No post de há pouco deixei a impressão de também julgar que os responsáveis - entenda-se, os maus da fita - são os Chefes de Estado, CEO's das grandes corporações, etc. Nada mais longe do que penso.
Pelo menos até ao dia em que as manifestações de empenhados cidadãos em prol do planeta se fizerem com cartazes dizendo "Fechem a fábrica onde trabalho pois ela emite CO2", "Exigimos pagar a roupa ao triplo do preço", "Queremos o fim das viagens aéreas baratas", "Suba-se o imposto automóvel",...
Nesse dia, sim, se os Chefes de Estado persistirem em protocolos e acordos opostos à vontade expressa pelos seus eleitores, em que os administradores de algumas empresas persistirem em oferecer o que a maioria da população já não procura, aqueles é que serão os maus da fita.
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sábado, 19 de dezembro de 2009
"Hopenhagen"? Sim, mas à 5ª potência
Segundo Ricardo Garcia os pontos essenciais do acordo de Copenhaga são os elencados em http://jornal.publico.clix.pt/noticia/19-12-2009/os-termos-do-acordo-de-copenhaga-18449611.htm .
Pela minha parte, aplicando-lhes o critério de avaliação que avancei em 1 critério para Copenhaga , pegando na célebre palavra do Primeiro-Ministro dinamarquês direi que essa conferência nos deixa entregues à esperança (= fé) em 5 dimensões:
1ª) Entre o curto e o médio prazo - Nesse artigo não se percebe se se assumiu a opção pela intervenção urgente e cara, ou a mais comportável e adiada... Resta a esperança de que o aumento de 2ºC ou mesmo de 1,5ºC, para quando quer que o projectem, seja ecologicamente suficiente e economicamente comportável.
2ª) Da ciência para a política - "Os números desapareceram"... Resta a esperança de que o compromisso sobre eles não seja preciso para orientar as acções.
3ª) Da política para a ciência - "compromissos voluntários", será que isto significa que os países não se regem por metas cientificamente determinadas?... Resta a esperança de que, ainda que assim seja, por sorte então acertem nas parcelas que somarão alguma meta suficiente.
4ª) Verificação - "Somente as acções que tenham sido financiadas pelos países desenvolvidos é que terão uma auditoria e verificação externas". Já não é mau que se fale de alguma... Mas resta a esperança de que a China e os EUA (na medida em que não recebam ajuda externa) sejam verdadeiros nas suas declarações internacionais, e ainda a esperança de que as auditorias externas às Angolas, etc. não sejam condicionáveis por quem tiver aí interesse no petróleo, diamantes, madeiras, construção civil, etc.
5ª) Sancionamento - "O acordo não tem carácter vinculativo", logo nem fará qualquer sentido falar-se de sanções para os infractores... Resta a esperança de que não estejamos a falar de homens comuns, mas de santos e santas (bom, lá que esses Chefes de Estado se gostam de dar ares, lá isso gostam, mas serão verdadeiros esses ares?).
Acreditemos, pois, no Pai Natal.
Pela minha parte, aplicando-lhes o critério de avaliação que avancei em 1 critério para Copenhaga , pegando na célebre palavra do Primeiro-Ministro dinamarquês direi que essa conferência nos deixa entregues à esperança (= fé) em 5 dimensões:
1ª) Entre o curto e o médio prazo - Nesse artigo não se percebe se se assumiu a opção pela intervenção urgente e cara, ou a mais comportável e adiada... Resta a esperança de que o aumento de 2ºC ou mesmo de 1,5ºC, para quando quer que o projectem, seja ecologicamente suficiente e economicamente comportável.
2ª) Da ciência para a política - "Os números desapareceram"... Resta a esperança de que o compromisso sobre eles não seja preciso para orientar as acções.
3ª) Da política para a ciência - "compromissos voluntários", será que isto significa que os países não se regem por metas cientificamente determinadas?... Resta a esperança de que, ainda que assim seja, por sorte então acertem nas parcelas que somarão alguma meta suficiente.
4ª) Verificação - "Somente as acções que tenham sido financiadas pelos países desenvolvidos é que terão uma auditoria e verificação externas". Já não é mau que se fale de alguma... Mas resta a esperança de que a China e os EUA (na medida em que não recebam ajuda externa) sejam verdadeiros nas suas declarações internacionais, e ainda a esperança de que as auditorias externas às Angolas, etc. não sejam condicionáveis por quem tiver aí interesse no petróleo, diamantes, madeiras, construção civil, etc.
5ª) Sancionamento - "O acordo não tem carácter vinculativo", logo nem fará qualquer sentido falar-se de sanções para os infractores... Resta a esperança de que não estejamos a falar de homens comuns, mas de santos e santas (bom, lá que esses Chefes de Estado se gostam de dar ares, lá isso gostam, mas serão verdadeiros esses ares?).
