séc. XV - 1ª globalização: expansão marítima europeia (Portugal e Espanha); triângulo comercial Europa (artefactos), África (escravos), Américas (matérias primas); emersão dos Estados europeus e secundarização das instituições supranacionais (Sacro-Império e Igreja). O mundo torna-se 1 só... sob a regra europeia.
1850 - 2ª globalização: Revolução Industrial europeia; alianças cruzadas entre os Estados europeus, que partilham a África, Índia, Sudeste Asiático, e forçam a abertura dos mercados japonês e chinês (Tratado de Nanquim, 1842).
1950 - 3ª globalização: o mundo é ordenado segundo dois blocos ocidentais (democracias capitalistas vs. regimes comunistas), num jogo enquadrado por organizações supranacionais (como a CEE e a EFTA na Europa, ou o FMI para auxiliar Estados em crises financeiras); III Revolução Industrial (robotização, informatização, telecomunicações) e supremacia de grandes empresas internacionais, durante a descolonização pelos europeus. O mundo mantém-se 1 só... na tensão entre 2 regras ocidentais.
1989/91 - prolongamento do jogo: colapso do bloco comunista, mantém-se a ordenação mundial segundo a regra do bloco sobrevivente (emersão dos "tigres do Pacífico", China adere ao GATT...).
Novembro de 2010 - 4ª globalização? Perante a crise económico-financeira dos EUA e maioria dos países europeus, o novo maior exportador mundial, e também o Estado com as maiores reservas financeiras do mundo, a China, depois de crescentemente substituir os Estados europeus em África, intervém na Europa comprando dívida pública dos Estados europeus em maiores dificuldades e investindo nas suas economias (ex. compra de parte do BCP). 2 novidades: a) insuficiência das organizações supranacionais de matriz ocidental na resposta à crise, a China intervém directamente sem cuidar de ascender segundo as anteriores regras do jogo mundial; b) a salvação é extra-europeia, extra-ocidental. E "quem dá o pão, dá o pau".
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domingo, 7 de novembro de 2010
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Globalização e: economia ou teologia?...
Max Stackhouse escreveu que "the kind of faith one has makes a great deal of difference in social, cultural, political and economic life — indeed, to the basic contours of civilization" (v. http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=8381 - na 1ª de 5 partes dum ensaio que deverá continuar a ser publicado nesse sítio. Deixo-o aqui assinalado precisamente numa sugestão de prosseguimento de leitura.
Mas entretanto com esta nota: propõe o autor que a actual conjuntura civilizacional, a globalização do mundo, não seja pensada estritamente em parâmetros económicos - os factores gerais das nossas escolhas (recursos, proveitos...) - mas antes a partir do estabelecimento dos valores em função dos quais se ponderam proveitos, dispêndio de recursos... E a religião estará no centro desse estabelecimento. A ideia é antiga. Mas contrapõe-se-lhe a tese mais recente da ética evolucionista - cf. ex. Altruísmo e evolucionismo (2) - que, na base dum darwinismo que por sua vez se inspirou no economicismo de Adam Smith e de Malthus (demografia), proporá que as religiões é que se constituem como investimentos seleccionados ao longo da evolução da nossa espécie, por se revelarem proveitosos para a sobrevivência humana (visto estimularem a entreajuda, animarem-nos face à morte, etc.).
Ficam pois as questões, respectivamente de 1ª e de 2ª ordem: 1ª) É a economia que deve ser pensada na base da religião, para então se interpretar e intervir no actual mundo globalizado, ou, ao contrário, a religião é que deve ser pensada economicistamente, e depois o mundo pensado em conformidade? 2ª) Qual será o critério para decidir a anterior contenda teórica?
Ficam pois as questões, respectivamente de 1ª e de 2ª ordem: 1ª) É a economia que deve ser pensada na base da religião, para então se interpretar e intervir no actual mundo globalizado, ou, ao contrário, a religião é que deve ser pensada economicistamente, e depois o mundo pensado em conformidade? 2ª) Qual será o critério para decidir a anterior contenda teórica?
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segunda-feira, 29 de março de 2010
Sobre o trabalho, quando o capital volta à velha normalidade
"71. (...) É necessário que aos trabalhadores se dê um salário que lhes proporcione um nível de vida verdadeiramente humano e lhes permita enfrentar com dignidade as responsabilidades familiares. (...)
91. (...) é legítima nos trabalhadores a aspiração a participarem activamente na vida das empresas, em que estão inscritos e trabalham. (...)
92. (...) O que supõe, também, poderem os trabalhadores fazer ouvir a sua voz e contribuir para o bom funcionamento e o progresso da empresa. (...)"
Estas não são frases de algum barbudo revolucionário vestido de caqui e com pistola à cinta... mas sim do Papa João XXIII, na Carta Encíclica Mater et Magistra, de 15 de Maio de 1961 (sobre a posição económica e política dos trabalhadores, v. Parágs. 68-103). Lembrei-me de passagens como essas ao ouvir ontem à noite a notícia da venda da Volvo, pela Ford, à chinesa Geely, dado o simbolismo, ou exemplaridade de que a Volvo se revestiu (creio que) nos anos 1970 em relação à organização técnica do trabalho. A saber, contra o taylorismo, em que cada trabalhador repete indefenidamente uma mesma tarefa que lhe é atribuída (cf. Charles Chaplin, Os Tempos Modernos!...), aquela construtura escandinava - da terra da social-democracia, onde surgiu depois a flexigurança... - terá ensaiado uma organização em que cada automóvel seria montado, ao longo das etapas do processo, por uma mesma equipa. Os custos da formação dos membros desta seriam compensados (esperava-se) pelo cuidado nos pormenores por se aperceberem da função de cada peça, e porventura também pelo empenho que adviria duma maior satisfação (por muito menor alienação) no trabalho. Lembrei-me disto por me ocorrer a ideia de ter lido algures que o Papa Paulo VI, numa deslocação à América latina (em 1968 na Conferência de Bispos em Medellin?) terá mesmo apontado a Volvo como exemplo de uma das formas de dignificação do trabalho - mas não tentei confirmar esta recordação.
Agora, neste início do séc. XXI, quando o capital mundial volta a acumular-se onde, segundo os historiadores da economia, sempre se acumulara até ao início da Revolução Industrial - na China... - e que se sobrevaloriza até em relação ao trabalho contra a relação que mantiveram nesse historicamente estranho e anormal séc. XX (cf. Da empregabilidade e dos salários na globalização), o que vai ser da organização técnica do trabalho?
Quem dá o pão, dá o pau - Preocupar-se-ão os capitalistas chineses com o que o Papa chamou "nível de vida verdadeiramente humano" dos trabalhadores na Volvo?... Se, mesmo no Ocidente actual, a responsabilidade social de quem gere o capital já é o que se viu na escolha pelos altos administradores de objectivos apenas de curto prazo (conferindo-se a si próprios prémios extraordinários pelo cumprimento destes), e que levou à crise aberta em 2008, qual será a responsabilidade social que assumirão os novos donos de antigas empresas ocidentais?...
91. (...) é legítima nos trabalhadores a aspiração a participarem activamente na vida das empresas, em que estão inscritos e trabalham. (...)
92. (...) O que supõe, também, poderem os trabalhadores fazer ouvir a sua voz e contribuir para o bom funcionamento e o progresso da empresa. (...)"
Estas não são frases de algum barbudo revolucionário vestido de caqui e com pistola à cinta... mas sim do Papa João XXIII, na Carta Encíclica Mater et Magistra, de 15 de Maio de 1961 (sobre a posição económica e política dos trabalhadores, v. Parágs. 68-103). Lembrei-me de passagens como essas ao ouvir ontem à noite a notícia da venda da Volvo, pela Ford, à chinesa Geely, dado o simbolismo, ou exemplaridade de que a Volvo se revestiu (creio que) nos anos 1970 em relação à organização técnica do trabalho. A saber, contra o taylorismo, em que cada trabalhador repete indefenidamente uma mesma tarefa que lhe é atribuída (cf. Charles Chaplin, Os Tempos Modernos!...), aquela construtura escandinava - da terra da social-democracia, onde surgiu depois a flexigurança... - terá ensaiado uma organização em que cada automóvel seria montado, ao longo das etapas do processo, por uma mesma equipa. Os custos da formação dos membros desta seriam compensados (esperava-se) pelo cuidado nos pormenores por se aperceberem da função de cada peça, e porventura também pelo empenho que adviria duma maior satisfação (por muito menor alienação) no trabalho. Lembrei-me disto por me ocorrer a ideia de ter lido algures que o Papa Paulo VI, numa deslocação à América latina (em 1968 na Conferência de Bispos em Medellin?) terá mesmo apontado a Volvo como exemplo de uma das formas de dignificação do trabalho - mas não tentei confirmar esta recordação.
Agora, neste início do séc. XXI, quando o capital mundial volta a acumular-se onde, segundo os historiadores da economia, sempre se acumulara até ao início da Revolução Industrial - na China... - e que se sobrevaloriza até em relação ao trabalho contra a relação que mantiveram nesse historicamente estranho e anormal séc. XX (cf. Da empregabilidade e dos salários na globalização), o que vai ser da organização técnica do trabalho?
Quem dá o pão, dá o pau - Preocupar-se-ão os capitalistas chineses com o que o Papa chamou "nível de vida verdadeiramente humano" dos trabalhadores na Volvo?... Se, mesmo no Ocidente actual, a responsabilidade social de quem gere o capital já é o que se viu na escolha pelos altos administradores de objectivos apenas de curto prazo (conferindo-se a si próprios prémios extraordinários pelo cumprimento destes), e que levou à crise aberta em 2008, qual será a responsabilidade social que assumirão os novos donos de antigas empresas ocidentais?...
sábado, 27 de março de 2010
Da Europa nos dias que correm
Depois da notícia de ontem que o Conselho da UE decidiu avalizar o déficite grego, mas remetendo em parte a sua resolução para fora da União (o FMI) - ou seja, assumiu a sua falta de consistência interna e a sua menoridade ou relatividade para com instituições internacionais assim mais fiáveis do que ela - abri a página do Finantial Times para uma vista de olhos sobre as opiniões que vão determinando a resposta internacional. Chamou-me a atenção o artigo "Greece triggers an EU identity crisis" (http://www.ft.com/cms/s/0/c9c4a45c-3776-11df-88c6-00144feabdc0.html), que me parece apontar para um vazio que se abrirá sob uma UE que, com o Tratado de Lisboa - cf. http://onodoproblemaocidental24x7.blogspot.com/2009/10/o-que-e-que-ue-pode-fazer-por-mim-ue.html- terá dado um salto maior do que a perna: a) não nos limitámos a uma zona de comércio livre - como que numa EFTAzisação da UE - nem b) permanecemos na tradição da CEE em que quase só se implementavam as decisões unânimes, nem c) assumimos propriamente um Governo europeu (porventura federal) - ou como se diz naquele artigo do FT, "to avoid a succession of rescues, an intra-European bail-out would need to be accompanied by political, fiscal union. But there is no political will to embark down that avenue: rule from Brussels is a fantasy in this union of sovereign states". Preferimos mantermo-nos em equilíbrio sobre a zona, rarefeita senão vazia, entre tais posições consistentes nos respectivos prós e contras.
