose in something beyond you, such as in the way things are, or the way the universe is, or the way human beings are, or the direction of human history. The things that people find deep, deep self-fulfilment in all have that feature. One person says “I want to work with Médecins Sans Frontieres in the Congo” and another person says “I want to write the Great Canadian novel.” It should be obvious that all these forms of very deep satisfaction refer to something that reaches beyond you."
Ou seja, estará certo vir para aqui escrever que os americanos nunca foram à Lua (foi tudo truques de Hollywood) porque para mim isso é que é verdade, mas estará igualmente certo que no blogue ao lado a autora reflicta sobre "um pequeno passo para o homem..." porque para ela este foi verdadeiro... A pedra no sapato é que então, tanto eu como ela, temos que ter respondido antes à pergunta "O que é que me há-de satisfazer?"; responderíamos: o que for verdade; mas como é que o reconhecemos?... - e a pescadinha morde o rabo.
Para evitar estes círculos viciosos não escapamos pois à pergunta pelo que é o universo, à pergunta pelo que são os seres humanos... Se desistimos de lhes responder (em geral, não apenas para mim e para ti!) - é aquela auto-realização pessoal que acabará por ficar comprometida.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Crise económico-financeira, transhumanismo... e a diferença entre "felicidade" e "prazeres"
No último ou penúltimo almoço com a Maria João Cavaco e o João Paulo Constância (prazeres (se não mais que isso) que só pecam pela irregularidade!) falámos da diferença, hoje tendencialmente ignorada, entre felicidade e prazer. O segundo termo designa alguma satisfação imediata e pontual. Já o anterior pode ser usado apenas para uma sucessão de prazeres. Mas assim falta um termo para designar antes a emoção própria a uma vida com sentido, que por isso valha a pena estar sendo desenvolvida a despeito dos diversos custos - desprazeres! - que também a constituem; "felicidade" era usado para designar esta outra emoção. Vem esta recordação a propósito de 2 recensões que li há dias:
Uma, de Crise et Rénovation de la Finance (Paris: Odile Jacob, 2009) do conhecido economista Michel Aglietta juntamente com Sandra Rigot; a outra, de Demain les Posthumains (Paris: Hachette, 2009) de Jean-Michel Besnier. A 1ª obra aponta como núcleo da renovação da finança contemporânea a substituição de uma lógica de investimento de curto prazo (na expectativa dos maiores dividendos por menor que seja a sustentabilidade económica, e sem atenção a consequências sociais e ecológicas, etc.) por uma lógica de longo prazo, no respeito pela sustentabilidade. Na 2ª obra, por sua vez, quaisquer projectos de fusão homem-máquina, de ligação do cérebro à internet, de digitalização das recordações de cada pessoa de modo que a memória destas (não sobre estas) perdure para além da morte física,... na medida em que dissolvam a responsabilidade pessoal e intransmissível são acusadas de constituirem uma "fatigue d'être soi". Nomeadamente, representarão o fim do ideal de cultura, a saber, o da auto-ultrapassagem do homem... de modo que nos resta procurar obter tantos e tão intensos prazeres quantos possível. Uma procura que, sem alvo orientador a cumprir, se quedará pelos investimentos (financeiros entre outros) de curto prazo.
Se do demain de J.-M. Besnier nos falta a técnica (para tais ligações à internet, etc.), os resultados económico-financeiros desde 2008 para cá parecem implicar uma redução de "felicidade" a "soma de prazeres" (por parte dos responsáveis por tais resultados, a começar por quem os fez, mas continuando com quem lhos permitiu, mais todos quantos têm votado nestes políticos em detrimento dos logo rotulados velhos do restelo...), redução que, representando a dissolução de qualquer meta humana a cumprir, indiciará uma já nossa posthumanité.