Acreditemos, pois, no Pai Natal.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
1 critério para Copenhaga
O Wall Street Journal organizou online o seu Guide to Climate Change (http://online.wsj.com/article/SB10001424052748704007804574574101605007432.html ) em função da próxima conferência de Copenhaga, que substituirá o Protocolo de Quioto. São ali bastantes os editoriais e artigos de opinião, deixo-os para quem tiver a coragem e a energia intelectual para enfrentar sustentadamente a questão - a mim que, confesso, já mas vão faltando, fico-me pelo seguinte balizamento (A), e consequente critério de avaliação do sucesso da conferência (B):
A) Me parece que as actuais posições se dividem entre i) a consideração que as medidas eficazes de diminuição do efeito estufa são hoje demasiado caras (ou seja, as que são comportáveis não passam de cosmética e retórica populista); daí que mais vale adiar essa resposta até esta ser economicamente sustentável, e entretanto bem como nessa altura simplesmente aceitarmos e nos adaptarmos a uma nova atmosfera. Em troca ii) outros consideram que através do sistema dum mercado de licenças de emissão de CO2 será possível levar a estrutura produtiva a uma alteração gradual da produção de energia; segundo estudos do departamento norte-americano de estatísticas da energia, o custo será apenas de 1% do PIB em 2020.
B) Se essa é a situação, então Copenhaga terá sucesso se:
1º Se assumir 1 das 2 posições, apontando a intervenção, e reunindo os meios (pagamento de custos), para o médio ou para o curto prazo - fazer um pouco de tudo costuma significar não fazer o suficiente de nenhum.
2º No âmbito da opção anterior, e por certo distinguindo-se um cenário mais optimista (menos caro, etc.) de outro mais pessimista, se escolher, mais ambiciosa e imprudentemente ou mais prudente e humildemente, 1 cenário, para apontar, quantificadamente, os seus custos previsíveis, bem como o processo de cálculo que aí levou, de forma que possa haver verificação independente dos números obtidos.
3º Se for atribuída a cada Estado, e cada 1 destes assumir a respectiva quota-parte desses custos.
4º Se for estabelecido um sistema prático de fiscalização independente (=internacional) desse pagamento - na substituição de fontes de energia, etc. - pelos Estados.
5º Se ficar assumido um sistema de penalização dos eventuais Estados infractores.
Assinalei a negrito as condições sem as quais diria que só por milagre a declaração final da conferência será para levar a sério. As outras 2 não serão assim necessárias... mas ficamos dependentes da sorte.
A) Me parece que as actuais posições se dividem entre i) a consideração que as medidas eficazes de diminuição do efeito estufa são hoje demasiado caras (ou seja, as que são comportáveis não passam de cosmética e retórica populista); daí que mais vale adiar essa resposta até esta ser economicamente sustentável, e entretanto bem como nessa altura simplesmente aceitarmos e nos adaptarmos a uma nova atmosfera. Em troca ii) outros consideram que através do sistema dum mercado de licenças de emissão de CO2 será possível levar a estrutura produtiva a uma alteração gradual da produção de energia; segundo estudos do departamento norte-americano de estatísticas da energia, o custo será apenas de 1% do PIB em 2020.
B) Se essa é a situação, então Copenhaga terá sucesso se:
1º Se assumir 1 das 2 posições, apontando a intervenção, e reunindo os meios (pagamento de custos), para o médio ou para o curto prazo - fazer um pouco de tudo costuma significar não fazer o suficiente de nenhum.
2º No âmbito da opção anterior, e por certo distinguindo-se um cenário mais optimista (menos caro, etc.) de outro mais pessimista, se escolher, mais ambiciosa e imprudentemente ou mais prudente e humildemente, 1 cenário, para apontar, quantificadamente, os seus custos previsíveis, bem como o processo de cálculo que aí levou, de forma que possa haver verificação independente dos números obtidos.
3º Se for atribuída a cada Estado, e cada 1 destes assumir a respectiva quota-parte desses custos.
4º Se for estabelecido um sistema prático de fiscalização independente (=internacional) desse pagamento - na substituição de fontes de energia, etc. - pelos Estados.
5º Se ficar assumido um sistema de penalização dos eventuais Estados infractores.
Assinalei a negrito as condições sem as quais diria que só por milagre a declaração final da conferência será para levar a sério. As outras 2 não serão assim necessárias... mas ficamos dependentes da sorte.
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quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Ainda a ecologia
Não tenho mais tempo para aqui ficar (aliás, já estou em procrastinação... como se me tornou hábito neste blogue!), pelo que - pedindo desculpa alheia pelo sorriso idiota da pequena que apresenta este trailer - daqui remeto de imediato para ele.
Se você entretanto estiver com tempo, sugiro-lhe que siga para a leitura de http://www.nybooks.com/articles/23387?utm_medium=email&utm_source=Emailmarketingsoftware&utm_content=725200950&utm_campaign=November192009issue+_+uylutu&utm_term=AGreatJumptoDisaster.