É capaz de ser a opção mais ambiciosa de entre as possíveis (pelo menos demagogicamente é por certo a mais bela!). Confesso que também me parece a mais perigosa assim que um dia se abra uma crise um pouco mais custosa do que esta das finanças gregas (ex. se neste caso Portugal, Espanha... se lhe juntarem).
Me parece que o melhor para cada um de nós, enquanto naturalmente gozamos as vantagens de pertencermos à UE qual patinador que goza a bela vista de montanhas a partir do lago gelado onde patina, nos acautelemos também, psicológica (expectativas) e financeiramente (poupanças familiares), para a possibilidade do que poderá subitamente acontecer se, sob os patins em que evoluímos, o gelo se tornar demasiado fino.
Post scriptum: a UE é sólida com as suas instituições, moeda única, Tratados...? A URSS também tinha isso tudo.
É capaz de ser a opção mais ambiciosa de entre as possíveis (pelo menos demagogicamente é por certo a mais bela!). Confesso que também me parece a mais perigosa assim que um dia se abra uma crise um pouco mais custosa do que esta das finanças gregas (ex. se neste caso Portugal, Espanha... se lhe juntarem).
Me parece que o melhor para cada um de nós, enquanto naturalmente gozamos as vantagens de pertencermos à UE qual patinador que goza a bela vista de montanhas a partir do lago gelado onde patina, nos acautelemos também, psicológica (expectativas) e financeiramente (poupanças familiares), para a possibilidade do que poderá subitamente acontecer se, sob os patins em que evoluímos, o gelo se tornar demasiado fino.
Post scriptum: a UE é sólida com as suas instituições, moeda única, Tratados...? A URSS também tinha isso tudo.
terça-feira, 16 de março de 2010
Da empregabilidade e dos salários na globalização
"The global economic community, and economic policymakers in governments and global institutions alike, have yet to fully understand the most fundamental economic development in this era of globalization — the doubling of the global labor force."
Com essas palavras abre Richard Freeman o seu artigo em http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=4542. Penso bem que deve ser lido e RELIDO por todos quantos, para os próximos 30 anos (!), de um lado se dispõem a fazer reivindicações salariais, e do outro lado adormecem na linha da participação política em particular quando esta visa relações internacionais.
Como diz o autor, nos últimos 15 anos - com a entrada da China, Índia e países ex-soviéticos no mercado global - a força de trabalho mundial duplicou. Mas sem que o capital (dinheiro + máquinas...) tenha crescido em proporção semelhante. E podemos acrescentar que nem a procura dos produtos pode ter aumentado proporcionalmente, dados os baixos rendimentos desses novos trabalhadores. Freeman diz mesmo que a relação capital/trabalho terá diminuído (contra o trabalho, a favor do capital) 55% a 60%, e que a anterior relação não poderá ser recuperada antes duns 30 anos... Isto é, as expectativas de empregabilidade, e de rendimento do trabalho (salários) com que vivemos até meados da 1ª década do presente século, com que fomos educados e que transmitimos aos actuais jovens, parecem irremediavelmente perdidas para o resto da vida da actual geração de meia idade, e pelo menos para a 1ª metade da vida da actual geração jovem nos países já desenvolvidos na última década do séc. XX.
Mais, Freeman chama ainda a atenção para que, por exemplo na formação de doutorados e engenheiros, a China ultrapassará os EUA ainda este ano. Onde o autor se engana, na minha opinião, é que não é por se ter um diploma superior que se é inovador... Ora, como ele próprio reconhece, pela 1ª vez todas estas economias funcionarão segundo o modelo capitalista. Mas este último, diz-se desde Schumpeter, proporciona o crescimento económico sob 2 condições: a 2ª é a disponibilidade de capital para investir; a 1ª é a da inovação (de produtos, de modos de produzir, de mercados...). E a criatividade que subjaze à inovação creio que depende de 2 atitudes ou faculdades mentais, implementadas por culturas que as valorizem: por um lado o espírito crítico - pois a inovação constitui a face positiva da moeda cuja 1ª face é negativa, a destruição do estado de coisas dado, ou como dizia Schumpeter, trata-se duma "destruição criadora". Por outro lado, o individualismo - pois se o desenvolvimento de projectos é por norma trabalho de equipa, a ideia chave é normalmente lançada por 1 pessoa. E esses são traços culturais estritamente ocidentais, em especial respectivamente desde a Modernidade e a Reforma Protestante. O Ocidente não deverá pois ter ainda perdido esta (se Schumpeter não se enganou: decisiva) vantagem comparativa... desde que consiga resguardar patentes, direitos de autor, etc.
Em suma: o trabalho passou a valer pouquíssimo - ainda para mais com as facilidades de deslocalizações graças aos actuais meios de transporte - o capital passou a valer muito mais - por proporcionalmente haver menos - o que significa que, no mundo desenvolvido, o rendimento pelo trabalho TERÁ que diminuir, enquanto em todo o mundo o rendimento pelo capital (os proveitos da banca, dos donos das fábricas, etc.) TERÁ que aumentar - isto, se a lei da procura e da oferta não for falsa... A desigualdade de rendimentos aumentará assim, de modo que, se não forem falsos os argumentos que mencionei no parágrafo 2.2.3 de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências, consequentemente aumentará a contradição interna na identidade ocidental, e porventura mesmo diminuirão as condições de qualquer crescimento económico (a longo prazo provavelmente mais difícil quando menos agentes têm acesso ao crédito).
Além daquela salvaguarda intransigente de patentes... 2 coisas me parece que haverá assim que fazer no horizonte político ocidental, e portanto em Portugal (!): A) investir a força diplomática, económica... que ainda tenhamos num "new model of globalization and new policies that put upfront the well-being of workers around the world". Assumindo porém que o tempo de vivermos às cavalitas de populações distantes... já lá vai! O nosso único objectivo político realista passou a ser o de mantermos uma autonomia que nos permita implementarmos os valores com que nos identificamos, ou seja, evitar que sejam agora os outros a viver às nossas cavalitas.
B) Em A próxima década portuguesa citei os conceitos de "produtor de coisas" e "produtor de ideias", para distinguir respectivamente os previsíveis loosers e winners da competição globalizada. Segundo o economista citado nesse post, o busílis estará na educação - isto é, não na generalização da frequência escolar e na distribuição de diplomas, mas na eficácia da educação! Mas, nesta ênfase na educação, além de todos os conhecimentos que os chineses, etc., também já têm, além dos valores da perseverança, do trabalho, que esses outros têm... e nós tivemos (!), em particular creio termos ainda que enfatizar a atrás referida identificação cultural dos jovens ocidentais, e as competências (de resolução de problemas, criatividade, iniciativa...) que implementem a inovação.
Esse (o político) é o horizonte imediato, aquele onde se tapam buracos... no referido ensaio argumentei que as causas dos problemas estruturantes se encontram porém num outro horizonte, fundamental. Creio que aí é que se poderão traçar soluções estruturantes (nesse ensaio propus precisamente uma pista nesse sentido).
Com essas palavras abre Richard Freeman o seu artigo em http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=4542. Penso bem que deve ser lido e RELIDO por todos quantos, para os próximos 30 anos (!), de um lado se dispõem a fazer reivindicações salariais, e do outro lado adormecem na linha da participação política em particular quando esta visa relações internacionais.
Como diz o autor, nos últimos 15 anos - com a entrada da China, Índia e países ex-soviéticos no mercado global - a força de trabalho mundial duplicou. Mas sem que o capital (dinheiro + máquinas...) tenha crescido em proporção semelhante. E podemos acrescentar que nem a procura dos produtos pode ter aumentado proporcionalmente, dados os baixos rendimentos desses novos trabalhadores. Freeman diz mesmo que a relação capital/trabalho terá diminuído (contra o trabalho, a favor do capital) 55% a 60%, e que a anterior relação não poderá ser recuperada antes duns 30 anos... Isto é, as expectativas de empregabilidade, e de rendimento do trabalho (salários) com que vivemos até meados da 1ª década do presente século, com que fomos educados e que transmitimos aos actuais jovens, parecem irremediavelmente perdidas para o resto da vida da actual geração de meia idade, e pelo menos para a 1ª metade da vida da actual geração jovem nos países já desenvolvidos na última década do séc. XX.
Mais, Freeman chama ainda a atenção para que, por exemplo na formação de doutorados e engenheiros, a China ultrapassará os EUA ainda este ano. Onde o autor se engana, na minha opinião, é que não é por se ter um diploma superior que se é inovador... Ora, como ele próprio reconhece, pela 1ª vez todas estas economias funcionarão segundo o modelo capitalista. Mas este último, diz-se desde Schumpeter, proporciona o crescimento económico sob 2 condições: a 2ª é a disponibilidade de capital para investir; a 1ª é a da inovação (de produtos, de modos de produzir, de mercados...). E a criatividade que subjaze à inovação creio que depende de 2 atitudes ou faculdades mentais, implementadas por culturas que as valorizem: por um lado o espírito crítico - pois a inovação constitui a face positiva da moeda cuja 1ª face é negativa, a destruição do estado de coisas dado, ou como dizia Schumpeter, trata-se duma "destruição criadora". Por outro lado, o individualismo - pois se o desenvolvimento de projectos é por norma trabalho de equipa, a ideia chave é normalmente lançada por 1 pessoa. E esses são traços culturais estritamente ocidentais, em especial respectivamente desde a Modernidade e a Reforma Protestante. O Ocidente não deverá pois ter ainda perdido esta (se Schumpeter não se enganou: decisiva) vantagem comparativa... desde que consiga resguardar patentes, direitos de autor, etc.
Em suma: o trabalho passou a valer pouquíssimo - ainda para mais com as facilidades de deslocalizações graças aos actuais meios de transporte - o capital passou a valer muito mais - por proporcionalmente haver menos - o que significa que, no mundo desenvolvido, o rendimento pelo trabalho TERÁ que diminuir, enquanto em todo o mundo o rendimento pelo capital (os proveitos da banca, dos donos das fábricas, etc.) TERÁ que aumentar - isto, se a lei da procura e da oferta não for falsa... A desigualdade de rendimentos aumentará assim, de modo que, se não forem falsos os argumentos que mencionei no parágrafo 2.2.3 de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências, consequentemente aumentará a contradição interna na identidade ocidental, e porventura mesmo diminuirão as condições de qualquer crescimento económico (a longo prazo provavelmente mais difícil quando menos agentes têm acesso ao crédito).
Além daquela salvaguarda intransigente de patentes... 2 coisas me parece que haverá assim que fazer no horizonte político ocidental, e portanto em Portugal (!): A) investir a força diplomática, económica... que ainda tenhamos num "new model of globalization and new policies that put upfront the well-being of workers around the world". Assumindo porém que o tempo de vivermos às cavalitas de populações distantes... já lá vai! O nosso único objectivo político realista passou a ser o de mantermos uma autonomia que nos permita implementarmos os valores com que nos identificamos, ou seja, evitar que sejam agora os outros a viver às nossas cavalitas.