Deixo este post mais como conjunto de sugestões do que já como discurso articulado. Mas pode encontrar um destes últimos, nesta área temática, já aqui ao lado no blog de M. Berman, nomeadamente no post:
http://morrisberman.blogspot.com/2009/04/how-chic-was-my-progress.html#links
Uma, de Crise et Rénovation de la Finance (Paris: Odile Jacob, 2009) do conhecido economista Michel Aglietta juntamente com Sandra Rigot; a outra, de Demain les Posthumains (Paris: Hachette, 2009) de Jean-Michel Besnier. A 1ª obra aponta como núcleo da renovação da finança contemporânea a substituição de uma lógica de investimento de curto prazo (na expectativa dos maiores dividendos por menor que seja a sustentabilidade económica, e sem atenção a consequências sociais e ecológicas, etc.) por uma lógica de longo prazo, no respeito pela sustentabilidade. Na 2ª obra, por sua vez, quaisquer projectos de fusão homem-máquina, de ligação do cérebro à internet, de digitalização das recordações de cada pessoa de modo que a memória destas (não sobre estas) perdure para além da morte física,... na medida em que dissolvam a responsabilidade pessoal e intransmissível são acusadas de constituirem uma "fatigue d'être soi". Nomeadamente, representarão o fim do ideal de cultura, a saber, o da auto-ultrapassagem do homem... de modo que nos resta procurar obter tantos e tão intensos prazeres quantos possível. Uma procura que, sem alvo orientador a cumprir, se quedará pelos investimentos (financeiros entre outros) de curto prazo.
Se do demain de J.-M. Besnier nos falta a técnica (para tais ligações à internet, etc.), os resultados económico-financeiros desde 2008 para cá parecem implicar uma redução de "felicidade" a "soma de prazeres" (por parte dos responsáveis por tais resultados, a começar por quem os fez, mas continuando com quem lhos permitiu, mais todos quantos têm votado nestes políticos em detrimento dos logo rotulados velhos do restelo...), redução que, representando a dissolução de qualquer meta humana a cumprir, indiciará uma já nossa posthumanité.
Deixo este post mais como conjunto de sugestões do que já como discurso articulado. Mas pode encontrar um destes últimos, nesta área temática, já aqui ao lado no blog de M. Berman, nomeadamente no post:
http://morrisberman.blogspot.com/2009/04/how-chic-was-my-progress.html#links
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segunda-feira, 20 de julho de 2009
Não todos, mas vários caminhos levam a Roma
Dani Rodrik, em One Economics, Many Recipes. Globalization, Institutions, and Economic Growth (Princeton: Princeton University Press, 2007), reconheceu a possibilidade de diversas instituições político-económicas implementarem os "princípios económicos de primeira ordem": protecção de alguma forma de propriedade, respeito pelos contratos, concorrência pelo mercado, moeda estável, dívida suportável. O "consenso de Washington" foi assim um postulado liberal clássico, que de tão repetido se tornou dogma. Mas que estala perante o contra-caso dos resultados económicos da China, Índia... - que pouco desregulamentarizaram, etc. - face à instabilidade latino-americana - países que o cumpriram. E o autor conclui com a importância do contexto, onde se inclui a tradição cultural, na escolha das instituições que deverão implementar aqueles princípios.
Em O Nó do Problema Ocidental contrapus a ortodoxia clássica que defende o equilíbrio (entre procura e oferta) endógeno (a "mão invisível") dos mercados e algumas heterodoxias (ex. a marxista) que procuram estruturas gerais para uma intervenção política que os equilibre exogenamente (4.1.1), de um lado, a uma teoria como a institucionalista que sustentará antes uma evolução de mercados e estruturas teórico-práticas que nunca serão assim gerais (4.1.2), do outro lado. Rodrik virá pois pesar neste segundo prato da balança teórica.
Uma coisa porém é apontar contra-casos a uma teoria, outra coisa é formular uma alternativa funcional. E como escrevi no fim desse último parágrafo citando Jacques Sapir, para qualquer teoria construtivista, ou que de algum modo formule uma evolução sem estrutura subjacente fixa, "o tempo é a questão". Uma questão que permanece árdua desde Aristóteles e S. Agostinho.
Em O Nó do Problema Ocidental contrapus a ortodoxia clássica que defende o equilíbrio (entre procura e oferta) endógeno (a "mão invisível") dos mercados e algumas heterodoxias (ex. a marxista) que procuram estruturas gerais para uma intervenção política que os equilibre exogenamente (4.1.1), de um lado, a uma teoria como a institucionalista que sustentará antes uma evolução de mercados e estruturas teórico-práticas que nunca serão assim gerais (4.1.2), do outro lado. Rodrik virá pois pesar neste segundo prato da balança teórica.
Uma coisa porém é apontar contra-casos a uma teoria, outra coisa é formular uma alternativa funcional. E como escrevi no fim desse último parágrafo citando Jacques Sapir, para qualquer teoria construtivista, ou que de algum modo formule uma evolução sem estrutura subjacente fixa, "o tempo é a questão". Uma questão que permanece árdua desde Aristóteles e S. Agostinho.
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