Se você entretanto estiver com tempo, sugiro-lhe que siga para a leitura de http://www.nybooks.com/articles/23387?utm_medium=email&utm_source=Emailmarketingsoftware&utm_content=725200950&utm_campaign=November192009issue+_+uylutu&utm_term=AGreatJumptoDisaster.
sábado, 7 de novembro de 2009
De St. Andrews para Copenhaga
Custa, depois da beleza no post em baixo, vir empurrá-la assim... ou poluir (no contexto, esta deve ser a palavra) esta página com estas linhas, por curtas que sejam:
Vim ver o comunicado da reunião dos ministros das finanças do G20 que acabou há bocado - http://www.g20.org/Documents/2009_communique_standrews.pdf. Depois de em Para a conferência de Copenhaga ter associado a organização económica internacional à sustentação de uma restrição da poluição, interessava-me particularmente ver se se chegara à assunção dos respectivos custos, ou se, pelo contrário, se se ficava por algumas belas intenções e promessas de muito empenho... para um futuro qualquer, e por alguém... ainda não se sabe bem quem. O parágrafo 7 - o último antes do encerramento... - parece-me ser um bom exemplo desta 2ª possibilidade. Será que é em Copenhaga que regressarão aos custos? (Mesmo que a esperança também porventura tenha que morrer, sempre podemos deixá-la para o fim).
Vim ver o comunicado da reunião dos ministros das finanças do G20 que acabou há bocado - http://www.g20.org/Documents/2009_communique_standrews.pdf. Depois de em Para a conferência de Copenhaga ter associado a organização económica internacional à sustentação de uma restrição da poluição, interessava-me particularmente ver se se chegara à assunção dos respectivos custos, ou se, pelo contrário, se se ficava por algumas belas intenções e promessas de muito empenho... para um futuro qualquer, e por alguém... ainda não se sabe bem quem. O parágrafo 7 - o último antes do encerramento... - parece-me ser um bom exemplo desta 2ª possibilidade. Será que é em Copenhaga que regressarão aos custos? (Mesmo que a esperança também porventura tenha que morrer, sempre podemos deixá-la para o fim).
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sexta-feira, 6 de novembro de 2009
"A Nossa Escolha"
Acabei de saber que no próximo dia 16 sairá a versão portuguesa da última obra de Al Gore, Our Choice. Directamente nenhum de nós poderá fazer seja o que for de significativo nessa matéria - teríamos que comunicar em inglês, e receber a atenção mundial devida a um ex-Vice-Presidente americano e prémio Nobel... que mesmo assim não parece ser muito escutado! Mas como cidadãos eleitores, ínfimos opinion makers que possamos ser, somos responsáveis por contribuir para a aceitação ou recusa do preço, nomeadamente no plano do conforto, que a sustentabilidade ecológica a CURTO prazo parece ter.
A minha incredulidade de há 20 anos (cf."Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1...) mantém-se. Em todo o caso aqui fica a apresentação daquela obra na 1ª pessoa:
A minha incredulidade de há 20 anos (cf."Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1...) mantém-se. Em todo o caso aqui fica a apresentação daquela obra na 1ª pessoa:
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quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Consumo, e cultura
O filósofo e sociólogo Gilles Lipovetsky veio agora a Aveiro participar do colóquio "Consumo - que futuro?", onde voltou a apresentar a sua tese sobre a Era do hiperconsumo - como caracteriza o actual momento civilizacional, e cuja síntese remeto para Alexandra Silva em http://ppresente.wordpress.com/textos/a-sociedade-do-hiperconsumo/. Em geral, enfim, considera que desde as décadas de 1980/90 "felicidade" foi reduzida a "soma de prazeres" (cf. Crise económico-financeira, transhumanismo... e a ...), e que o critério se tornou em absoluto o consumo, que se quer sempre mais e diferente, ao ponto de até os pobres de hoje se constituírem como consumidores, ainda que apenas potenciais! 2 Observações:
A) Em plena globalização também cultural, o projecto de vida aí denunciado é a razão da minha cautela (para não dizer pessimismo...) esta semana em Para a conferência de Copenhaga... ou há 20 anos em "Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1.... Pois, ainda para mais em democracias, não será possível implementar políticas sociais e económicas que não satisfaçam o homo consumericus de que fala Lipovetsky. E a absolutização - que já não apenas prioridade - do valor do consumo anula na prática qualquer limitação da oferta, e portanto da produção que recorre à delapidação de quaisquer recursos naturais como a água potável, o ar não poluído, etc. A actual civilização global, que assumiu o valor do consumo a que o Ocidente chegou depois de na Modernidade ter valorizado o fazer, assemelha-se pois a um gigantesco Titanic... cuja única esperança é que todos os cientistas que há décadas apontam o iceberg do equilíbrio ecológico global estejam enganados. Esperança que o homo consumericus herdou e desenvolveu do seu pai homo faber, pois se para o fazer o saber já pouco importava, então para o consumir, e num consumo em função do prazer imediato, isso (o saber) já nem se compreenderá o que seja!
1ª Consequência resolutiva: se o problema é cultural, não é dos políticos (tanto menos quanto mais dependerem das respectivas populações) que se poderá esperar uma solução consistente. Apenas os agentes culturais a poderão lançar... para depois se enredarem na questão retórica que aqui apontei em Da influência cultural e da retórica... mas também...!