B) Em A próxima década portuguesa citei os conceitos de "produtor de coisas" e "produtor de ideias", para distinguir respectivamente os previsíveis loosers e winners da competição globalizada. Segundo o economista citado nesse post, o busílis estará na educação - isto é, não na generalização da frequência escolar e na distribuição de diplomas, mas na eficácia da educação! Mas, nesta ênfase na educação, além de todos os conhecimentos que os chineses, etc., também já têm, além dos valores da perseverança, do trabalho, que esses outros têm... e nós tivemos (!), em particular creio termos ainda que enfatizar a atrás referida identificação cultural dos jovens ocidentais, e as competências (de resolução de problemas, criatividade, iniciativa...) que implementem a inovação.
Esse (o político) é o horizonte imediato, aquele onde se tapam buracos... no referido ensaio argumentei que as causas dos problemas estruturantes se encontram porém num outro horizonte, fundamental. Creio que aí é que se poderão traçar soluções estruturantes (nesse ensaio propus precisamente uma pista nesse sentido).
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segunda-feira, 15 de março de 2010
Divagações arquitectónicas
Há tempos uma amiga arquitecta, a propósito dum meu post sobre arquitectura, desafiou-me a trazer aqui mais vezes essa área - não sou competente para isso (quer dizer, ainda sou menos do que em outros terrenos que por isso me tenho atrevido a pisar...). Mas a verdade é que a arquitectura distingue-se de outras artes desde logo por, ao contrário destas que podem restar ignoradas em livrarias, museus, salas de concerto... aquela é impositivamente pública. Convivemos com ela diariamente, queiramos ou não, consciente ou inconscientemente. É pois sempre coisa nossa, por menos que saibamos dar conta disso.
Sabendo da previsão de chuva para o fim de semana, levei assim comigo The condition of Postmodernity, de David Harvey (Oxford: Blackwell, 1990 - creio que já há trad. port.), para ler aleatoriamente nesses 2 dias num hotel de traço vincadamente modernista. Por sinal, acrescentado por um arquitecto tio daquela minha interlocutora. Mas o projecto original é do Eng. Manuel António de Vasconcelos (1907-1960). Como se vê na foto da entrada, nele se destacam as linhas horizontais, curvas que evitam as arestas (v. esquinas arredondadas, corrimão); a elegância cosmopolita duma escadaria teatral, do conforto discreto de madeiras nobres mas combinadas com metais próprios às tecnologias modernas (ex. grandes dobradiças nas portas das áreas comuns, candeeiros, todo o mobiliário da sala de jantar creio que desenhado também por Vasconcelos...); ainda reforçando esse internacionalismo (cosmopolita), v. elementos marítimos ou navais como o óculo ao fundo na foto com um aquário, ou os corrimões e varandas lembrando os convés de navios - que cruzam os mares internacionais entre as terras particulares! O depuramento do traço - despido de enfeites - deixa de fora quase qualquer particularismo cultural (não dei conta de outro além do telhado regional, diferente dos balcões horizontais modernos). E mesmo a natureza é incorporada nessa vivência harmónica, onde tudo tem um lugar (v. foto da sala de jantar).
A questão colocada ao modernismo, como Harvey (Chap. 1) realça, incide precisamente aí: tudo ter um seu lugar. O ideal iluminista de uma ordem universal, muito bem exemplificado pelas ciências modernas, cuja descoberta e assunção prática conduziria a um progresso de todos, enfrenta a questão da legitimação dessa ordem, e concomitantemente de quem terá a legitimidade de a proclamar e implementar... Autores como Adorno e Horkheimer vieram denunciar que aquele projecto de libertação, afinal, na prática constitui mais uma versão da opressão de uns poucos sobre muitos outros. Mesmo autores como Habermas, que mantêm o projecto moderno, adoptam-no em versões fracas.
Daí o regresso a alguma consideração de tradições históricas particulares, nas colagens pós-modernas. Mas, precisamente, que "tradições" são essas ainda? Lembrando-me do exemplo dum outro hotel em S. Miguel, que num seu jardim interior e no mobiliário evoca o Extremo Oriente, o que é que aí se conserva, e se transmite de geração em geração numa tradição particular? A grande disneylandia da arquitectura pós-moderna - em centros comerciais que põem lado a lado colunas gregas e decorações regionais, etc. - me parece propor também, com o modernismo, a desvinculação de alguma tradição cultural, mas já não pela ultrapassagem destas em ordem a um plano universal, antes pela desmultiplicação, em cada sítio, de inúmeras daquelas tradições - creio que é a mais subtil perversão do projecto romântico...
Entretanto a tese geral de D. Harvey é que as grandes concepções sobre o homem, etc., são mediadas para a sua aplicação nomeadamente económica por determinações espaciais e temporais, onde se destacam as arquitectónicas. Por exemplo o uso moderno da perspectiva, terá sugerido a organização vertical das empresas fordistas na II Revolução Industrial, ao passo que a desmultiplicação de perspectivas e de planos irreconciliáveis (Picassso, David Salle...) terá sugerido depois a organização mais horizontal e segmentada no pós-fordismo.
... Mas 1 fim de semana não me chega para mais do que balbuciar a pergunta (e pressupondo provisoriamente aquela tese): por onde andaremos nós hoje? Sem aqueles movimentos contínuos - horizontais, curvos, sem arestas - sem aquela evidenciação confiante dos novos materiais, mas também sem materiais e formas de uma tradição determinada, o que nos propomos, o que sugerimos, com a determinação que fazemos arquitectonicamente do espaço que habitamos?
Sabendo da previsão de chuva para o fim de semana, levei assim comigo The condition of Postmodernity, de David Harvey (Oxford: Blackwell, 1990 - creio que já há trad. port.), para ler aleatoriamente nesses 2 dias num hotel de traço vincadamente modernista. Por sinal, acrescentado por um arquitecto tio daquela minha interlocutora. Mas o projecto original é do Eng. Manuel António de Vasconcelos (1907-1960). Como se vê na foto da entrada, nele se destacam as linhas horizontais, curvas que evitam as arestas (v. esquinas arredondadas, corrimão); a elegância cosmopolita duma escadaria teatral, do conforto discreto de madeiras nobres mas combinadas com metais próprios às tecnologias modernas (ex. grandes dobradiças nas portas das áreas comuns, candeeiros, todo o mobiliário da sala de jantar creio que desenhado também por Vasconcelos...); ainda reforçando esse internacionalismo (cosmopolita), v. elementos marítimos ou navais como o óculo ao fundo na foto com um aquário, ou os corrimões e varandas lembrando os convés de navios - que cruzam os mares internacionais entre as terras particulares! O depuramento do traço - despido de enfeites - deixa de fora quase qualquer particularismo cultural (não dei conta de outro além do telhado regional, diferente dos balcões horizontais modernos). E mesmo a natureza é incorporada nessa vivência harmónica, onde tudo tem um lugar (v. foto da sala de jantar).
A questão colocada ao modernismo, como Harvey (Chap. 1) realça, incide precisamente aí: tudo ter um seu lugar. O ideal iluminista de uma ordem universal, muito bem exemplificado pelas ciências modernas, cuja descoberta e assunção prática conduziria a um progresso de todos, enfrenta a questão da legitimação dessa ordem, e concomitantemente de quem terá a legitimidade de a proclamar e implementar... Autores como Adorno e Horkheimer vieram denunciar que aquele projecto de libertação, afinal, na prática constitui mais uma versão da opressão de uns poucos sobre muitos outros. Mesmo autores como Habermas, que mantêm o projecto moderno, adoptam-no em versões fracas.
Daí o regresso a alguma consideração de tradições históricas particulares, nas colagens pós-modernas. Mas, precisamente, que "tradições" são essas ainda? Lembrando-me do exemplo dum outro hotel em S. Miguel, que num seu jardim interior e no mobiliário evoca o Extremo Oriente, o que é que aí se conserva, e se transmite de geração em geração numa tradição particular? A grande disneylandia da arquitectura pós-moderna - em centros comerciais que põem lado a lado colunas gregas e decorações regionais, etc. - me parece propor também, com o modernismo, a desvinculação de alguma tradição cultural, mas já não pela ultrapassagem destas em ordem a um plano universal, antes pela desmultiplicação, em cada sítio, de inúmeras daquelas tradições - creio que é a mais subtil perversão do projecto romântico...
Entretanto a tese geral de D. Harvey é que as grandes concepções sobre o homem, etc., são mediadas para a sua aplicação nomeadamente económica por determinações espaciais e temporais, onde se destacam as arquitectónicas. Por exemplo o uso moderno da perspectiva, terá sugerido a organização vertical das empresas fordistas na II Revolução Industrial, ao passo que a desmultiplicação de perspectivas e de planos irreconciliáveis (Picassso, David Salle...) terá sugerido depois a organização mais horizontal e segmentada no pós-fordismo.
... Mas 1 fim de semana não me chega para mais do que balbuciar a pergunta (e pressupondo provisoriamente aquela tese): por onde andaremos nós hoje? Sem aqueles movimentos contínuos - horizontais, curvos, sem arestas - sem aquela evidenciação confiante dos novos materiais, mas também sem materiais e formas de uma tradição determinada, o que nos propomos, o que sugerimos, com a determinação que fazemos arquitectonicamente do espaço que habitamos?
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domingo, 14 de fevereiro de 2010
Televisão: la zone Xtrême
É no mínimo incomodativo ver como é logo o partido político ao qual a democracia portuguesa mais deverá - desde a sua (do PS) fundação por pessoas que assumiram os custos pessoais do enfrentamento directo ao Estado Novo, passando por se firmar como pivot da resistência à deriva autoritária comunista, até aceitar o custo político do saneamento financeiro do país para a adesão à CEE - que hoje se encontra enredado numa teia de indícios de tentativa sistemática de controlo da opinião pública crítica, em especial na televisão. E ao contra-ataque do líder socialista, saltando sobre o conteúdo das notícias para se concentrar na forma da sua obtenção - o tal "jornalismo de buraco de fechadura" com a divulgação de escutas telefónicas - já qualquer romano retorquiria que à mulher de César não basta ser séria... Mais deprimentes do que os erros, Sr. Primeiro-Ministro, são quaisquer justificações suas ulteriores - especialmente se se esfarrapam na ignorância de máximas políticas milenares!
Mas compreende-se que a tentação é grande.
E a prová-lo vem hoje este desenvolvimento daquela que terá sido a mais célebre experiência da história da psicologia social: na década de 1960 Stanley Milgram investigou a percentagem das pessoas que, sob indicação de alguém vestido como cientista ou técnico, se dispunham a penalizar com choques eléctricos de crescente intensidade quem não fosse capaz de aprender alguns dados. A hipótese testada por Michel Eltchaninoff e Christophe Nick em 2009 foi a de que, mais do que a autoridade e legitimação científica, vale hoje a autoridade e legitimação televisiva - se acontece na TV, então é verdade e é bom! Aplicando o protocolo daquela outra experiência, convidaram 80 voluntários a participarem num (fictício) concurso televisivo, cujas regras eram as de penalizar com choques eléctricos os concorrentes que falhassem um questionário; estes voluntários julgavam que quem estaria em jogo seriam esses concorrentes, todavia estes últimos eram representados por um actor que simularia o sofrimento após falhar (intencionalmente) a resposta, bem como participantes activos eram as pessoas do público que gritavam "Cas-ti-go!" para estimular o voluntário na consola de comandos, além da apresentadora que garantia que as eventuais responsabilidades cabiam integralmente aos produtores do programa, e não aos voluntários. O resultado é o que se vê neste videoclip:
Alguns voluntários colocaram-se rapidamente objecções éticas. Outros não tanto. Mas a maioria deles desempenhou as funções que lhes cabiam com naturalidade. Isto é, não mostraram uma ferocidade enfim liberta pela ausência de responsabilidades, apenas (julgaram que) torturaram e mataram uma pessoa na simplicidade de mais um jogo televisivo! E mais: na experiência de Milgram, 60% dos voluntários chegaram a aplicar a descarga que lhes era dito ser mortal. Na experiência televisiva actual, esta parcela foi de 82%...
