"71. (...) É necessário que aos trabalhadores se dê um salário que lhes proporcione um nível de vida verdadeiramente humano e lhes permita enfrentar com dignidade as responsabilidades familiares. (...)
91. (...) é legítima nos trabalhadores a aspiração a participarem activamente na vida das empresas, em que estão inscritos e trabalham. (...)
92. (...) O que supõe, também, poderem os trabalhadores fazer ouvir a sua voz e contribuir para o bom funcionamento e o progresso da empresa. (...)"
Estas não são frases de algum barbudo revolucionário vestido de caqui e com pistola à cinta... mas sim do Papa João XXIII, na Carta Encíclica Mater et Magistra, de 15 de Maio de 1961 (sobre a posição económica e política dos trabalhadores, v. Parágs. 68-103). Lembrei-me de passagens como essas ao ouvir ontem à noite a notícia da venda da Volvo, pela Ford, à chinesa Geely, dado o simbolismo, ou exemplaridade de que a Volvo se revestiu (creio que) nos anos 1970 em relação à organização técnica do trabalho. A saber, contra o taylorismo, em que cada trabalhador repete indefenidamente uma mesma tarefa que lhe é atribuída (cf. Charles Chaplin, Os Tempos Modernos!...), aquela construtura escandinava - da terra da social-democracia, onde surgiu depois a flexigurança... - terá ensaiado uma organização em que cada automóvel seria montado, ao longo das etapas do processo, por uma mesma equipa. Os custos da formação dos membros desta seriam compensados (esperava-se) pelo cuidado nos pormenores por se aperceberem da função de cada peça, e porventura também pelo empenho que adviria duma maior satisfação (por muito menor alienação) no trabalho. Lembrei-me disto por me ocorrer a ideia de ter lido algures que o Papa Paulo VI, numa deslocação à América latina (em 1968 na Conferência de Bispos em Medellin?) terá mesmo apontado a Volvo como exemplo de uma das formas de dignificação do trabalho - mas não tentei confirmar esta recordação.
Agora, neste início do séc. XXI, quando o capital mundial volta a acumular-se onde, segundo os historiadores da economia, sempre se acumulara até ao início da Revolução Industrial - na China... - e que se sobrevaloriza até em relação ao trabalho contra a relação que mantiveram nesse historicamente estranho e anormal séc. XX (cf. Da empregabilidade e dos salários na globalização), o que vai ser da organização técnica do trabalho?
Quem dá o pão, dá o pau - Preocupar-se-ão os capitalistas chineses com o que o Papa chamou "nível de vida verdadeiramente humano" dos trabalhadores na Volvo?... Se, mesmo no Ocidente actual, a responsabilidade social de quem gere o capital já é o que se viu na escolha pelos altos administradores de objectivos apenas de curto prazo (conferindo-se a si próprios prémios extraordinários pelo cumprimento destes), e que levou à crise aberta em 2008, qual será a responsabilidade social que assumirão os novos donos de antigas empresas ocidentais?...
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Miguel,
ResponderEliminarVc por acaso esteve por um tempo no Quitandinha - Brasil? Se era vc, por favor me responda.
Carla
carlaambraz@hotmail.com