B) Para a terapia cultural atrás apelada, valerá a pena voltar a pensadores das primeiras décadas do séc. XX como Martin Heidegger, Ortega y Gasset, etc., que nessa altura denunciaram o lançamento deste homo consumericus - Veja-se o modo inautêntico de existir, segundo aquele filósofo alemão, e a característica que este logo lhe reconheceu de sede da novidade pela novidade - qualquer coisa como o primo de Harry Potter perante não a qualidade dos presentes, nem sequer a sua quantidade, mas tão só a progressão numérica desta quantidade em relação à do ano anterior (!). Há muito, pois, que as elites culturais vinham percebendo e alertando para o que hoje vivemos... ou seja, para as suas consequências amanhã ("amanhã" não significa para os nossos trisnetos, significa nesta próxima década, mais ainda na seguinte...). Nem por isso no entanto a civilização ocidental, e depois o mundo, deixou de evoluir nesta direcção. Uma pois de 2, senão ambas: ou, tendo essas elites acertado no movimento em curso, não lhe perceberam a raiz, pelo que não atacaram a cabeça da serpente mas tão só uma outra parcela do seu corpo; ou até se aperceberam do que estaria causando esse movimento em curso, mas faltou-lhes a capacidade retórica de se fazerem ouvir - lembremos-nos aliás da "rebelião das massas" de que se queixou Ortega... Num nosso regresso ao estudo dessas obras de há quase 1 séc., julgo que devemos atender a estas 2 pistas.
A) Em plena globalização também cultural, o projecto de vida aí denunciado é a razão da minha cautela (para não dizer pessimismo...) esta semana em Para a conferência de Copenhaga... ou há 20 anos em "Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1.... Pois, ainda para mais em democracias, não será possível implementar políticas sociais e económicas que não satisfaçam o homo consumericus de que fala Lipovetsky. E a absolutização - que já não apenas prioridade - do valor do consumo anula na prática qualquer limitação da oferta, e portanto da produção que recorre à delapidação de quaisquer recursos naturais como a água potável, o ar não poluído, etc. A actual civilização global, que assumiu o valor do consumo a que o Ocidente chegou depois de na Modernidade ter valorizado o fazer, assemelha-se pois a um gigantesco Titanic... cuja única esperança é que todos os cientistas que há décadas apontam o iceberg do equilíbrio ecológico global estejam enganados. Esperança que o homo consumericus herdou e desenvolveu do seu pai homo faber, pois se para o fazer o saber já pouco importava, então para o consumir, e num consumo em função do prazer imediato, isso (o saber) já nem se compreenderá o que seja!
1ª Consequência resolutiva: se o problema é cultural, não é dos políticos (tanto menos quanto mais dependerem das respectivas populações) que se poderá esperar uma solução consistente. Apenas os agentes culturais a poderão lançar... para depois se enredarem na questão retórica que aqui apontei em Da influência cultural e da retórica... mas também...!
B) Para a terapia cultural atrás apelada, valerá a pena voltar a pensadores das primeiras décadas do séc. XX como Martin Heidegger, Ortega y Gasset, etc., que nessa altura denunciaram o lançamento deste homo consumericus - Veja-se o modo inautêntico de existir, segundo aquele filósofo alemão, e a característica que este logo lhe reconheceu de sede da novidade pela novidade - qualquer coisa como o primo de Harry Potter perante não a qualidade dos presentes, nem sequer a sua quantidade, mas tão só a progressão numérica desta quantidade em relação à do ano anterior (!). Há muito, pois, que as elites culturais vinham percebendo e alertando para o que hoje vivemos... ou seja, para as suas consequências amanhã ("amanhã" não significa para os nossos trisnetos, significa nesta próxima década, mais ainda na seguinte...). Nem por isso no entanto a civilização ocidental, e depois o mundo, deixou de evoluir nesta direcção. Uma pois de 2, senão ambas: ou, tendo essas elites acertado no movimento em curso, não lhe perceberam a raiz, pelo que não atacaram a cabeça da serpente mas tão só uma outra parcela do seu corpo; ou até se aperceberam do que estaria causando esse movimento em curso, mas faltou-lhes a capacidade retórica de se fazerem ouvir - lembremos-nos aliás da "rebelião das massas" de que se queixou Ortega... Num nosso regresso ao estudo dessas obras de há quase 1 séc., julgo que devemos atender a estas 2 pistas.
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domingo, 25 de outubro de 2009
Para a conferência de Copenhaga
Daqui a menos de 2 meses será negociado em Copenhaga um protocolo que substituirá o de Quioto. (Para assentarmos a credibilidade que esse outro compromisso terá valerá a pena começarmos por avaliar o grau de cumprimento do que agora termina...)