A realidade hoje só é virtual, e a televisão o seu profeta.
(Por amor de Deus, que nunca ninguém convide José Sócrates - ou qualquer dos socratentos que logo lhe emergiram na peugada - para os comandos duma consola como essa!...)
Mas compreende-se que a tentação é grande.
E a prová-lo vem hoje este desenvolvimento daquela que terá sido a mais célebre experiência da história da psicologia social: na década de 1960 Stanley Milgram investigou a percentagem das pessoas que, sob indicação de alguém vestido como cientista ou técnico, se dispunham a penalizar com choques eléctricos de crescente intensidade quem não fosse capaz de aprender alguns dados. A hipótese testada por Michel Eltchaninoff e Christophe Nick em 2009 foi a de que, mais do que a autoridade e legitimação científica, vale hoje a autoridade e legitimação televisiva - se acontece na TV, então é verdade e é bom! Aplicando o protocolo daquela outra experiência, convidaram 80 voluntários a participarem num (fictício) concurso televisivo, cujas regras eram as de penalizar com choques eléctricos os concorrentes que falhassem um questionário; estes voluntários julgavam que quem estaria em jogo seriam esses concorrentes, todavia estes últimos eram representados por um actor que simularia o sofrimento após falhar (intencionalmente) a resposta, bem como participantes activos eram as pessoas do público que gritavam "Cas-ti-go!" para estimular o voluntário na consola de comandos, além da apresentadora que garantia que as eventuais responsabilidades cabiam integralmente aos produtores do programa, e não aos voluntários. O resultado é o que se vê neste videoclip:
Alguns voluntários colocaram-se rapidamente objecções éticas. Outros não tanto. Mas a maioria deles desempenhou as funções que lhes cabiam com naturalidade. Isto é, não mostraram uma ferocidade enfim liberta pela ausência de responsabilidades, apenas (julgaram que) torturaram e mataram uma pessoa na simplicidade de mais um jogo televisivo! E mais: na experiência de Milgram, 60% dos voluntários chegaram a aplicar a descarga que lhes era dito ser mortal. Na experiência televisiva actual, esta parcela foi de 82%...
A realidade hoje só é virtual, e a televisão o seu profeta.
(Por amor de Deus, que nunca ninguém convide José Sócrates - ou qualquer dos socratentos que logo lhe emergiram na peugada - para os comandos duma consola como essa!...)
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
No Declínio do Império Americano... Alors, peut-être je viendrai chez toi chauffer mon cœur à ton bois
Em 1986 Denys Arcand filmou Le Déclin de l'Empire Américain, sobre a redução das vidas de 4 historiadores - se bem me lembro, que tão a propósito um deles reconhecia não ser(em) um Braudel... - aos prazeres imediatos da cama e mesa. Afinal a menorização epicurista condenada por Strauss e pelos islamitas no post anterior...
Aos declínios civilizacionais os investigadores fazem suceder a invasão pelas civilizações contíguas - cf. O Nó do Problema Civilizacional - A Dimensão das Ciências, Cap. 3. Em 2002 Arcand voltou às mesmas personagens, com os mesmo actores, para filmar Les Invasions Barbares: um dos amigos tem uma doença terminal, os amigos e a mulher reúnem-se numa despedida (o videolip abaixo começa com a despedida da filha por webcam), e para a morte assistida que o filho lhe arranjara.
Aos declínios civilizacionais os investigadores fazem suceder a invasão pelas civilizações contíguas - cf. O Nó do Problema Civilizacional - A Dimensão das Ciências, Cap. 3. Em 2002 Arcand voltou às mesmas personagens, com os mesmo actores, para filmar Les Invasions Barbares: um dos amigos tem uma doença terminal, os amigos e a mulher reúnem-se numa despedida (o videolip abaixo começa com a despedida da filha por webcam), e para a morte assistida que o filho lhe arranjara.
Até que, na descolagem do avião que os leva de regresso a casa, a nora do falecido, sob os primeiros acordes de L'Amitié, encosta a cabeça ao ombro do marido e lhe diz "Je t'aime"... enquanto a voz de Françoise Hardy continua para lá do avião que desaparece no horizonte, ressaltando do genérico branco em fundo preto que suavemente passa num culminar, num remate que dá o sentido global afinal aos séculos de história que o avião deixou para trás. (Apetece-me dizer que este será o mais comovente genérico da história do cinema! - mas eu dessa história conheço quase nada!).
Letra: Jean-Max Rivière; música: Gérard Bourgeois; 1965
Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terre.
Ils ont cette douceur des plus beaux paysages
Et la fidélité des oiseaux de passage
Dans leurs cœurs est gravée une infinie tendresse
Mais parfois dans leurs yeux se glisse la tristesse.
Alors, ils viennent se chauffer chez moi
Et toi aussi tu viendras.
Tu pourras repartir au fin fond des nuages
Et de nouveau sourire à bien d'autres visages
Donner autour de toi un peu de ta tendresse
Lorsqu'un autre voudra te cacher sa tristesse.
Comme l'on ne sait pas ce que la vie nous donne
Il se peut qu'à mon tour je ne sois plus personne
S'il me reste un ami qui vraiment me comprenne
J'oublierai à la fois mes larmes et mes peines.
Alors, peut-être je viendrai chez toi
Chauffer mon cœur à ton bois.
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Da crise das humanidades e do seu desafio
Voltando a Jerome Kagan sobre The Three Cultures (v. Do determinismo mental e da medição do fluxo sangu... ), agora no capítulo 5 dedicado à situação actual das humanidades (da literatura, filosofia hermenêutica, historiografia narrativista... às artes), confesso que desta feita me parece algo desconexo e diria até menos desenvolvido, ou certeiro do que creio poderia ser. Em todo o caso assinalarei aqui 2 notas de Kagan sobre essa situação, e sobre o que ainda assim as humanidades sugerirão hoje sobre esta civilização.
a) Por comparação às ciências sociais e humanas, e ainda mais às ciências naturais, matemática e tecnologias, as humanidades não merecem hoje consideração pública. Este psicólogo americano julga que isso se deve i) à valorização da produção e da prática, nas quais os agentes das humanidades não se encontram directamente envolvidos; ii) à TV 24h/dia (acrescentemos a internet, as redes sociais...) que substituiu a função de alargamento dos horizontes antes confiada à literatura; iii) ao relativismo pós-moderno, que, recusando quaisquer critérios de validação externos a cada discurso em avaliação, não permite distinguir algumas obras como particularmente merecedoras de atenção; e iv) as ciências sociais e depois as neurociências começaram a abordar temas das humanidades mediante experiências controladas e já não pela intuição ou pela interpretação de discursos.
b) Todavia, aponta Kagan, esse desprestígio constituirá um empobrecimento na medida em que "humanists perform several critical funtions. They remind the society of its contradictions, articulate salient emotional states, detect changing cultural premises, confront their culture's deepest moral dilemmas, and document the unpredictable events that punctuate a life or historical era" (op.cit.: 231).
Pela minha parte confesso que, se por um momento sinto a pena pelo desaparecimento do que durante um certo período foi notável - no que não será mais do que a emoção perante o tempo e o fim ou a morte - e seguramente que as humanidades ocidentais o foram desde os Gregos aos grandes romancistas de meados do séc. XX, logo no momento seguinte penso que é próprio ao tempo que sucumba o que perdeu a vitalidade, de modo que se as humanidades deixaram de oferecer o que outrora lhes fez merecer a consideração pública então é justo que sejam abandonadas (a não ser pelos historiadores do período em que floresceram). Em troca, se retomarem essa oferta, simplesmente não correrão perigo de extinção.
Ora não vejo que essas critical functions não possam ser implementadas por vias mais verificáveis do que a tais intuição e interpretação de textos. Diria pois que, se a isso a si próprias se reduzirem as humanidades, é justo que desapareçam.
Directamente contra a pós-modernidade apontada no ponto (iii) da alínea (a), suponho porém que as humanidades se constituem ainda por um traço processual além de quaisquer outros funcionais, ou de quaisquer objectivos a que se proponham: o de (em linguagem metafísica medieval) reunirem o universal e o singular. Ou seja, de cada vez numa situação nova, exemplificarem as grandes questões da existência humana numa personagem, num contexto social e ambiental determinado, num conjunto de opções, comportamentos e consequências. Ainda há dias, conversando sobre isto com a Maria João Cavaco, ela observou como a literatura americana (do norte e do sul) apresenta personagens frente ao espaço aberto, onde se joga, numa simplicidade às vezes crua, o enfrentamento pessoal da vida e da morte. E lembrámos Hemingway, Jack London, Guimarães Rosa... e depois o Mestre: Tolstoi.
Os pós-modernos negam, claro, essa possibilidade da singularidade se transcender na exemplificação dum universal... Não serei eu a lamentar que por esse caminho as humanidades sigam para as prateleiras do museu da história civilizacional.
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
O aviso do Haiti
Profeticamente (?), a última obra referida no top20 do post anterior perspectiva-nos o futuro em encruzilhadas como a que se abre nessa pequena ilha das Caraíbas - nesta última semana mais presente nos telejornais do mundo inteiro do que provavelmente em todo o séc. XX - que se divide entre o Haiti e a República Dominicana.
O subtítulo da obra de Jared Diamond é "How Societies Choose to Fail or Succeed", e a comparação entre aqueles "two worlds" veio há dias resumida em http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=4776 .
Deixando aqui o link desse artigo, sugiro-o com 3 curtas observações:
a) Não há um único caminho na história universal, e uns obtêm melhores resultados do que os outros. Logo, quem quer viver esses bons resultados ou os quer deixar à geração seguinte, deve escolher nessa direcção - isto é, deve aceitar o preço de tal escolha! Em troca quem não o pagar, ou os filhos de quem se tiver recusado a pagá-lo, viverão resultados como os que os noticiários nos mostram hoje naquele pseudo-país (Esta é uma verdade de La Palisse?... frequentemente são estas verdades que apontam os caminhos certos).
b) Bons resultados a curto prazo podem perfeitamente significar o desastre a médio ou longo prazo - da exploração das florestas e do solo no Haiti... ao consumismo português alimentado pelo crescimento da dívida externa, exemplos não faltam.
c) Os leitores de Diamond têm acentuado a dimensão ecológico-económica que ele traz à colação. Note-se porém que o autor também realça traços culturais gerais, e opções políticas. A comparação daqueles 2 países mostra-o bem. E é nestas últimas dimensões que se escolhem os resultados que a 1ª dimensão apenas condicionará.