Jean Remy Davée Guimarães dá conta em http://cienciahoje.uol.com.br/155082 da preparação das posições brasileiras para essa conferência. Penso que são particularmente importantes não apenas pela relevância do Brasil (veja-se a importância ecológica da Amazónia) mas também pelo seu crescente peso simbólico: entre os BRIC (além da Rússia, Índia e China) representa as grandes economias e Estados emergentes no teatro internacional, acrescido ainda (o Brasil) duma extensão ao continente sul-americano que de algum modo acaba por representar. Talvez aquele cronista tenha optado restringir-se às questões estritamente da poluição, e uma outra questão de geopolítica e economia internacional esteja igualmente sendo preparada. Mas se não está, se aquela crónica abarca toda a discussão em curso, então temo que esteja em falta um factor que creio que a médio prazo será determinante:
As democracias espalharam-se, nomeadamente na América do Sul; mesmo nos regimes autoritários asiáticos as populações fazem-se escutar de alguma forma além das instituições democráticas. Sendo assim, mesmo que os Governos destes Estados aceitassem - por exemplo em resultado duma sua corrupção - impor aos respectivos povos um adiamento da sua convergência económica com os Estados desenvolvidos em nome do equilíbrio ecológico mundial, será muito difícil que esses povos o aceitem. A entrada dos BRIC, e outras comunidades como o Islão, no teatro das decisões internacionais - desde a II Guerra monopólio da Europa, EUA, e, em menor medida, da China - arrastará a necessidade de europeus e americanos pagarem também algum preço. Mas ninguém os paga voluntariamente. Isto só acontece quando a posição dos credores é incontornável.
Em Copenhaga, indirectamente, discutir-se-à pois a nova ordem global do Mundo. E além de argumentos específicos sobre emissões de gases poluentes,... os representantes do Brasil deverão estar preparados para discutir as condições de possibilidade de acordos comerciais, etc., pelos quais os países desenvolvidos paguem também o preço da redução de exploração directa dos recursos terrestres nos países em desenvolvimento. De outra forma custa-me a crer que quaisquer acordos ecológicos sejam implementáveis.
P.S. - Só a quem continua a julgar que não vive na Terra, isto é, que os desequilíbrios ecológicos não chegarão ao seu quintal, é que parecerá estranho que um europeu espere bem que os delegados brasileiros a Copenhaga, se possível em cooperação com os argentinos, chilenos... intervenham em ordem a uma tal reorganização do Mundo.
Jean Remy Davée Guimarães dá conta em http://cienciahoje.uol.com.br/155082 da preparação das posições brasileiras para essa conferência. Penso que são particularmente importantes não apenas pela relevância do Brasil (veja-se a importância ecológica da Amazónia) mas também pelo seu crescente peso simbólico: entre os BRIC (além da Rússia, Índia e China) representa as grandes economias e Estados emergentes no teatro internacional, acrescido ainda (o Brasil) duma extensão ao continente sul-americano que de algum modo acaba por representar. Talvez aquele cronista tenha optado restringir-se às questões estritamente da poluição, e uma outra questão de geopolítica e economia internacional esteja igualmente sendo preparada. Mas se não está, se aquela crónica abarca toda a discussão em curso, então temo que esteja em falta um factor que creio que a médio prazo será determinante:
As democracias espalharam-se, nomeadamente na América do Sul; mesmo nos regimes autoritários asiáticos as populações fazem-se escutar de alguma forma além das instituições democráticas. Sendo assim, mesmo que os Governos destes Estados aceitassem - por exemplo em resultado duma sua corrupção - impor aos respectivos povos um adiamento da sua convergência económica com os Estados desenvolvidos em nome do equilíbrio ecológico mundial, será muito difícil que esses povos o aceitem. A entrada dos BRIC, e outras comunidades como o Islão, no teatro das decisões internacionais - desde a II Guerra monopólio da Europa, EUA, e, em menor medida, da China - arrastará a necessidade de europeus e americanos pagarem também algum preço. Mas ninguém os paga voluntariamente. Isto só acontece quando a posição dos credores é incontornável.
Em Copenhaga, indirectamente, discutir-se-à pois a nova ordem global do Mundo. E além de argumentos específicos sobre emissões de gases poluentes,... os representantes do Brasil deverão estar preparados para discutir as condições de possibilidade de acordos comerciais, etc., pelos quais os países desenvolvidos paguem também o preço da redução de exploração directa dos recursos terrestres nos países em desenvolvimento. De outra forma custa-me a crer que quaisquer acordos ecológicos sejam implementáveis.
P.S. - Só a quem continua a julgar que não vive na Terra, isto é, que os desequilíbrios ecológicos não chegarão ao seu quintal, é que parecerá estranho que um europeu espere bem que os delegados brasileiros a Copenhaga, se possível em cooperação com os argentinos, chilenos... intervenham em ordem a uma tal reorganização do Mundo.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2009
"Da esperança na salvaguarda da Natureza" (14/04/1989)
Há 20 anos, 3 meses, e 22 dias publiquei no antigo jornal Açores o artigo que transcrevo em seguida, sob o título acima indicado - colocando-o tanto no seguimento (ou como antecedente!) de Sim, "problema"! (2) e de "L'abîme ou la métamorphose?" , quanto em correlação à máxima de V. Burgin: essa foi a promessa que, ontem, alguns de nós fizemos para um amanhã que, nestes últimos anos, se começou a dizer que é mesmo para "amanhã".
Se assim for, isto é, se tivermos "que viver no nosso quotidiano o que daqui decorrer" - portanto, se esse amanhã vier mesmo a ser hoje para nós - então valerá a pena apontar, de um lado, os instrumentos teórico-práticos mediante os quais uns (muitos!) fizeram a previsão de que a Natureza se auto-regenera indefinidamente; em paralelo aos instrumentos teórico-práticos mediante os quais alguns (poucos) previram antes que 1) a auto-regeneração da Natureza seria limitada, e 2) que nos estávamos a aproximar a uma velocidade crescente desse limite.