O subtítulo da obra de Jared Diamond é "How Societies Choose to Fail or Succeed", e a comparação entre aqueles "two worlds" veio há dias resumida em http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=4776 .
Deixando aqui o link desse artigo, sugiro-o com 3 curtas observações:
a) Não há um único caminho na história universal, e uns obtêm melhores resultados do que os outros. Logo, quem quer viver esses bons resultados ou os quer deixar à geração seguinte, deve escolher nessa direcção - isto é, deve aceitar o preço de tal escolha! Em troca quem não o pagar, ou os filhos de quem se tiver recusado a pagá-lo, viverão resultados como os que os noticiários nos mostram hoje naquele pseudo-país (Esta é uma verdade de La Palisse?... frequentemente são estas verdades que apontam os caminhos certos).
b) Bons resultados a curto prazo podem perfeitamente significar o desastre a médio ou longo prazo - da exploração das florestas e do solo no Haiti... ao consumismo português alimentado pelo crescimento da dívida externa, exemplos não faltam.
c) Os leitores de Diamond têm acentuado a dimensão ecológico-económica que ele traz à colação. Note-se porém que o autor também realça traços culturais gerais, e opções políticas. A comparação daqueles 2 países mostra-o bem. E é nestas últimas dimensões que se escolhem os resultados que a 1ª dimensão apenas condicionará.
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sábado, 28 de novembro de 2009
Sobre uma ocidentalização esquizofrénica
Continuando a pista do post anterior, parece-me interessante a reflexão de W. Reed Smith no seu post http://civilitasblog.blogspot.com/2009/11/schizophrenia-issue.html .
Reportando-se a Spengler e a Toynbee, nos primórdios da história comparada contemporânea, o autor distingue as perspectivas, respectivamente, de um aproveitamento da tecnologia ocidental pelos não ocidentais, mas usando-a em conformidade a princípios e valores que restarão não ocidentais, de uma ocidentalização que, ao ser técnico-económica, será simultaneamente cultural. Daí a referência a uma eventual esquizofrenia civilizacional: estará em curso um duplo desenvolvimento dessas outras civilizações, ocidentalizando-se numa dimensão mas não nas outras? Com os seus exemplos sobre a Rússia, a China, especialmente sobre a imigração,... Smith sugere bem como esta questão afectará crescentemente o nosso dia-a-dia, e portanto como lhe temos que responder politicamente - em democracia, mediante a participação de cada cidadão.
A essa questão já antiga acrescenta-se hoje este pormenor: têm os optimistas, defensores duma ocidentalização universal como pretenderam os Iluministas do séc. XVIII, sinais de que o Ocidente ainda tem a vitalidade, a atractividade, a capacidade de oferta... necessárias para integrar os imigrantes, etc.? Ou todos esses outros simplesmente já não encontrarão aqui nada que os mobilize a uma sua aculturação integral?
Penso que a metafísica analítica do séc. XX faculta aqui um desvio que poderá ser produtivo: enquanto temporais, os entes - aquilo que há, desde eu, você, os nossos 2 computadores, até se calhar o conceito de "homem", de "4", etc. - podem ser concebidos endurantista ou perdurantistamente. Pela 1ª concepção, o que há é o que dura inalterável ao longo do tempo. Pela 2ª, o que há é o processo de alterações. A 1ª estrutura a tese essencialista sobre as civilizações - cada uma destas caracteriza-se por um núcleo que permanece ao longa da história, sem se misturar com os de outras civilizações. Conduz à percepção do "choque entre civilizações". A 2ª concepção metafísica estrutura a tese construtivista sobre as civilizações - cada uma destas caracteriza-se por um processo evolutivo, não determinado por qualquer núcleo.
Se o recurso à formulação metafísica facultar um maior esclarecimento, ou até desenvolvimento, de uma dessas teses históricas em detrimento da outra, esse desvio teórico já valerá a pena. Mais, se se apresentar algum critério de decisão em questões metafísicas, então tal desvio poderá ser mesmo decisivo.
Reportando-se a Spengler e a Toynbee, nos primórdios da história comparada contemporânea, o autor distingue as perspectivas, respectivamente, de um aproveitamento da tecnologia ocidental pelos não ocidentais, mas usando-a em conformidade a princípios e valores que restarão não ocidentais, de uma ocidentalização que, ao ser técnico-económica, será simultaneamente cultural. Daí a referência a uma eventual esquizofrenia civilizacional: estará em curso um duplo desenvolvimento dessas outras civilizações, ocidentalizando-se numa dimensão mas não nas outras? Com os seus exemplos sobre a Rússia, a China, especialmente sobre a imigração,... Smith sugere bem como esta questão afectará crescentemente o nosso dia-a-dia, e portanto como lhe temos que responder politicamente - em democracia, mediante a participação de cada cidadão.
A essa questão já antiga acrescenta-se hoje este pormenor: têm os optimistas, defensores duma ocidentalização universal como pretenderam os Iluministas do séc. XVIII, sinais de que o Ocidente ainda tem a vitalidade, a atractividade, a capacidade de oferta... necessárias para integrar os imigrantes, etc.? Ou todos esses outros simplesmente já não encontrarão aqui nada que os mobilize a uma sua aculturação integral?
Penso que a metafísica analítica do séc. XX faculta aqui um desvio que poderá ser produtivo: enquanto temporais, os entes - aquilo que há, desde eu, você, os nossos 2 computadores, até se calhar o conceito de "homem", de "4", etc. - podem ser concebidos endurantista ou perdurantistamente. Pela 1ª concepção, o que há é o que dura inalterável ao longo do tempo. Pela 2ª, o que há é o processo de alterações. A 1ª estrutura a tese essencialista sobre as civilizações - cada uma destas caracteriza-se por um núcleo que permanece ao longa da história, sem se misturar com os de outras civilizações. Conduz à percepção do "choque entre civilizações". A 2ª concepção metafísica estrutura a tese construtivista sobre as civilizações - cada uma destas caracteriza-se por um processo evolutivo, não determinado por qualquer núcleo.
Se o recurso à formulação metafísica facultar um maior esclarecimento, ou até desenvolvimento, de uma dessas teses históricas em detrimento da outra, esse desvio teórico já valerá a pena. Mais, se se apresentar algum critério de decisão em questões metafísicas, então tal desvio poderá ser mesmo decisivo.
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sexta-feira, 27 de novembro de 2009
De Damasco - em 1ª mão
O meu primo João Luís S. Albergaria enviou-me há dias um mail que me parece muito sugestivo sobre o mundo árabe, e as nossas relações com este. Aliás talvez não apenas árabe, mas muçulmano... como a Turquia, o Irão e o Afeganistão, a Indonésia, etc. Lembrando, como ele diz, que "uma coisa é ler livros e ver noticiários, outra é ver com os nossos olhos, ouvir em 1ª mão, olhar olhos nos olhos esta gente, toda ela", aqui fica esta experiência, limitada como todas as de 1ª mão (que não alcançam a visão global da que decorre de leituras), mas tão imediata ou directa quanto é possível. Aqui fica em especial à atenção de todos os progressistas que à fórmula, tendencialmente essencialista, duma "guerra entre civilizações" opõem a fórmula "guerra nas civilizações" (v. O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências, parág. 1.1)
"(...) Estou em Damasco (...) Como há muito tempo não aprendia uma língua, estou muito enferrujado... e fui logo começar pelo árabe! Não por gosto, mas por obrigação, tornava-se incompatível viver aqui sem falar alguma coisa, frases básicas, mas mesmo para isso está sendo um enorme desafio. Era e é frustrante o dia a dia sem entender nada do que dizem e com uma resistência visceral ao inglês, estes sírios recebem-nos como se fossemos todos invasores, versão moderna das cruzadas e pensam que todos os europeus falam inglês como 1ª língua,... até para aqueles que sabem que existem muitos idiomas, emocionalmente somos uma espécie de representantes do império do mal. A América é inimiga declarada! E por isso o inglês é um mau começo para qualquer aproximação, a não ser para consumir ou no mundo do jet-set. Na Jordânia, onde já estive uns 10 dias, não é tanto assim.
(...) O Árabe Standard - nas ruas falam uma versão simplificada (que estou a aprender agora) e que difere de país para país... chamam-no "amia", o do Egipto é distinto do da Síria, da Argélia, etc., mas Arabe standard é o que dá estrutura a essas variantes (...).
Arranjei um apartamento pequeno só para mim, pois já estava farto de partilhar espaços com outros. Privacidade é um conceito distinto para estes tipos... o choque cultural é tão grande ou maior do que para a Índia, mas com a diferença que os indianos são tolerantes e estes tipos - os árabes em geral (...) são dogmáticos até dizer basta (...).
A Índia - a Índia que eu vivi - a sua filosofia, religião e carácter deu-me muito mas também deixou-me uma grande dose de "self-indulgement"... e a comunidade de yoga, um discurso demasiado mole e soft. Bom, isto aqui - Médio Oriente, não é para homens "softs"... esta é uma realidade dura, a guerra e a ameaça à sua integridade física e territorial estão sempre presentes e é também por isso que o homem tem um papel totalmente superior ao da mulher, na sociedade.
Sair daqui para o pais vizinho e voltar aqui é uma deslocação legalmente proibida pela Síria. (...) Do ponto de vista intelectual e humano, é fascinante lidar, sentir de perto esta luta civilizacional que se trava por e naquele território (...). Uma coisa é ler livros e ver noticiários, outra é ver com os nossos olhos, ouvir em 1ª mão, olhar olhos nos olhos esta gente, toda ela. É uma "guerra mundial" que é canalizada para este território, não se trata apenas da luta entre palestinianos e judeus, é muito mais do que isso... mas disso falarei no texto que tenciono fazer, exactamente para arrumar as minhas ideias e partilhar com outros.
(...) É tabu mencionar o nome de Israel, Jerusalém ou judeus e entrar nessa discussão com locais, por isso não tenho podido trocar opiniões sobre um assunto que me "fascina" o que também é frustrante!
Arranjei um apartamento pequeno só para mim, pois já estava farto de partilhar espaços com outros. Privacidade é um conceito distinto para estes tipos... o choque cultural é tão grande ou maior do que para a Índia, mas com a diferença que os indianos são tolerantes e estes tipos - os árabes em geral (...) são dogmáticos até dizer basta (...).
A Índia - a Índia que eu vivi - a sua filosofia, religião e carácter deu-me muito mas também deixou-me uma grande dose de "self-indulgement"... e a comunidade de yoga, um discurso demasiado mole e soft. Bom, isto aqui - Médio Oriente, não é para homens "softs"... esta é uma realidade dura, a guerra e a ameaça à sua integridade física e territorial estão sempre presentes e é também por isso que o homem tem um papel totalmente superior ao da mulher, na sociedade.
Sair daqui para o pais vizinho e voltar aqui é uma deslocação legalmente proibida pela Síria. (...) Do ponto de vista intelectual e humano, é fascinante lidar, sentir de perto esta luta civilizacional que se trava por e naquele território (...). Uma coisa é ler livros e ver noticiários, outra é ver com os nossos olhos, ouvir em 1ª mão, olhar olhos nos olhos esta gente, toda ela. É uma "guerra mundial" que é canalizada para este território, não se trata apenas da luta entre palestinianos e judeus, é muito mais do que isso... mas disso falarei no texto que tenciono fazer, exactamente para arrumar as minhas ideias e partilhar com outros.