Por outro lado, relativamente apenas a esta 2ª previsão, valerá a pena apontar os instrumentos teórico-práticos mediante os quais alguns destes previram que uma retórica apropriada poderia levar a uma reorientação política, económica e social que evitasse consequências ecológicas graves; em paralelo aos instrumentos teórico-práticos mediantes os quais outros, creio que menos ainda, previmos que essa reorientação só seria possível quando as populações mais implicadas na poluição começassem a partir os dentes na parede por elas criadas. Esperando depois "que ainda vão a tempo"...
Por certo que instrumentos que tenham uma vez facultado previsões que se verificam não ficam por isso garantidos para todo o sempre. Mas, no mínimo, merecerão agora um pouco mais de atenção do que aqueles outros cujo uso tiver falhado redondamente.
"Chegam notícias de problemas ecológicos, e de conferências internacionais sobre as medidas a tomar, de missões científicas que os estudam, de confrontos entre populações e polícia, ou até mesmo de tensões entre países a propósito desta questão. Tudo isso sem resultados animadores à vista. A partir daí, e fazendo fé nos alertas que se têm lançado, mesmo que nestes se desconte algum exagero, que esperança pode ter o cidadão comum na manutenção do actual estado da Natureza, ou do seu melhoramento em casos que já o imponham?
Em primeiro lugar tomemos consciência que este problema poderá mesmo ser nosso, isto é, é bem possível que tenhamos que viver no nosso quotidiano o que daqui decorrer. Por um lado, quanto às medidas que se tomarem: porque se pensa hoje que o que acontece num ponto do planeta terá consequências no ponto oposto, e zonas como a Amazónia podem ter mesmo uma importância vital; e porque o princípio da nossa atitude quanto às questões globais, para as quais não somos tidos nem achados a não ser para a partilha das consequências (embora aqui, para compensar a ausência nas decisões, poderá caber-nos a parte do leão, que é o que nestas coisas costuma acontecer aos mais pobres, como já se vai vendo, se bem que por enquanto só com os mais pobres dos pobres), é o mesmo princípio que nos norteará nos assuntos da nossa jurisdição. Por outro lado, quanto à perspectiva do momento das consequências eventuais: porque o tempo histórico é relativo, uma década contemporânea faz a história avançar mais do que um século de ainda há pouco tempo atrás - não se pode perspectivar o futuro a partir do ritmo histórico do passado; e porque não é por uma coisa nunca ter acontecido que se pode concluir que não acontecerá - o avanço tecnológico pôs o planeta nas nossas mãos, e quer para o presente quer, segundo se julga quanto à radioactividade, para a determinação dos próximos milénios - talvez fosse de pensar nisto nas pausas para o café, se é que de facto é em nome dos nossos filhos, e dos seus cinco automóveis, três moradias, e férias no Hawai, que a actual febre progressista encontra o seu fundamento...
A estrutura política que condicionará as decisões que se tomarem será, maioritariamente, democrática, pois este é o regime da maioria dos países altamente industrializados - os mais poderosos e os mais poluentes. Que esperar então da resposta democrática a este problema? Pouco. A política, em democracia, está bastante condicionada pelo eleitorado; ora este geralmente é estúpido. Não nos referimos à incapacidade de raciocinar, ou seja, de encadear juízos segundo regras lógicas. Referimo-nos antes à incapacidade de constituir propriamente aquilo que, seguidamente, poderá ser objecto de raciocínios; trata-se de clareza e profundidade. Os políticos, para além de estarem bastante condicionados pelos seus eleitores, não costumam dar provas de ficarem muito atrás destes últimos quanto à incapacidade referida - como sinal disto, veja-se como são tão raros quanto honrosos os exemplos de líderes com uma consciência do processo histórico que lhes tenha permitido uma actuação que, mesmo sem grandes méritos imediatos, optimizasse o médio e longo prazo. Habitualmente as atenções incidem sobre o mais imediato - o que não levantou dificuldades de maior enquanto as consequências nem eram planetárias nem milenárias; mas, agora, e pela alteração destas características, não importa repetir que o horizonte do problema estará a mudar.
Por outro lado, aquilo que se vê é visto "por de dentro" dum modelo cultural, que determina a consideração de problemas e objectos. O nosso modelo privilegia a produção de riqueza, sua posse, e seu usufruto ao nível de bens e comodidades materiais. Se os telespectadores assistem às notícias inicialmente referidas é porque podem fazê-lo (!) - é porque têm disponibilidade económica para tanto, ou seja, é porque há riqueza. E, com os meios de produção conhecidos, essa riqueza supõe poluição.