(...) É tabu mencionar o nome de Israel, Jerusalém ou judeus e entrar nessa discussão com locais, por isso não tenho podido trocar opiniões sobre um assunto que me "fascina" o que também é frustrante!
Petra foi bonito, mas pura diversão. Todavia, e mais uma vez, é daqueles sítios que por mais fotos que se tenha visto, estar lá é outra coisa... a prova do engenho humano e da sua necessidade e capacidade de se ultrapassar... num cenário natural incrível.
(...)"
terça-feira, 24 de novembro de 2009
"Século chinês"? Talvez ainda não
Em contraponto às expectativas em À atenção, no "século chinês" , não devemos deixar de atender a outras como a de Wendy Dobson na sua recente obra Gravity Shift: How Asia's New Economic Powerhouses Will Shape the Twenty-first Century, Toronto: University of Toronto Press, 2009.
Segundo a recensão que me chegou, apesar de reconhecer que os PIB's chinês e indiano deverão alcançar o dos EUA entre 2020 e 2040, respectivamente, a autora nem por isso prevê uma substituição da liderança americana pela chinesa, mais tarde a par da indiana. Pois a aposta chinesa na evolução para o crescimento baseado na produtividade, e não no capital intensivo, implicará desregulamentações - desde a liberalização dos juros à actividade de pequenas e médias empresas não controláveis pelo poder central - muito difíceis de fazer dados os interesses instalados. Por seu lado, o calcanhar de Aquiles indiano será a alteração na legislação laboral - facilitando a contratação, e portanto o despedimento - de modo a permitir aproveitar, num desenvolvimento que (pelo menos em parte) deverá ser de capital e trabalho intensivo, a força de trabalho potencial de 900 milhões de pessoas para 2020, com 250 milhões entre os 15 e os 24 anos (compare-se com as previsões demográficas europeias!...). Além de que a Índia continua por fazer a modernização sócio-económica que desvie para os serviços e indústria a maioria dos 60% da população ainda ligada à agricultura - números dum país nos primórdios de uma revolução industrial, todavia muito avançado nas industrias de telecomunicações, espacial, etc.... imaginem-se as tensões.
Dobson prevê que, à conta desses desafios internos, ambos os países continuarão a constitui-se como contra-balanças do poder no G20, mais do que como super-potências, assumindo-se tão só como potências regionais.
Não sei avaliar até que ponto obstáculos como esses poderão efectivamente tolher o passo de chineses e indianos. Mas apontarei a tensão entre duas observações: uma (li-a não me lembro onde) é a de que a influência cultural tende a decorrer dum mesmo pólo que influencie economicamente - ainda que não estritamente do mesmo país, veja-se desde por exemplo a influência austríaca além da alemã, até à Grécia Helenística (já em decadência) no seio do Império Romano. A outra é a duma provável maior dificuldade chinesa na aceitação da diferença (v. post acima referido), o que não facilitará uma comunicação mais profunda com outras comunidades - embora isso também possa facilitar contactos estritamente económicos e comerciais, como se diz que são os dos chineses em África. Se se verifica esta dificuldade, de origem cultural, e também a 1ª observação, não será fácil aos chineses ascenderem a uma posição semelhante à dos ocidentais nos últimos 500 anos. A novidade deste século, depois do último meio milénio, é capaz de ser antes a multi-polaridade, e o exercício de influências diversificadas por parte de cada potência. A influência cultural, porventura mais do que nunca, será o trunfo ocidental.
Segundo a recensão que me chegou, apesar de reconhecer que os PIB's chinês e indiano deverão alcançar o dos EUA entre 2020 e 2040, respectivamente, a autora nem por isso prevê uma substituição da liderança americana pela chinesa, mais tarde a par da indiana. Pois a aposta chinesa na evolução para o crescimento baseado na produtividade, e não no capital intensivo, implicará desregulamentações - desde a liberalização dos juros à actividade de pequenas e médias empresas não controláveis pelo poder central - muito difíceis de fazer dados os interesses instalados. Por seu lado, o calcanhar de Aquiles indiano será a alteração na legislação laboral - facilitando a contratação, e portanto o despedimento - de modo a permitir aproveitar, num desenvolvimento que (pelo menos em parte) deverá ser de capital e trabalho intensivo, a força de trabalho potencial de 900 milhões de pessoas para 2020, com 250 milhões entre os 15 e os 24 anos (compare-se com as previsões demográficas europeias!...). Além de que a Índia continua por fazer a modernização sócio-económica que desvie para os serviços e indústria a maioria dos 60% da população ainda ligada à agricultura - números dum país nos primórdios de uma revolução industrial, todavia muito avançado nas industrias de telecomunicações, espacial, etc.... imaginem-se as tensões.
Dobson prevê que, à conta desses desafios internos, ambos os países continuarão a constitui-se como contra-balanças do poder no G20, mais do que como super-potências, assumindo-se tão só como potências regionais.
Não sei avaliar até que ponto obstáculos como esses poderão efectivamente tolher o passo de chineses e indianos. Mas apontarei a tensão entre duas observações: uma (li-a não me lembro onde) é a de que a influência cultural tende a decorrer dum mesmo pólo que influencie economicamente - ainda que não estritamente do mesmo país, veja-se desde por exemplo a influência austríaca além da alemã, até à Grécia Helenística (já em decadência) no seio do Império Romano. A outra é a duma provável maior dificuldade chinesa na aceitação da diferença (v. post acima referido), o que não facilitará uma comunicação mais profunda com outras comunidades - embora isso também possa facilitar contactos estritamente económicos e comerciais, como se diz que são os dos chineses em África. Se se verifica esta dificuldade, de origem cultural, e também a 1ª observação, não será fácil aos chineses ascenderem a uma posição semelhante à dos ocidentais nos últimos 500 anos. A novidade deste século, depois do último meio milénio, é capaz de ser antes a multi-polaridade, e o exercício de influências diversificadas por parte de cada potência. A influência cultural, porventura mais do que nunca, será o trunfo ocidental.
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sábado, 14 de novembro de 2009
Mas... há um problema civilizacional?!
Sob esta etiqueta tenho colocado uma série de posts preocupados, senão pessimistas sobre o futuro próximo ou a médio prazo. Não podemos porém deixar de nos lembrarmos que outras expectativas serão possíveis - visto o futuro ser o que está em aberto. Tenho a impressão que é geralmente o caso dos promotores do "transhumanismo" - v. http://transhumanismo.blogs.sapo.pt/ . Por sinal já me referi aqui a uma obra sobre essa expectativa de um tempo em que o homem natural dominará tecnicamente esta sua natureza, e a transformará segundo um interesse que escapa a esta última (Crise económico-financeira, transhumanismo... e a ... ), e o juízo do autor será negro. Mas além do link para aquele blogue (no qual sei que Rui Barbosa acolhe bem qualquer participante), aponto aqui a recensão de outro livro recente que ilustra esse optimismo: Aldo Schiavone, Histoire et Destin, Paris: Belin, 2009.
O autor - por sinal um conhecido estudioso da evolução das civilizações - reconhece 2 grandes revoluções que facultaram o sucesso da espécie humana na Terra, e perspectiva uma 3ª. A 1ª (se bem entendi) terá sido a passagem do nomadismo recolector ao sedentarismo agrícola - em O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências (p. 49) refiro de passagem a datação de vestígios dessa época que sugerem a anterioridade de símbolos religiosos aos instrumentos daquele organização sócio-económica, pelo que tal revolução terá começado por ser cultural. A 2ª grande revolução foi a industrial. Uma e outra terão sido provocadas por uma inteligência (a que se desenvolveu com o homo sapiens sapiens) capaz de determinar um projecto, e desenvolver uma técnica para usar o mundo dito natural em ordem ao cumprimento daquele. Segundo o autor, aliás, "natureza" (como entidade transcendente ao homem, etc.) expressa apenas a resistência que os 1ºs homens encontravam no mundo externo, não podemos porém reconhecer-lhe hoje qualquer imutabilidade, ou essência eterna e assim sagrada que houvesse que respeitar, dada a historicidade que lhe descobrimos desde muito antes de aparecer o homo erectus.
E agora a mesma inteligência preparar-se-á para uma 3ª revolução: a da aplicação da genética, biónica, robótica, etc., ao ser humano, o qual se transformará assim em ordem à erradicação de doenças, envelhecimento e mortalidade (!)... Além disto tudo, talvez assim se adapte o ser "pós-humano" à escassez de água potável, de diversos nutrientes, etc. que as previstas alterações climáticas deverão acarretar - no ensaio acima referido tive o cuidado de mencionar autores como B. Lomborg, que sustentam que, mais fácil do que inverter essas alterações, será adaptarmos-nos a elas.
Intuitivamente, me parece difícil que, se estas alterações ocorrerem nas próximas 2 ou 3 décadas, tais alterações tecnológicas de toda uma espécie até aqui apenas natural ainda venham a tempo de resguardar a maioria dos indivíduos dessa (nova) espécie. Todavia a velocidade da expansão da transformação comunicacional desde os primeiros telemóveis e o começo da aplicação da internet à comunicação aberta (não apenas militar nos EUA) foi de tal ordem que deixo um ponto de interrogação sobre aquela intuição.
Mas como Schiavone bem apontará (convergindo aqui com o autor que referi naquele post de Julho), a questão não é apenas técnica. Antes disso, é esse o nosso projecto?
O autor - por sinal um conhecido estudioso da evolução das civilizações - reconhece 2 grandes revoluções que facultaram o sucesso da espécie humana na Terra, e perspectiva uma 3ª. A 1ª (se bem entendi) terá sido a passagem do nomadismo recolector ao sedentarismo agrícola - em O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências (p. 49) refiro de passagem a datação de vestígios dessa época que sugerem a anterioridade de símbolos religiosos aos instrumentos daquele organização sócio-económica, pelo que tal revolução terá começado por ser cultural. A 2ª grande revolução foi a industrial. Uma e outra terão sido provocadas por uma inteligência (a que se desenvolveu com o homo sapiens sapiens) capaz de determinar um projecto, e desenvolver uma técnica para usar o mundo dito natural em ordem ao cumprimento daquele. Segundo o autor, aliás, "natureza" (como entidade transcendente ao homem, etc.) expressa apenas a resistência que os 1ºs homens encontravam no mundo externo, não podemos porém reconhecer-lhe hoje qualquer imutabilidade, ou essência eterna e assim sagrada que houvesse que respeitar, dada a historicidade que lhe descobrimos desde muito antes de aparecer o homo erectus.
E agora a mesma inteligência preparar-se-á para uma 3ª revolução: a da aplicação da genética, biónica, robótica, etc., ao ser humano, o qual se transformará assim em ordem à erradicação de doenças, envelhecimento e mortalidade (!)... Além disto tudo, talvez assim se adapte o ser "pós-humano" à escassez de água potável, de diversos nutrientes, etc. que as previstas alterações climáticas deverão acarretar - no ensaio acima referido tive o cuidado de mencionar autores como B. Lomborg, que sustentam que, mais fácil do que inverter essas alterações, será adaptarmos-nos a elas.