Pois bem, tendo em conta a referida estupidez habitual das massas populares e respectivos representantes políticos (não pretendendo esquecer as excepções, mas tendo em conta que, neste caso, dificilmente algum governo isolado poderá ter sucesso), e ainda o modelo cultural que os determina no Ocidente, será previsível uma troca de riqueza pelo equilíbrio ecológico? Por outras palavras: estará o telespectador, açoriano, japonês, russo ou americano - não serão muito diferentes - disposto a abdicar da poltrona, do assado bem regado, ou da própria televisão, em nome duma distante Amazónia, ou duma Natureza que, para muitos, já pouco mais será que puramente televisiva?! Certamente que não. Pelo menos enquanto o uso da riqueza possível não depender precisamente do equilíbrio ecológico.
Ora é disto mesmo que alguns afirmam estarmo-nos a aproximar. A tolerância da Natureza não será infinita e, uma vez ultrapassada, poderá ocorrer um desequilíbrio com consequências muito variadas e muito graves. Desviando-nos um pouco da ecologia, um outro alerta se coloca, talvez mais grave: é discutível se esse modelo cultural que se tem referido satisfaz o "destino" do homem.
Quanto a este último alerta, e para os social e culturalmente bem inseridos, restará esperar que não tenha sentido, para que se não diga que morrerão antes de nascerem (paráfrase a Erich Fromm, em Psicanálise da Sociedade Contemporânea, faltando-me a referência bibliográfica completa). Ainda neste tema, diga-se que um modelo alternativo ao actual, para onde esse alerta apontaria, se concretizado colectivamente - o que de qualquer outro modo não será possível - conduziria a uma revolução de tal monta que a de 1917, se comparada, não passaria dum mero golpe palaciano!
Quanto à salvaguarda da Natureza, que foi o que directamente aqui nos trouxe, tendo em conta as condicionantes políticas, económicas e culturais, resta esperar que se enganem os que anunciam desastres ecológicos e médio prazo. Se assim não for, então que quando se multiplicarem os índices de cancro, atribuindo os especialistas tal fenómeno à rarefacção do ozono, ou as falhas nos depósitos de lixos radioactivos, e "marchando" a esposa do nosso telespectador por este meio; e que quando se usarem máscaras de oxigénio no funeral da senhora (tal seja a catástrofe!), falando-se aí, em vez das anedotas habituais, duma certa mata sul-americana chamada Amazoniasinha, que ao menos as medidas político-económicas que, nessa altura, e por mais altares que se tenham erguido à produtividade, ou por mais fundo que os cifrões estejam marcados nas testas do telespectador e seu representante político, certamente saltarão para o topo das prioridades, resta-nos esperar, como dizíamos, que ainda vão a tempo."
Se assim for, isto é, se tivermos "que viver no nosso quotidiano o que daqui decorrer" - portanto, se esse amanhã vier mesmo a ser hoje para nós - então valerá a pena apontar, de um lado, os instrumentos teórico-práticos mediante os quais uns (muitos!) fizeram a previsão de que a Natureza se auto-regenera indefinidamente; em paralelo aos instrumentos teórico-práticos mediante os quais alguns (poucos) previram antes que 1) a auto-regeneração da Natureza seria limitada, e 2) que nos estávamos a aproximar a uma velocidade crescente desse limite.
Por outro lado, relativamente apenas a esta 2ª previsão, valerá a pena apontar os instrumentos teórico-práticos mediante os quais alguns destes previram que uma retórica apropriada poderia levar a uma reorientação política, económica e social que evitasse consequências ecológicas graves; em paralelo aos instrumentos teórico-práticos mediantes os quais outros, creio que menos ainda, previmos que essa reorientação só seria possível quando as populações mais implicadas na poluição começassem a partir os dentes na parede por elas criadas. Esperando depois "que ainda vão a tempo"...
Por certo que instrumentos que tenham uma vez facultado previsões que se verificam não ficam por isso garantidos para todo o sempre. Mas, no mínimo, merecerão agora um pouco mais de atenção do que aqueles outros cujo uso tiver falhado redondamente.
"Chegam notícias de problemas ecológicos, e de conferências internacionais sobre as medidas a tomar, de missões científicas que os estudam, de confrontos entre populações e polícia, ou até mesmo de tensões entre países a propósito desta questão. Tudo isso sem resultados animadores à vista. A partir daí, e fazendo fé nos alertas que se têm lançado, mesmo que nestes se desconte algum exagero, que esperança pode ter o cidadão comum na manutenção do actual estado da Natureza, ou do seu melhoramento em casos que já o imponham?
Em primeiro lugar tomemos consciência que este problema poderá mesmo ser nosso, isto é, é bem possível que tenhamos que viver no nosso quotidiano o que daqui decorrer. Por um lado, quanto às medidas que se tomarem: porque se pensa hoje que o que acontece num ponto do planeta terá consequências no ponto oposto, e zonas como a Amazónia podem ter mesmo uma importância vital; e porque o princípio da nossa atitude quanto às questões globais, para as quais não somos tidos nem achados a não ser para a partilha das consequências (embora aqui, para compensar a ausência nas decisões, poderá caber-nos a parte do leão, que é o que nestas coisas costuma acontecer aos mais pobres, como já se vai vendo, se bem que por enquanto só com os mais pobres dos pobres), é o mesmo princípio que nos norteará nos assuntos da nossa jurisdição. Por outro lado, quanto à perspectiva do momento das consequências eventuais: porque o tempo histórico é relativo, uma década contemporânea faz a história avançar mais do que um século de ainda há pouco tempo atrás - não se pode perspectivar o futuro a partir do ritmo histórico do passado; e porque não é por uma coisa nunca ter acontecido que se pode concluir que não acontecerá - o avanço tecnológico pôs o planeta nas nossas mãos, e quer para o presente quer, segundo se julga quanto à radioactividade, para a determinação dos próximos milénios - talvez fosse de pensar nisto nas pausas para o café, se é que de facto é em nome dos nossos filhos, e dos seus cinco automóveis, três moradias, e férias no Hawai, que a actual febre progressista encontra o seu fundamento...