Intuitivamente, me parece difícil que, se estas alterações ocorrerem nas próximas 2 ou 3 décadas, tais alterações tecnológicas de toda uma espécie até aqui apenas natural ainda venham a tempo de resguardar a maioria dos indivíduos dessa (nova) espécie. Todavia a velocidade da expansão da transformação comunicacional desde os primeiros telemóveis e o começo da aplicação da internet à comunicação aberta (não apenas militar nos EUA) foi de tal ordem que deixo um ponto de interrogação sobre aquela intuição.
Mas como Schiavone bem apontará (convergindo aqui com o autor que referi naquele post de Julho), a questão não é apenas técnica. Antes disso, é esse o nosso projecto?
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
"A Nossa Escolha"
Acabei de saber que no próximo dia 16 sairá a versão portuguesa da última obra de Al Gore, Our Choice. Directamente nenhum de nós poderá fazer seja o que for de significativo nessa matéria - teríamos que comunicar em inglês, e receber a atenção mundial devida a um ex-Vice-Presidente americano e prémio Nobel... que mesmo assim não parece ser muito escutado! Mas como cidadãos eleitores, ínfimos opinion makers que possamos ser, somos responsáveis por contribuir para a aceitação ou recusa do preço, nomeadamente no plano do conforto, que a sustentabilidade ecológica a CURTO prazo parece ter.
A minha incredulidade de há 20 anos (cf."Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1...) mantém-se. Em todo o caso aqui fica a apresentação daquela obra na 1ª pessoa:
A minha incredulidade de há 20 anos (cf."Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1...) mantém-se. Em todo o caso aqui fica a apresentação daquela obra na 1ª pessoa:
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quarta-feira, 4 de novembro de 2009
A 1ª função efectiva (!) da universidade portuguesa
Cristina Civale destacou no seu post http://weblogs.clarin.com/itinerarte/archives/2009/11/pensar_la_contemporaneidad_los_intelectuales.html o que o linguista e ensaísta político Noam Chomsky assumiu como 1º princípio geral na política internacional contemporânea: que os apologetas da actual ordem política, justificando os interesses dos fortes perante os fracos, são os intelectuais - salvo honrosas excepções, a isso se terão estes reduzido (o link para a conferência completa encontra-se naquele post). Não tenho dados para ajuizar sobre o juízo de Chomsky, mas serve-me de impulso para um outro que há tempos ando para aqui deixar sobre o núcleo identitário da universidade portuguesa - e portanto de qualquer outra que aquela tenha inspirado (África lusófona?...):
Em geral, creio que as funções que identificam a instituição universitária são, por um lado, a formação de quadros superiores - ou seja, profissionais com conhecimentos actualizados sobre uma área de trabalho, com as capacidades de, nesta, reconhecer problemas, equacioná-los, implementar as respectivas resoluções, e avaliar os resultados. Por outro lado, cabe às universidades a reflexão sobre o conhecimento herdado em vista ao seu desenvolvimento, ou mesmo à produção de novos conhecimentos (a transmitir aos quadros anteriores). Como se posiciona a universidade portuguesa sob estes 2 parâmetros?
Segundo as estatísticas vulgarmente publicadas, durante o Estado Novo os quadros superiores portugueses seriam normalmente competentes, mas em pequena percentagem por comparação às restantes populações europeias. A universidade não terá pois cumprido esta função numa época em que se passava da II para a III Revolução Industrial e para a economia do conhecimento desta última. Em troca, depois da revolução democrática de 1974/75 aumentaram muito os diplomados superiores. Mas a produtividade portuguesa não aumentou numa mesma proporção! Apetece dizer que - talvez para que alguma velha tendência se mantivesse... - para compensar a subida quantitativa, baixou a qualidade.
Por outro lado, basta consultar os índices remissivos de qualquer obra de história das ideias para saltar à evidência que Portugal simplesmente não existe nesse processo histórico. Isto é, se por exemplo não é possível traçar, comprovadamente e sem saltos, a 1ª Globalização sem referir o séc. XV português, todos os passos da história da filosofia, da história da matemática, etc. podem ser reconstituídos sem referência a qualquer autor português.
De fraquinho a praticamente nulo, estes serão os valores da universidade portuguesa não só de agora, provavelmente de sempre, à luz daqueles 2 parâmetros. O que é que esta instituição tem então levado a cabo, que a mantém ao ponto de se manter a despeito da compressão demográfica, orçamental...?
Desde logo pelo menos 1 coisa a universidade portuguesa tem feito primorosamente durante o séc. XX e XXI (não sei se antes também): de Salazar a Cavaco Silva, passando por Marcelo Caetano e toda uma série de Ministros e Secretários de Estado, até António Guterres que não foi professor universitário mas logo os seus colaboradores se apressaram a informar que fora um dos melhores alunos do I.S.T., e José Sócrates que não dispensou um diploma nem que fosse em resposta a provas de avaliação enviadas por fax a partir do Governo (!),a universidade portuguesa tem-se revelado imbatível na conquista dos cargos de poder político. Nesta função sim, o valor da universidade portuguesa dificilmente encontrará par no mundo civilizado... se calhar por isso, que mal tem sido o nosso!
O que o célebre linguista norte-americano parece sugerir é que este último fosso se estará a esvair (na medida em que se ligue a universidade à intelectualidade portuguesa - se esta existe, o que disse acima é que pouco ela se encontrará naquela instituição anterior). Mas não por subirem uns, antes por descerem os outros.
Em geral, creio que as funções que identificam a instituição universitária são, por um lado, a formação de quadros superiores - ou seja, profissionais com conhecimentos actualizados sobre uma área de trabalho, com as capacidades de, nesta, reconhecer problemas, equacioná-los, implementar as respectivas resoluções, e avaliar os resultados. Por outro lado, cabe às universidades a reflexão sobre o conhecimento herdado em vista ao seu desenvolvimento, ou mesmo à produção de novos conhecimentos (a transmitir aos quadros anteriores). Como se posiciona a universidade portuguesa sob estes 2 parâmetros?
Segundo as estatísticas vulgarmente publicadas, durante o Estado Novo os quadros superiores portugueses seriam normalmente competentes, mas em pequena percentagem por comparação às restantes populações europeias. A universidade não terá pois cumprido esta função numa época em que se passava da II para a III Revolução Industrial e para a economia do conhecimento desta última. Em troca, depois da revolução democrática de 1974/75 aumentaram muito os diplomados superiores. Mas a produtividade portuguesa não aumentou numa mesma proporção! Apetece dizer que - talvez para que alguma velha tendência se mantivesse... - para compensar a subida quantitativa, baixou a qualidade.
Por outro lado, basta consultar os índices remissivos de qualquer obra de história das ideias para saltar à evidência que Portugal simplesmente não existe nesse processo histórico. Isto é, se por exemplo não é possível traçar, comprovadamente e sem saltos, a 1ª Globalização sem referir o séc. XV português, todos os passos da história da filosofia, da história da matemática, etc. podem ser reconstituídos sem referência a qualquer autor português.
De fraquinho a praticamente nulo, estes serão os valores da universidade portuguesa não só de agora, provavelmente de sempre, à luz daqueles 2 parâmetros. O que é que esta instituição tem então levado a cabo, que a mantém ao ponto de se manter a despeito da compressão demográfica, orçamental...?
Desde logo pelo menos 1 coisa a universidade portuguesa tem feito primorosamente durante o séc. XX e XXI (não sei se antes também): de Salazar a Cavaco Silva, passando por Marcelo Caetano e toda uma série de Ministros e Secretários de Estado, até António Guterres que não foi professor universitário mas logo os seus colaboradores se apressaram a informar que fora um dos melhores alunos do I.S.T., e José Sócrates que não dispensou um diploma nem que fosse em resposta a provas de avaliação enviadas por fax a partir do Governo (!),a universidade portuguesa tem-se revelado imbatível na conquista dos cargos de poder político. Nesta função sim, o valor da universidade portuguesa dificilmente encontrará par no mundo civilizado... se calhar por isso, que mal tem sido o nosso!
O que o célebre linguista norte-americano parece sugerir é que este último fosso se estará a esvair (na medida em que se ligue a universidade à intelectualidade portuguesa - se esta existe, o que disse acima é que pouco ela se encontrará naquela instituição anterior). Mas não por subirem uns, antes por descerem os outros.
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quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Dólar fraco... ou o sol na eira, que queima o nabal
O Nobel de economia Paul Krugman tem vindo a alertar no seu blog (aqui referido ao lado) contra um dogma do dólar forte e como moeda de referência internacional - v. http://krugman.blogs.nytimes.com/2009/10/09/beware-the-dollar-hawks/. Considerando até alguns comentários que têm sido feitos a posts como esse, uma política monetária norte-americana que aceite alguma desvalorização dessa moeda apoiaria as exportações e travaria as importações dos EUA, ajudando a resolver o deficit comercial desse país. Resta saber se o sol que assim secaria este deficit não queimaria ao lado algum nabal maior ainda.
Pergunto-me isto por me lembrar de números como: "Entre 1990 e 2000, o deficit comercial americano passou de 100 para 450 mil milhões de dólares". "O excedente da balança comercial americana em relação aos bens de tecnologia avançada passou de 35 mil milhões de dólares em 1990 para 5 mil milhões em 2001, e esta era deficitária em Janeiro de 2002. (...) Nas vésperas da depressão de 1929, 44,5% da produção industrial mundial encontrava-se nos Estados Unidos (...). Setenta anos mais tarde, o produto industrial americano é um pouco inferior ao da União Europeia e ligeiramente superior ao do Japão. Esta queda de poder económico não é compensada pela actividade das multinacionais americanas." - in: Emmanuel Todd, Após o Império - Ensaio sobre a decomposição do sistema americano, Lisboa: Edições 70, 2002, pp. 25, 74. Como o autor explica na frase seguinte àquela 1ª, "para equilibrar as suas contas externas, a América precisa de um afluxo de capitais de montante equivalente" (op.cit.: 25). Mas esse afluxo continuará se para os outros países deixar de ser interessante garantir reservas em dólares, uma vez que esta moeda perca o seu estatuto referencial internacional (nomeadamente no negócio do petróleo), e se os juros da banca americana forem inferiores ao de outras regiões económicas?...
Apostar numa política monetária que trave as importações e incremente as exportações pressupõe que a economia norte-americana está apta a, de um lado, responder à procura interna, e, do outro lado, marcar pontos na competição internacional. A evolução daqueles números sugere precisamente o contrário. Não conheço estatísticas mais recentes, mas foi público que a Administração Bush deixou esse país com um enorme deficit comercial (além do orçamental), logo provavelmente não houve aí qualquer inflexão. Naturalmente não será impossível que esta aconteça... mas a médio ou longo prazo, uma vez que se inflictam políticas que possam dificultar isso, e que (isto será o mais decisivo) a sociedade americana volte a ser capaz de aceitar poupar no que tem importado, e de produzir o que tiver procura internacional. Sem ser economista, arrisco-me a desconfiar que sem esta inflexão de capacidades sociais não valerão de grande coisa tanto a política monetária dos falcões criticados por Krugman, quanto a alternativa. E aquele que tem sido o centro político do Ocidente (os EUA) continuará a depreciar-se economicamente.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Uma esperança sul-americana!
Um curto apontamento: confesso que talvez desde as minhas leituras adolescentes de O Tempo e o Vento e outras obras de Erico Veríssimo, também de Jorge Amado (a despeito do encanto destas)... me convenci que o Brasil seria um enorme país, mas de futuro sempre adiado. O meu pressuposto era já o de que a mola real dum país não são os minérios, etc., mas as pessoas, mais precisamente, a sua cultura. Mantenho o pressuposto. Mas a recente evolução de alguns indicadores sócio-económicos brasileiros (também argentinos, chilenos) reforçam a ideia de que todavia as culturas não são estáticas, antes evoluem. E portanto podem desenvolver formas de resolver problemas que antes lhes eram irresolúveis. O artigo de Marcel Fortuna Biato em http://www.theglobalist.com/StoryId.aspx?StoryId=8030 aponta neste sentido.
O que nos lembra que o Ocidente não é necessária e exclusivamente a Europa central e ocidental, mais a América anglo-saxónica e Austrália. Toda a América latina, com a sua idiossincrasia índia e africana, se enfim resolver aqueles seus problemas de exclusão da maior parte das respectivas populações, etc., desenvolverá a sua herança ocidental numa novidade que poderá animar toda esta civilização. Como o Presidente Lula enfatizou no seu discurso sobre os Jogos Olímpicos, (ao contrário do resto do Ocidente) o Brasil tem uma enorme percentagem de jovens...
Sobre no entanto as fronteiras ou contornos da civilização ocidental continuo tão cauteloso, e ignorante, quanto me confessei logo no 1º capítulo de O Nó do Problema Ocidental (quando duvidei por exemplo do grau de ocidentalidade de Portugal...).
Mas para acabar por cima este apontamento fica o próximo post!
O que nos lembra que o Ocidente não é necessária e exclusivamente a Europa central e ocidental, mais a América anglo-saxónica e Austrália. Toda a América latina, com a sua idiossincrasia índia e africana, se enfim resolver aqueles seus problemas de exclusão da maior parte das respectivas populações, etc., desenvolverá a sua herança ocidental numa novidade que poderá animar toda esta civilização. Como o Presidente Lula enfatizou no seu discurso sobre os Jogos Olímpicos, (ao contrário do resto do Ocidente) o Brasil tem uma enorme percentagem de jovens...
Sobre no entanto as fronteiras ou contornos da civilização ocidental continuo tão cauteloso, e ignorante, quanto me confessei logo no 1º capítulo de O Nó do Problema Ocidental (quando duvidei por exemplo do grau de ocidentalidade de Portugal...).
Mas para acabar por cima este apontamento fica o próximo post!
sábado, 10 de outubro de 2009
"Hell is truth seen too late" (T. Hobbes)
Retirei a citação acima do post de Morris Berman in: http://morrisberman.blogspot.com/2009/09/parable-of-frogs.html - reconheço que talvez não seja o melhor título para esta minha observação, mas a frase pareceu-me tão boa que não resisti!
Esse conhecido ensaísta desenvolve aí uma crítica ao american way of life na base da desconfiança de que, contra A. Smith, o valor da maximização dos resultados de cada indivíduo não leva necessariamente à melhoria sustentável das condições de vida da maioria das pessoas, e porventura a prazo da comunidade inteira. Desde logo, com efeito, há que reconhecer o estatuto epistemológico da mão invisível que regulará o mercado: não se trata da metáfora de um conceito que resulte da exclusão de todas as alternativas possíveis, logo necessário pelo menos até ao surgimento de outra alternativa ainda; é antes um postulado - i.e. algo que se pede que se aceite, ou a proposta de que se pense a realidade económica como se ela fosse assim, a ver se funciona.
Ao lado, pois, pode-se igualmente postular que esta realidade funciona antes homeostaticamente - i.e. numa equilibração entre sectores, de tal modo que um excesso conseguido sectorialmente por alguns indivíduos possa desregular o organismo, e destruir inúmeros órgãos senão mesmo enfim o organismo inteiro.
Ou seja - como argumentei no cap. 4 de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências - o que economicamente (e assim social, política... culturalmente) está hoje em causa não é directa e simplesmente a crise actual, ou mesmo a nova ordem mundial que se adivinha. A montante desta indicação, está em causa o esquema teórico que, em 1º lugar, nos permite reconhecer alguma tal crise, em 2º lugar, diagnosticá-la, e em 3º lugar (espera-se!) enquadrar medidas terapêuticas. Afinal, funciona melhor conceber a economia como naturalmente resultante das acções individuais, ou como resultante da relação de equilíbrio que cada uma destas estabelece com as demais?
[Fui à procura e encontrei: em Não todos, mas vários caminhos levam a Roma tinha registado uma pista sobre esta última pergunta.]
P.S. - Ao american way of life Berman contrapõe o mexican way of life. Bem, não duvido de que no México existirão "ilhas"... de resto como nos EUA (e aqui estas até serão grandes!); receio porém - dada a imagem comum que se tem do outro lado do Rio Grande, v. ex. Os EUA e o mundo - séc. XXI - que a emenda de Berman seja ainda pior do que o soneto!
Esse conhecido ensaísta desenvolve aí uma crítica ao american way of life na base da desconfiança de que, contra A. Smith, o valor da maximização dos resultados de cada indivíduo não leva necessariamente à melhoria sustentável das condições de vida da maioria das pessoas, e porventura a prazo da comunidade inteira. Desde logo, com efeito, há que reconhecer o estatuto epistemológico da mão invisível que regulará o mercado: não se trata da metáfora de um conceito que resulte da exclusão de todas as alternativas possíveis, logo necessário pelo menos até ao surgimento de outra alternativa ainda; é antes um postulado - i.e. algo que se pede que se aceite, ou a proposta de que se pense a realidade económica como se ela fosse assim, a ver se funciona.
Ao lado, pois, pode-se igualmente postular que esta realidade funciona antes homeostaticamente - i.e. numa equilibração entre sectores, de tal modo que um excesso conseguido sectorialmente por alguns indivíduos possa desregular o organismo, e destruir inúmeros órgãos senão mesmo enfim o organismo inteiro.
Ou seja - como argumentei no cap. 4 de O Nó do Problema Ocidental - A dimensão das ciências - o que economicamente (e assim social, política... culturalmente) está hoje em causa não é directa e simplesmente a crise actual, ou mesmo a nova ordem mundial que se adivinha. A montante desta indicação, está em causa o esquema teórico que, em 1º lugar, nos permite reconhecer alguma tal crise, em 2º lugar, diagnosticá-la, e em 3º lugar (espera-se!) enquadrar medidas terapêuticas. Afinal, funciona melhor conceber a economia como naturalmente resultante das acções individuais, ou como resultante da relação de equilíbrio que cada uma destas estabelece com as demais?
[Fui à procura e encontrei: em Não todos, mas vários caminhos levam a Roma tinha registado uma pista sobre esta última pergunta.]
P.S. - Ao american way of life Berman contrapõe o mexican way of life. Bem, não duvido de que no México existirão "ilhas"... de resto como nos EUA (e aqui estas até serão grandes!); receio porém - dada a imagem comum que se tem do outro lado do Rio Grande, v. ex. Os EUA e o mundo - séc. XXI - que a emenda de Berman seja ainda pior do que o soneto!
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Sobre a reacção às diferenças culturais
Charles Taylor, um dos mais proeminentes filósofos vivos, deu uma entrevista à Philosophy Now (Nº 74, July/August 2009, in: http://www.philosophynow.org/issue74/74taylor.htm) na qual sugeriu - sem argumentar, que uma entrevista não dá para isso - uma pista importante para as nossas sociedades crescentemente cosmopolitas: com efeito a curva demográfica negativa na Europa e população norte-americana tradicional, compensada pela imigração de diversas proveniências, mais os efeitos da globalização cultural e económica, coloca-nos a conviver com a diferença nos nossos bairros, empregos, lojas... E crescentemente não será uma convivência no seio das nossas velhas regras de convivência, como Taylor bem diz, estas regras não são neutrais, têm implicações culturais, logo o maior peso daquelas diferenças forçará alguma alteração no modo de vida que desenvolvemos da nossa tradição, e com o qual recebemos as primeiras gerações de imigrantes. Por exemplo: o nosso respeito pela opinião de um indivíduo chinês permite que este defenda, connosco, a imigração, mas contra nós, que o que importa não sejam os indivíduos mas sim os grupos, de forma que, se ao fim duns anos de imigração chinesa o grupo chinês ultrapassar o nativo, cada um destes terá que se calar na terra que foi dos seus antepassados porque agora aí o mais importante passará a ser o grupo dominante...
Voltemos ao presente - Em vista a manter a coesão temos hoje 2 possibilidades: ou procurar denominadores comuns que dissolvam ao máximo as diferenças, ou reconhecermos frontalmente estas últimas e implementarmos um discurso racional sobre elas que evite excessos emocionais, e que vá facultando alguma forma de convivência.
A razão pela qual o filósofo canadiano prefere esta 2ª é que não considera possível uma solução final, uma verdade acabada que se constituísse naquele denominador. Neste suposto, será mais sensato reconhecer e aceitar viver as tensões do cosmopolitismo, procurando uma convivência não destrutiva e até mutuamente estimulante quando possível, do que menosprezar essas tensões... o que não as dissolve, apenas as deixa livres da reflexão racional que melhor evita excessos emocionais destrutivos.
As alternativas são: formular um tal denominador cuja aplicação político-social prove não ser destrutiva (como foi o comunismo, que em nome da Humanidade fez matar milhões de mulheres e homens!); ou tentar enviar de volta os imigrantes, empobrecendo nós numa Europa progressivamente envelhecida - no caso dos EUA, como boa parte da compensação demográfica será feita por latinos que já lá vivem, só se lhes quiserem dar o mesmo destino que deram antes aos índios...
Voltemos ao presente - Em vista a manter a coesão temos hoje 2 possibilidades: ou procurar denominadores comuns que dissolvam ao máximo as diferenças, ou reconhecermos frontalmente estas últimas e implementarmos um discurso racional sobre elas que evite excessos emocionais, e que vá facultando alguma forma de convivência.
A razão pela qual o filósofo canadiano prefere esta 2ª é que não considera possível uma solução final, uma verdade acabada que se constituísse naquele denominador. Neste suposto, será mais sensato reconhecer e aceitar viver as tensões do cosmopolitismo, procurando uma convivência não destrutiva e até mutuamente estimulante quando possível, do que menosprezar essas tensões... o que não as dissolve, apenas as deixa livres da reflexão racional que melhor evita excessos emocionais destrutivos.
As alternativas são: formular um tal denominador cuja aplicação político-social prove não ser destrutiva (como foi o comunismo, que em nome da Humanidade fez matar milhões de mulheres e homens!); ou tentar enviar de volta os imigrantes, empobrecendo nós numa Europa progressivamente envelhecida - no caso dos EUA, como boa parte da compensação demográfica será feita por latinos que já lá vivem, só se lhes quiserem dar o mesmo destino que deram antes aos índios...
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