A estrutura política que condicionará as decisões que se tomarem será, maioritariamente, democrática, pois este é o regime da maioria dos países altamente industrializados - os mais poderosos e os mais poluentes. Que esperar então da resposta democrática a este problema? Pouco. A política, em democracia, está bastante condicionada pelo eleitorado; ora este geralmente é estúpido. Não nos referimos à incapacidade de raciocinar, ou seja, de encadear juízos segundo regras lógicas. Referimo-nos antes à incapacidade de constituir propriamente aquilo que, seguidamente, poderá ser objecto de raciocínios; trata-se de clareza e profundidade. Os políticos, para além de estarem bastante condicionados pelos seus eleitores, não costumam dar provas de ficarem muito atrás destes últimos quanto à incapacidade referida - como sinal disto, veja-se como são tão raros quanto honrosos os exemplos de líderes com uma consciência do processo histórico que lhes tenha permitido uma actuação que, mesmo sem grandes méritos imediatos, optimizasse o médio e longo prazo. Habitualmente as atenções incidem sobre o mais imediato - o que não levantou dificuldades de maior enquanto as consequências nem eram planetárias nem milenárias; mas, agora, e pela alteração destas características, não importa repetir que o horizonte do problema estará a mudar.
Por outro lado, aquilo que se vê é visto "por de dentro" dum modelo cultural, que determina a consideração de problemas e objectos. O nosso modelo privilegia a produção de riqueza, sua posse, e seu usufruto ao nível de bens e comodidades materiais. Se os telespectadores assistem às notícias inicialmente referidas é porque podem fazê-lo (!) - é porque têm disponibilidade económica para tanto, ou seja, é porque há riqueza. E, com os meios de produção conhecidos, essa riqueza supõe poluição.
Pois bem, tendo em conta a referida estupidez habitual das massas populares e respectivos representantes políticos (não pretendendo esquecer as excepções, mas tendo em conta que, neste caso, dificilmente algum governo isolado poderá ter sucesso), e ainda o modelo cultural que os determina no Ocidente, será previsível uma troca de riqueza pelo equilíbrio ecológico? Por outras palavras: estará o telespectador, açoriano, japonês, russo ou americano - não serão muito diferentes - disposto a abdicar da poltrona, do assado bem regado, ou da própria televisão, em nome duma distante Amazónia, ou duma Natureza que, para muitos, já pouco mais será que puramente televisiva?! Certamente que não. Pelo menos enquanto o uso da riqueza possível não depender precisamente do equilíbrio ecológico.
Ora é disto mesmo que alguns afirmam estarmo-nos a aproximar. A tolerância da Natureza não será infinita e, uma vez ultrapassada, poderá ocorrer um desequilíbrio com consequências muito variadas e muito graves. Desviando-nos um pouco da ecologia, um outro alerta se coloca, talvez mais grave: é discutível se esse modelo cultural que se tem referido satisfaz o "destino" do homem.
Quanto a este último alerta, e para os social e culturalmente bem inseridos, restará esperar que não tenha sentido, para que se não diga que morrerão antes de nascerem (paráfrase a Erich Fromm, em Psicanálise da Sociedade Contemporânea, faltando-me a referência bibliográfica completa). Ainda neste tema, diga-se que um modelo alternativo ao actual, para onde esse alerta apontaria, se concretizado colectivamente - o que de qualquer outro modo não será possível - conduziria a uma revolução de tal monta que a de 1917, se comparada, não passaria dum mero golpe palaciano!
Quanto à salvaguarda da Natureza, que foi o que directamente aqui nos trouxe, tendo em conta as condicionantes políticas, económicas e culturais, resta esperar que se enganem os que anunciam desastres ecológicos e médio prazo. Se assim não for, então que quando se multiplicarem os índices de cancro, atribuindo os especialistas tal fenómeno à rarefacção do ozono, ou as falhas nos depósitos de lixos radioactivos, e "marchando" a esposa do nosso telespectador por este meio; e que quando se usarem máscaras de oxigénio no funeral da senhora (tal seja a catástrofe!), falando-se aí, em vez das anedotas habituais, duma certa mata sul-americana chamada Amazoniasinha, que ao menos as medidas político-económicas que, nessa altura, e por mais altares que se tenham erguido à produtividade, ou por mais fundo que os cifrões estejam marcados nas testas do telespectador e seu representante político, certamente saltarão para o topo das prioridades, resta-nos esperar, como dizíamos, que ainda vão a tempo."
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condição do Ocidente,
ecologia
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